A JORNADA ALQUÍMICA DO HOMEM DA MÁSCARA DE FERRO
IINTRODUÇÃO
O presente trabalho destina-se a usar o filme O Homem da Máscara de Ferro para salientar elementos alquímicos presentes em sua trajetória. A ilustração com elementos do filme em analogias, tendo como referência bibliográfica C. G. Jung, que se dedicou à ciência e arte da alquimia após seu contato com a obra de Richard Wilhelm – O Segredo da Flor de Ouro. Edward Edinger tem seu trabalho em alquimia de forma muito didática nos livros Anatomia da Psique e O Mistério da Coniunctio, tendo utilizado ainda Shawn Waldron e seu importante artigo A curious metaphor – Engaging with trauma: an analytical perspective, que será utilizado para fundamentar o trauma em alquimia.
A escolha do filme O Homem da Máscara de Ferro como objeto de análise simbólica permite uma aproximação privilegiada entre narrativa cinematográfica, imaginação arquetípica e processos psíquicos profundos descritos pela psicologia analítica. O cinema, enquanto linguagem imagética, aproxima-se do modo como o inconsciente se expressa: por imagens, cenas, repetições e afetos que antecedem a formulação conceitual. Nesse sentido, o filme não é tomado como ilustração didática da teoria, mas como campo simbólico vivo, passível de amplificação.
A alquimia, tal como compreendida por C. G. Jung, constitui uma das expressões mais completas da tentativa humana de dar forma simbólica às transformações da psique. A partir de seu contato com O Segredo da Flor de Ouro, Jung reconhece que os textos alquímicos descrevem, em linguagem projetiva, processos equivalentes àqueles vivenciados no percurso analítico. O opus alquímico passa a ser compreendido como uma metáfora do processo de individuação, no qual a matéria a ser transformada é o próprio sujeito.
Edward Edinger aprofunda essa perspectiva ao organizar as operações alquímicas como imagens do desenvolvimento da consciência, oferecendo uma leitura que articula símbolo, clínica e transformação psíquica. Sua contribuição permite compreender que tais operações não se sucedem de maneira linear, mas oscilam, retornam e se tensionam mutuamente, refletindo a complexidade do trabalho analítico.
A inclusão do artigo de Shawn Waldron amplia essa leitura ao introduzir o campo do trauma como um elemento central do processo alquímico. Waldron propõe que o trauma pode ser compreendido como um vaso de intensa pressão psíquica, no qual forças opostas permanecem contidas até encontrarem possibilidade de transformação. Essa concepção dialoga diretamente com as formulações de Donald Kalsched sobre o trauma precoce, especialmente no que se refere à cisão da psique e à formação de estruturas defensivas que visam preservar a sobrevivência psíquica diante de experiências intoleráveis.
Dessa forma, este trabalho propõe compreender a trajetória do personagem Philippe como um opus alquímico atravessado pela experiência traumática, no qual a máscara de ferro assume função simbólica central: inicialmente como instrumento de aniquilamento da identidade e, posteriormente, como elemento integrado à consciência. A análise busca evidenciar como o processo de transformação não elimina o sofrimento, mas possibilita uma nova relação com ele, abrindo caminho para a individuação mesmo em contextos de extrema violência psíquica.
O FILME – O HOMEM DA MÁSCARA DE FERRO
Lançado em 1998, o filme estadunidense é o quarto filme adaptado da obra O Visconde de Bragelonne, de Alexandre Dumas.
Primeiro filme dirigido por Randall Wallace, tem em seu elenco Leonardo DiCaprio, Jeremy Irons, John Malkovich, Gerard Depardiéu, e Gabriel Byrne.
Uma história oriunda do século XVII, com todo o mistério e élan que as histórias que envolvem segredos, tramas, traições, monarquia e poder emanam.
A ambientação histórica do século XVII não funciona apenas como pano de fundo narrativo, mas como campo simbólico marcado pela centralidade do poder monárquico, da hierarquia e da persona régia. A monarquia absoluta exige a construção de uma imagem idealizada do rei, sustentada por rituais, aparatos simbólicos e narrativas de legitimidade. Tal contexto favorece leituras psicológicas que articulam poder e inflação, bem como a dissociação entre imagem pública e realidade psíquica.
O mistério que atravessa a narrativa – a existência de um irmão oculto – pode ser compreendido simbolicamente como aquilo que precisa ser mantido fora da consciência para que a estrutura de poder se sustente. O segredo não é apenas político, mas psíquico: algo precisa ser excluído para que a persona régia permaneça intacta.
Algumas versões são postas – o prisioneiro seria irmão ilegítimo do Rei Luís XIV, ou seu irmão gêmeo (o que geraria disputa de poder ou enfraquecimento da monarquia), ou seria um homem que deveria ser silenciado, mas não morto.
As diferentes versões sobre a identidade do prisioneiro revelam a instabilidade simbólica que a figura representa. Independentemente da versão, trata-se de alguém cuja existência ameaça uma ordem estabelecida. Psicologicamente, essa figura pode ser compreendida como o conteúdo psíquico rejeitado, recalcado ou dissociado, cuja simples presença coloca em risco uma identidade inflacionada. O fato de não poder ser morto, mas apenas silenciado, sugere que aquilo que é excluído da consciência não desaparece, apenas retorna de forma sintomática, mascarada ou subterrânea.
Alexandre Dumas, célebre romancista e dramaturgo francês, autor de Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo, traz essa versão, como pertencente à trilogia de Os Três Mosqueteiros.
No século XVII, o cruel Luís XIV (Leonardo DiCaprio) manda clandestinamente para a masmorra o irmão gêmeo que ninguém sabe existir, para tomar o poder.
Luís XIV era um rei mesquinho, incapaz de uma gentileza, que usava seu poder e dinheiro somente a seu favor, sem pensar em súditos ou mesmo em sua mãe. Era uma pessoa sem empatia, sem amor, sem respeito ao próximo, sem escrúpulos. Os Três Mosqueteiros Originais – Athos, Porthos e Aramis – haviam se afastado da frente da Guarda Real, mas D’Artagnan era o chefe. Porthos, interpretado por Gérard Dèpardieu era um homem que vivia a lúxuria, com mulheres, bebidas e farras. Athos (John Malkovich) apresentava sinais de miopia grave, tinha um filho Mosqueteiro, Raoul, que havia retornado da guerra e estava prestes a se casar. Aramis, interpretado por Jeremy Irons, era Padre e liderava movimentos de insatisfação contra o rei.
A caracterização de Louis XIV como um rei cruel e desprovido de empatia permite uma leitura psicológica que ultrapassa o julgamento moral. Louis encarna uma personalidade inflacionada, rigidamente identificada com a persona do poder. Sua incapacidade de reconhecer o outro como sujeito evidencia uma dissociação entre ego e Self, na qual a autoridade externa substitui qualquer referência ética interna.
A eliminação simbólica do irmão representa, nesse sentido, a tentativa de eliminar qualquer contato com a alteridade interna. Philippe não é apenas um rival político, mas o portador de uma dimensão psíquica que Louis não pode integrar sem colocar em risco sua identidade inflada.
O Rei Louis XIV se encantou com a futura esposa de Raoul e o enviou para a frente de batalha, para que ela, vulnerável, se entregasse a ele. D’Artagnan alertou Athos sobre o movimento do Rei e Athos sentiu-se traído por D’Artagnan, que defendia o Rei inescrupuloso em detrimento de sua amizade
Aramis conduz Porthos e D’Artagnan a uma tumba, bem como a Athos. Faz segredo e enaltece seus feitos quando jovens, lutando contra injustiças. Esclarece a insurgência dos jesuítas contra o rei e a fome que seu reinado traz, ratifica que o rei ordenou a morte do líder dos jesuítas – no caso, ele. Aramis então fala que pretende substituir o Rei e que há uma forma de isso ser feito. D’Artagnan recusa-se a ouvir, enquanto Porthos e Athos se aliam a Aramis sem sequer saber o plano. D’Artagnan alega não poder trair o rei, ter feito um juramento e lutar por acreditar que todo homem pode ser melhor. Aramis afirma poder ver que D’Artagnan sofre por esconder um segredo, mas D’Artagnan nada revela, posicionando-se a defender o Rei Louis com sua vida, ao que Aramis responde, religiosamente, com uma benção “Que Deus esteja com você, pois, nenhum de nós estará.”
Na cena em sequência, simbolicamente, a máscara sendo forjada, em um tonel (vaso alquímico), com ferro fundido e fogo. Nada pode ser mais símbolo alquímico do que essa cena. Simbolicamente, o prisioneiro na máscara de ferro, em uma masmorra úmida, escura e fria, desenha uma lua e escreve “luna” no chão.
Essa cena concentra, de forma condensada, dois movimentos alquímicos distintos e complementares. A forja da máscara introduz a lógica da transformação imposta de fora para dentro, na qual a matéria é violentamente moldada sem participação consciente do sujeito. Já o gesto de desenhar a lua no interior da masmorra aponta para um movimento oposto: uma tentativa espontânea da psique de manter vivo um princípio simbólico, apesar do aprisionamento.
Enquanto o ferro e o fogo representam forças externas de coerção e endurecimento psíquico, o símbolo lunar emerge como expressão do feminino arquetípico e da função imaginal, que não pode ser totalmente erradicada nem mesmo em condições extremas de privação. O contraste entre esses dois registros — o da violência estruturante e o da imaginação sobrevivente — antecipa a tensão central do percurso de Philippe: a coexistência entre uma identidade forjada pela dor e um núcleo psíquico que resiste à aniquilação.
Do ponto de vista clínico, essa imagem dialoga com as formulações sobre trauma precoce, nas quais o ego se vê submetido a defesas rígidas, enquanto o Self busca preservar, de forma rudimentar, alguma possibilidade de simbolização. O desenho da lua não representa ainda integração, mas testemunha a presença de um potencial psíquico que poderá, mais adiante, ser retomado no processo de transformação.
Colocando o plano em ação, Aramis, Athos e Porthos vão à fortaleza onde estava o prisioneiro, com um plano de escape. Aramis carrega, amarrado em seu corpo, um cadáver, com uma máscara de ferro. Ao encontrar-se com o prisioneiro, coloca o cadáver no chão. O prisioneiro pergunta quem é, e Aramis responde: é você. É a primeira vez em que vê a máscara de ferro, como é visto. Assombrado, sem questionar, obedece às orientações do mosqueteiro aposentado, e conseguem escapar, simulando peste e disfarçando com um incêndio. – A máscara como parte de seu reconhecimento de si, o fogo como um ressurgimento, um fim e transmutação alquímica. É a mudança para o novo, o que há de vir.
Para retirar a máscara de ferro, sem chave, sem poder usar a dilatação de fogo pela condutibilidade da temperatura, há uma cena impactante, em que a máscara é retirada a marretadas, com a imaginação da dor que isso poderia causar, em uma cena com fogo por trás do personagem. Ao retirar a máscara, surge o personagem, com barba e cabelo cobrindo o rosto, visto que não havia sequer assepsia por debaixo da máscara (Pode-se inferir, portanto, presença de piolhos, pulgas devido à não higiene e a época) e Philippe ao ver sua imagem refletida em uma tina de água, desmaia ao se re-conhecer.
A retirada violenta da máscara, realizada a golpes, indica que o acesso à identidade ocorre de forma traumática, sem mediação simbólica suficiente. Não se trata de uma revelação progressiva, mas de uma ruptura abrupta da defesa que até então garantia a sobrevivência psíquica. O desmaio diante da própria imagem revela que o ego não possui ainda estrutura para sustentar o contato com o Self emergente.
Ao recobrar os sentidos, é servida água para que bebesse, de uma jarra de prata, em um copo de prata (prata, metal nobre, pode simbolizar pureza e nobreza para quem serve e é servido, não interfere no gosto dos alimentos). Ele tem dificuldades de manusear o copo até a boca, pois havia se habituado à máscara. Então, questiona a Athos porque foi preso, salientando o fato de ter esperado seis anos para fazer essa pergunta. A réplica vem em pergunta sobre suas memórias e ele conta que lembra que vivia no campo, com guardiões, uma idosa e um padre; um homem vestido de preto chegou e o levou para a prisão. Mesmo sem saber o que havia feito, percebeu que algo em seu rosto era o problema, motivo pelo qual deveria ser escondido.
A água, elemento da solutio, dissolve a identidade construída a partir da ausência, mas o faz de maneira excessiva, provocando colapso temporário da consciência. Jung advertia que o confronto prematuro com conteúdos inconscientes pode produzir desorganização psíquica, sobretudo quando o ego não foi suficientemente estruturado sendo esta uma condição frequentemente observada em quadros de trauma precoce.
Athos questiona Aramis sobre quem Philippe é e é cobrado por sua amargura, oriunda da perda de Raoul e D’Artagnan.
Após o banho, sem barba, Aramis surge com o adágio “O Maior mistério da vida é saber quem realmente somos.” e conta sobre o mistério que circunda a vida de Philippe. Conta sobre o nascimento de Louis, de terem nascido gêmeos e ele ter recebido o irmão mais novo. O rei decidiu esconder do próprio filho sua identidade a fim de proteger o reino, pois muitos reinos encerravam-se em torno da primogenitura gemelar. Disse à rainha que Philippe havia morrido ao nascer e só revelou à rainha e à Louis que Philippe existia em seu leito de morte. Louis se tornou rei e, embora tivesse medo de matar o irmão, não hesitou em exilá-lo ainda mais do que simplesmente mantê-lo no campo. Aramis era o cavaleiro vestido de preto que trouxe a escuridão da masmorra e da máscara de ferro para a vida de Philippe.
Então Aramis conta o plano de substituir Louis por Philippe, ao que Athos responde ser insanidade, pois corresponderia a arriscar as vidas, não somente dos três mosqueteiros, mas também a de Philippe. Aramis ratifica que Philippe tem escolha e que a postura de Louis e sua arrogância podem ser imitadas, e questiona se os anos de injustiça lhe deram força para lutar contra o status quo, ser um rei. Philippe nada responde, titubeante, inseguro, como reflexo de tudo que sofreu em seu trauma.
Louis recebe a notificação da morte de Philippe – a morte forjada, do cadáver trocado na fuga, com a máscara, que não fora destruída pelo fogo. E tem ojeriza ao colocá-la simulacralmente em seu rosto.
Dartagnan ao ver a rainha em luto pela morte do filho, declara seu amor, dizendo saber ser traição a seu país, em oposição a não trair seu coração, ao que ela responde serem ambos traidores.
Athos salienta que Philippe não está pronto para substituir Louis, de ele ser como uma criança – o trauma e o desamparo afetaram seu desenvolvimento emocional. Pede um ano ou dois para prepará-lo e Aramis diz que terá três semanas até um baile de máscaras.
“Por seis anos ele viveu com a máscara e agora ele sabe que quem deveria tê-lo amado, arrancou-lhe a identidade, tirou-lhe o direito de nascimento e primogenitura, e o jogou para a solidão e a dor.”
Personagem de Athos, no filme. O Homem da Máscara de Ferro
Philippe pede um motivo para aceitar fingir ser um rei odiado e Aramis fala dos desígnios de Deus, Porthos fala dos prazeres mundanos e Athos afirma que acreditara que viveria servindo a algo maior do que a si – Aramis, sua fé; Porthos, a luxúria, D’Artagnan, sua devoção e ele, Raoul – com um sonho em comum: de servir a um rei que merecesse e que ensinara seu filho os mesmos valores. Termina seu discurso perguntando se a morte de Raoul foi em vão. Philippe resolve iniciar o treinamento.
Enquanto isso, no palácio, Christine, a noiva de Raoul, recebe sua carta póstuma, onde ele pede que ela não se culpe por nada. Ela percebeu o engenho de Louis e o repeliu em um momento de intimidade, confrontando-o, ao que ele responde que mandou Raoul para longe da guerra. Ela afirma fingir seu amor por Louis, e assume seu pecado contra o amor e Deus e afirma que irão para o inferno, e ele ratifica sua posição de escolhido por Deus.
Em meio ao treinamento, Athos afirma que o Rei nunca pede desculpas, pois ele nunca está errado, e Philippe deseja saber se é esse rei que ele deve ser. Athos explica que ele deve ser assim até substituí-lo e estar em segurança.
Aramis toma o lugar do padre confessor da Rainha, e a engendra no plano para substituição Philippe/Louis. Em um diálogo com analogias e simbolismos, falam sobre uma mentira destruir vidas e uma verdade reconstruí-las.
Parte do plano é sobreviver à noite sem levantar desconfianças e pela manhã nomear Athos, Porthos e Aramis como seus conselheiros.
O baile, reluzente, em dourado, vermelho e amarelo, com máscaras douradas e D’Artagnan atento. os mosqueteiros Aramis e Porthos utilizam máscaras de ferro sob as máscaras douradas, a fim de causar certo atordoamento em Louis, que tem um misto de culpa e medo da imagem da máscara. Devemos lembrar que a cultura à época impingia castigos divinos a quem matasse filhos de reis, mesmo sendo um deles. Eles retiram a máscara em movimentos, mostrando somente a máscara de ferro, para o deixar confuso. A ideia era retirá-lo para o quarto enquanto todos estivessem ocupados no baile. Louis, arrogante, com falta de ar, recusa ajuda de D’Artagnan, enquanto os mosqueteiros vão pela passagem secreta e o substituem por Philippe. D’Artagnan continua no corredor, o que faz com que saiam pela passagem para o retorno ao salão. Philippe agora está em vermelho e dourado, reluzente, assumindo seu lugar como Rei, ainda que substituindo o irmão. Inseguro, abraça Athos que diz que seu coração é de rei.
Com postura austera passa por dentre os súditos e chega ao trono, amarelo e dourado e com um simples gesto, ordena a continuidade do baile. Causa estranhamento ao ajudar uma senhora que caíra, mas isso passa pela repentina chegada da Rainha, que transparece emoção, doçura e alegria, pelo olhar e sorriso, de forma quase incontida. ao ouvir a saudação ao Rei e à Rainha-mãe, D’Artagnan adentra o quarto do Rei e não o encontrando, vai ao salão e questiona há quanto tempo o Rei voltara. A rainha diz a Philippe que vai se retirar e o orienta a esperar uma ou duas danças e fazer o mesmo. D’Artagnan a intercepta e, ela, diz somente: amanhã.
Fora do plano, Christine adentra o salão, acusando Louis (Philippe) de assassino. sua reação causa estranhamento em D’Artagnan e em todos os presentes. D’Artagnan avisa para os mosqueteiros protegerem as passagens e busca o rei para que o acompanhe.
Os mosqueteiros localizam Athos, Porthos e Aramis e inicia-se uma batalha para impedir a evasão do castelo. Apesar de ganharem a luta, na fuga, conseguiram fechar os portões e os três estavam encurralados. D’Artagnan, capitão dos mosqueteiros, chega, com Philippe. Athos toma Louis como refém e ordena Philippe que entre no barco e que abram o portão. É denunciado pelo pedido de desculpas de Philippe e D’Artagnan toma Philippe como refém. Eles estavam saindo do castelo quando Philippe foi capturado. D’Artagnan, iluminado pelo fogo, em desalento, vê seus amigos descendo o rio.
D’Artagnan fica estupefato pela existência do irmão, e que o Rei e a Rainha-mãe soubessem sobre isso. D’Artagnan diz então que nunca pediu nada para si, e pede pela vida do irmão do rei, que nega; dizendo D’Artagnan não ter direito de pedir nada a respeito disso. D’Artagnan se ajoelha, dizendo tê-lo protegido durante toda sua vida, ter sangrado por ele e rezado que ele se tornasse um bom rei, melhor do que a lei, pedindo que mostrasse que a sua fé e sangue conseguiram algo, pedindo piedade. Louis se vitimiza, colocando d’Artagnan como traidor ao lado dos outros, dizendo para ver o que o irmão tentara fazer com ele; não considerando o que ele fizera ao irmão. D’Artagnan diz que, por um momento, pensou que Louis se tornara o rei que ele sonhara (referindo-se à atitude demonstrada com Christine no baile).
Philippe pede a palavra e pede ser morto ao invés de ser enclausurado na máscara. Louis, em sua vilania, afirma que D’Artagnan irá trazer as cabeças de Athos Porthos e Aramis e que Philippe voltará à prisão e usar a máscara até amá-la e morrer usando.
D’Artagnan interpelou a Rainha sobre a existência de dois filhos e ela contrapõe a seu sofrimento, dizendo que ele já sofria muito e, portanto, não quisera causar mais dor. Quando iam se beijar, ouvem um grito. Louis diz ser do quarto de Christine, e D’Artagnan encontra lá uma carta à sua irmã, e a janela aberta, ao que Louis reagiu com frieza e indiferença, salientando seu caráter.
Philippe é colocado em sua máscara, relutante, aos gritos e o chefe da guarda entrega a chave á Louis, que o ordena a vigiar D’Artagnan. Os Três Mosqueteiros aposentados vestem seus antigos uniformes para irem buscar Philippe na Bastilha. D’Artagnan deixa uma rosa vermelha para a Rainha antes de partir para a Bastilha. Os clássicos mosqueteiros chegam à Bastilha e o guarda afirma que nada restou de Philippe. Philippe se levanta e golpeia o guarda com a máscara de ferro, ao que ouve que temiam que a máscara o destruísse. Em mais uma fala impactante e simbólica do filme, responde: “sou eu que uso a máscara, não ela que me usa.” a máscara não era mais contra ele. Ele se fundiu ao ferro da máscara e a usou a seu favor.
Essa afirmação marca um ponto decisivo na trajetória psíquica de Philippe. A máscara, que inicialmente funcionava como instrumento de aniquilamento da identidade, passa a ser integrada à consciência como elemento apropriado pelo sujeito. Psicologicamente, esse momento indica a passagem de uma relação passiva com o trauma para uma relação simbólica mais ativa. O sofrimento não desaparece, mas deixa de ocupar exclusivamente o lugar de dominação.
Louis e os Mosqueteiros se dirigem à Bastilha. Quando d’Artagnan os encontra, fala sobre estarem cercados e declara a Philippe que teria feito qualquer coisa para evitar o que ele passou.
Estão D’Artagnan e Os Três Mosqueteiros e Philippe, cercados na Bastilha, contra Louis que comanda os Mosqueteiros contra eles. As ordens são bem distintas: Matem-nos x Poupem suas vidas, se puderem. Estrategicamente, por estarem em menor número, vão lutar no corredor. Ninguém quer lutar contra o capitão D’Artagnan e o chefe da guarda se vê em um conflito de ideais quando ameaçando Athos, D’Artagnan o aponta sua espada.
Encurralados, em um corredor. Louis discursa sobre um perdão a D’Artagnan pela sua rendição.
Aramis diz que D’Artagnan deve aceitar a proposta, pois estão mortos de qualquer maneira. Philipe oferece sua vida pela deles. D’Artagnan não aceita e afirma não poder abrir mão do rei, mas menos ainda e seu filho. Declara seu amor pela rainha e diz nunca ter sabido de Philippe, tampouco sentira orgulho de ser pai até aquele momento. Seus amigos de vida inteira tampouco sabiam desse segredo. Os mosqueteiros com bacamartes do outro lado do corredor, quando Aramis relembra que são jovens mosqueteiros que cresceram ouvindo as suas histórias – histórias de D’Artagnan e os Três Mosqueteiros – e afirma que devem utilizar essa vantagem. D’Artagnan afirma que os treinou e lutarão até a morte – e que, se devem morrer, deve ser “um por todos e todos por um.”
Philippe se junta à saudação e eles correm pelo corredor, deixando os mosqueteiros estupefatos pela bravura, coragem e honra. Os mosqueteiros fecham os olhos ao atirar, criando fumaça, névoa e resvalos de pólvora. Andando, em meio à fumaça, ressurgem e o chefe da guarda os saúda, boquiaberto, seguido por todos os outros.
Louis toma a frente, pegando um punhal e partindo para cima de Philippe que é protegido por D’Artagnan. D’Artagnan impede que Philippe mate Louis enforcado, relembrando-o ser irmão dele. O chefe da guarda manda todos saírem e ratificando o juramento de segredo. D’Artagnan afirma que é a morte que ele queria – um por todos, todos por um – defendendo o rei, seu filho. Philippe conclui que era D’Artagnan que usava a máscara, mais um simbolismo sutil e escancarado ao mesmo tempo.
Louis se esquivava quando foi impedido pelo chefe da guarda que reafirma sua veneração por D’Artagnan, que fora morto por Louis.
Mudam suas roupas e Philippe coloca Louis na máscara a ser alimentado por um surdo-mudo. Questionado sobre os Três Mosqueteiros, afirma ser seus fiéis conselheiros e amigos. Athos, Porthos e Aramis, se ajoelham e juram fidelidade ao novo rei.
D’Artagnan é sepultado com honras.
Philippe pede a Athos que o deixe amá-lo como se fosse seu pai e que rezaria a ser amado como filho.
Athos, Porthos e Aramis são saudados no final do funeral por todos os mosqueteiros.
Segundo o filme, Louis teria recebido o perdão real e vivido no campo onde era visitado por sua mãe. O rei conhecido como Louis XIV é conhecido como o maior rei da história da França, um período iluminado em que a população teve fartura e paz.
Esse conjunto de cenas finais desloca o eixo da narrativa do conflito político para o campo ético e relacional, introduzindo um elemento decisivo para a leitura alquímica do percurso de Philippe: a transmissão simbólica da função paterna e da honra como valor estruturante do ego.
O corredor onde ocorre o confronto final pode ser compreendido como um espaço liminar, um verdadeiro vas alquimicum estreito, no qual não há mais possibilidade de fuga ou de negociação defensiva. A oposição entre as ordens — “matem-nos” versus “poupem suas vidas, se puderem” — explicita duas posições psíquicas radicalmente distintas. De um lado, Louis, identificado com o poder inflacionado e com a eliminação do outro; de outro, Philippe e os mosqueteiros, orientados por um princípio relacional que preserva a vida mesmo no confronto.
A decisão de D’Artagnan de não aceitar o perdão individual oferecido por Louis marca um ponto crucial: ele recusa a salvação narcísica em favor da lealdade a um valor coletivo e transgeracional. Ao afirmar que não pode abrir mão “do rei, mas menos ainda de seu filho”, D’Artagnan introduz simbolicamente Philippe na linhagem paterna, não pelo sangue apenas, mas pelo reconhecimento ético. Essa cena constitui um momento fundador da estrutura egóica de Philippe, que até então carecia de uma referência paterna simbólica capaz de sustentar limites, pertencimento e honra.
Quando Philippe oferece sua própria vida em troca da dos outros, observa-se um deslocamento significativo em relação ao trauma inicial. Ele já não responde a partir da submissão ou do apagamento, mas de uma escolha consciente. Trata-se de um gesto de abdicação que antecipa a operação alquímica da citrinitas, na qual o ego renuncia à inflação e reconhece sua inserção em algo maior do que si mesmo.
A célebre frase “um por todos e todos por um”, retomada no momento de maior risco, opera como símbolo de integração grupal e de superação da cisão. Não se trata apenas de bravura heroica, mas da emergência de um princípio relacional que se opõe diretamente à lógica isolada e paranoide do poder exercido por Louis. A névoa provocada pelos disparos, da qual os personagens ressurgem ilesos, pode ser lida simbolicamente como uma passagem pela confusão (confusio) sem destruição, um atravessamento do caos que não culmina em aniquilamento.
O momento em que Philippe reconhece que D’Artagnan “usava a máscara” introduz um dos símbolos mais sofisticados do filme. A máscara deixa de ser apenas objeto concreto e passa a representar a função sacrificial assumida por D’Artagnan ao longo da vida: proteger o rei, silenciar verdades, sustentar uma ordem à custa da própria integridade subjetiva. Essa inversão simbólica revela que a máscara não pertence apenas ao prisioneiro, mas também àqueles que se submetem, por lealdade cega, a um poder inflacionado.
A morte de D’Artagnan cumpre, assim, uma função alquímica essencial: a mortificatio do pai real para que o pai simbólico possa ser internalizado. É somente após essa perda que Philippe pode ocupar o lugar de rei sem reproduzir integralmente a inflação do irmão. Seu pedido a Athos — para ser amado como filho — indica que, apesar da coroação, a ferida do trauma permanece, agora reconhecida e simbolizada, não mais atuada.
Por fim, o desfecho idealizado do reinado de Louis XIV no filme não deve ser lido literalmente, mas simbolicamente, como a tentativa narrativa de fechamento do opus. A história não apaga o sofrimento, mas o reinscreve em uma ordem simbólica possível, ainda que imperfeita. Do ponto de vista psicológico, o que se conclui não é a cura total, mas a passagem de uma identidade forjada exclusivamente pela violência para uma identidade capaz de sustentar vínculos, limites e responsabilidade.
ANALOGIAS ALQUÍMICAS
Prima materia, cisão e polarização
Prima matéria – o rei e seu irmão gêmeo, são a própria prima matéria – transmutada em bom rei/mau rei
A compreensão dos irmãos como prima materia permite uma leitura mais profunda do conflito central do filme. Louis e Philippe não representam apenas a oposição moral entre bom e mau rei, mas a polarização extrema de uma mesma substância psíquica que não pôde permanecer integrada. Trata-se de uma cisão estrutural, na qual aspectos da personalidade se desenvolvem de forma dissociada para garantir a manutenção de uma ordem frágil.
Nesse sentido, Louis encarna a inflação defensiva e a identificação absoluta com o poder e com a persona régia, enquanto Philippe corporifica o polo rejeitado, silenciado e privado de identidade. A alquimia reconhece que a prima materia é, em sua origem, ambígua, caótica e paradoxal. A tentativa de eliminar um de seus polos resulta inevitavelmente em desequilíbrio e violência, tal como se observa na dinâmica entre os irmãos.
Nigredo, trauma e formação egóica interrompida
A calcináceo é a fusão da máscara de ferro ao corpo de Philippe, na segunda vez em que usa a máscara, quando ele consegue usá-la a seu favor. Segundo a psicologia analítica, nessa transformação é essencial afastar os objetos dos demônios do animus ou da anima, tirando o desejo do objeto, pois o desejo o faz ser possuído.
Philippe que partiu da nigredo, desconhecendo-se por completo, de sua origem, sua ancestralidade e sua história vai aos poucos tomando consciência de si. A sua formação de ego fora partida, fora roubada e o seu si mesmo não era quem ele sabia ser. Afinal, pouco sabia.
A nigredo da qual Philippe parte não pode ser compreendida como uma descida iniciática voluntária, mas como uma nigredo traumática imposta. Não se trata de um movimento consciente em direção à escuridão, mas da vivência violenta de silêncio, isolamento e privação simbólica. A ausência de história, de espelhamento e de pertencimento impede a constituição progressiva do ego, resultando em uma formação egóica fragmentada e interrompida.
Essa condição dialoga diretamente com as formulações de Donald Kalsched sobre o trauma precoce, nas quais o Self assume funções defensivas para proteger a psique de uma dor insuportável. A máscara, nesse contexto, não se configura apenas como símbolo de opressão externa, mas como expressão de uma organização defensiva que se torna estrutural, garantindo a sobrevivência psíquica ainda que ao custo do desenvolvimento da função individuante.
Solutio, imagem e colapso
A cena em que demonstra Philippe se mirando na água sem a máscara, é a solutio, uma dissolução da imagem que ele tinha até então, demonstrando sua mudança. A amálgama sol e lua, citada por Edinger em Anatomia da Psique, faz-se presente nessa cena, que vem em continuidade ao desenho de Luna no chão. Essa dissolução traz Philippe sem máscara, ainda com medo e muitos traumas.
A solutio aqui não opera como um processo integrativo suave, mas como uma dissolução abrupta da identidade defensiva que até então garantia a sobrevivência psíquica. O contato com a própria imagem não inaugura imediatamente reconhecimento ou síntese, mas expõe o sujeito a uma experiência de fragmentação para a qual o ego ainda não dispõe de sustentação suficiente.
Do ponto de vista simbólico, a dissolução não produz clareza, mas instabilidade. A identidade construída a partir do apagamento e da privação se desfaz sem que outra possa, ainda, ocupar seu lugar. Esse intervalo vazio é clinicamente significativo, pois revela que a retirada de defesas traumáticas, quando ocorre sem continência simbólica adequada, pode precipitar estados de colapso psíquico em vez de promover integração.
A presença do motivo lunar, anteriormente esboçado na masmorra, adquire aqui função de contraponto simbólico: indica que, mesmo diante da dissolução, permanece ativo um princípio imaginal que sustenta a possibilidade futura de recomposição. A solutio, portanto, não é o fim do processo, mas uma fase crítica em que a psique se encontra temporariamente desorganizada, exigindo tempo, mediação e contenção para que a transformação possa prosseguir.
Coagulatio, escolha e responsabilidade
A coagulatio vem em seguida, com a sua afirmação de vontade de substituir Louis, uma formação de ego até então desconhecida de si. A coagulatio manifesta-se no momento em que Philippe aceita a possibilidade de substituir Louis, inaugurando uma posição subjetiva até então inexistente. Não se trata de uma identificação inflacionada com o poder, mas da emergência de uma escolha que implica responsabilidade, risco e exposição. O ego começa a se estruturar não por idealização, mas pela aceitação de uma tarefa ética.
Do ponto de vista clínico, essa passagem ilustra que a formação egóica tardia, especialmente em contextos de trauma, frequentemente se dá em situações de crise. A coagulatio não elimina a fragilidade psíquica, mas permite que algo se organize minimamente para sustentar o avanço do processo de individuação.
Sublimatio e elevação psíquica defensiva
A sublimatio ocorre em paralelo, em que um até então desconhecido que não tinha consciência de sua história alcança a posição de rei, em teoria, uma posição superior a ser alcançada somente por primogenitura e hereditariedade.
“O espírito, por conseguinte, com a ajuda da água e da alma, é retirado dos próprios corpos, e o corpo, desse modo, torna-se espiritual; para que, no mesmo instante de tempo, o espírito, que contém a alma dos corpos, suba bastante para a parte superior, que é a perfeição da pedra, e se chama sublimação”
(EDINGER, 2006)
A sublimatio manifesta-se no momento em que Philippe, ainda sem plena consciência de sua história e de suas origens, é elevado à posição de rei. Trata-se de um deslocamento simbólico significativo, no qual o sujeito passa a ocupar um lugar social e psíquico “acima” daquele que lhe era permitido até então. Na alquimia, a sublimatio corresponde justamente a esse movimento de elevação, no qual a matéria se afasta do plano denso para alcançar uma perspectiva mais aérea e espiritualizada.
No entanto, essa elevação não equivale ainda à integração psíquica. Philippe ascende simbolicamente sem que as feridas do trauma tenham sido elaboradas, o que confere à sublimatio um caráter ambíguo. Por um lado, ela amplia o campo da consciência e oferece uma nova possibilidade de sentido; por outro, corre o risco de funcionar como defesa, afastando o sujeito do contato com a dor ainda não metabolizada.
Edinger observa que a sublimatio pode operar tanto como ampliação da consciência quanto como fuga verticalizante, quando não acompanhada de processos complementares de enraizamento e diferenciação. No percurso de Philippe, a sublimatio inaugura uma nova posição subjetiva, mas exige, posteriormente, o retorno às camadas mais densas da experiência, um movimento que será realizado por meio da circulatio, da mortificatio e da coniunctio.
Circulatio e oscilação psíquica
A circulatio pode ser observada no movimento de oscilação entre quem é o rei e, ainda segundo Edinger, é uma importante ideia na psicoterapia, sendo um importante ponto para a transformação. A oscilação entre as forças que se combinam para a criação da personalidade.
A circulatio não se limita à alternância de posições psíquicas, mas opera como um mecanismo regulador que impede tanto a cristalização defensiva quanto a inflação da consciência. No contexto do trauma, esse movimento circular é essencial para que o sujeito não permaneça aprisionado nem à identidade de vítima, nem a identificações grandiosas que funcionam como compensações defensivas.
Do ponto de vista clínico, a ausência de circulatio tende a produzir fixações rígidas: ou o retorno compulsivo à dor traumática, ou a fuga para posições idealizadas que afastam o sujeito do contato com a própria história. A oscilação, quando possível, permite que diferentes estados psíquicos sejam visitados sem que um deles se torne absoluto.
No percurso de Philippe, a circulatio sustenta o trânsito entre experiências opostas sem que o processo se interrompa. Ela mantém o movimento do opus aberto, garantindo que a elevação simbólica da sublimatio seja posteriormente confrontada com a densidade da mortificatio e da separatio, preservando a possibilidade de transformação sem colapso ou inflação.
Mortificatio, separatio e apropriação do sofrimento
A mortificatio é vista quando Louis condena Philippe a usar a máscara até gostar dela. Associada à tortura, mutilação e morte, também pode ser vista como crescimento, quando Philippe disse que era ele quem usava a máscara e não ela a ele.
A mortificatio, nesse ponto do percurso, não se restringe à experiência de sofrimento extremo imposta por Louis, mas assume função estruturante ao confrontar Philippe com o limite absoluto de sua condição. Trata-se de uma operação que dissolve definitivamente qualquer ilusão de retorno à inocência ou de reparação do passado, introduzindo a dimensão da perda irreversível como dado constitutivo da consciência.
A retirada da máscara pode ser interpretada então como separatio – uma separação das porções e uma formação do indivíduo.
A separatio que se segue não corresponde apenas à retirada concreta da máscara, mas à diferenciação psíquica entre o sujeito e a organização defensiva que garantiu sua sobrevivência. Philippe passa a reconhecer a máscara como parte de sua história — e não como totalidade de sua identidade — instaurando uma distância simbólica que permite a emergência de um eu capaz de sustentar a ferida sem ser definido exclusivamente por ela.
Nesse sentido, mortificatio e separatio operam conjuntamente como condições de possibilidade da individuação: não eliminam o sofrimento, mas o situam, permitindo que ele seja integrado como experiência vivida e não mais atuada.
Coniunctio, pai simbólico e limite da integração
A coniunctio ocorre no momento em que ele descobre ser filho de D’Artagnan e não mata seu irmão a pedido do pai. Ali entende que é seu irmão, mesmo com tudo que fez contra ele. Ele então conhece a si, mas desconhece tudo que poderia ter sido.
“O caminho pelo qual a coniunctio pode dar origem à inconsciência é que, quando ela irrompe com todo o seu poder e encontra o ego, pode deslocar o ego e se apossar dele. E, então, até a sensação de percepção interna de revelação de uma consciência brilhante extensa se torna seu oposto – uma inflação. Entoa, no exato momento em que estamos tendo uma revelação, estamos nos tornando idiotas pela identificação com ela. Então, sim, nesse sentido, a coniunctio dá luz à inconsciência assim como à consciência.”
(EDINGER,2008)
A coniunctio identificada na revelação da paternidade de D’Artagnan e na recusa de matar o irmão merece destaque por sua ambiguidade. Trata-se de uma união que não resolve o passado, mas o reinscreve simbolicamente. Philippe reconhece o irmão, reconhece o pai e reconhece, simultaneamente, tudo aquilo que jamais poderá ter sido.
A advertência de Edinger sobre o risco inflacionário da coniunctio é especialmente pertinente aqui. O filme evita uma resolução totalizante: Philippe não se torna um rei idealizado, mas um sujeito que assume o poder consciente de suas perdas. A coniunctio não apaga a ferida, mas a torna suportável.
Trauma como vaso alquímico
Ao longo do filme, temos fogo, vasos alquímicos, névoa, sublimação.
Símbolos fortes de rubedo fazem-se presentes no castelo e Philippe vivencia durante o baile. A expressão de Leonardo Dicaprio, cuja interpretação no filme dos dois personagens surpreende, pois ele aparenta duas personas distintas, denota surpresa por todo o brilho e cor que há no castelo.
O opus alquímico vai do nigredo ao rubedo dos reis, literalmente. A nigredo com seu desconhecimento de si, a unio metalis com a fuga da masmorra e a visualização de alguém com a máscara, quando ele viu como era visto.
A cauda pavonis, após a solutio da retirada da máscara e sua visão no vaso alquímico (tina de água), vendo as cores em seu rosto e a luz de fora da masmorra.
Albedo pode ser vista em uma cena bucólica no campo onde comtempla a lua e uma camponesa com uma ovelha, que lhe dá uma maçã – fruto proibido, símbolo de fertilidade, do feminino, tal como albedo.
A fase de viriditas vem com o seu reconhecimento de si, de sua necessidade de pegar o lugar de Louis pela justificativa de Athos, principalmente.
O amadurecimento do trabalho, citrinitras, aparece na abdicação de si, pedindo para ser morto e não enclausurado em máscara.
A rubedo, com sua coroação, ainda que sob nome de Louis, entretanto, vale lembrar ser comum em reis escolherem nomes ao serem coroados.
Segundo Shawn Waldron, o trauma produz uma pressão interna que pode ser vista como um vaso alquímico, comparado a um vulcão. O trauma de ter sido abandonado pela mãe, ser aprisionado, fizeram uma cisão no personagem, e ele teve um Self defendido que não desenvolveu a sua função individuante, tendo sido responsável pela função de defesa pois o ego não foi desenvolvido pelo trauma precoce. Essa ideia é bem fundamentada por Donald Kalsched em O mundo interior do trauma e em Trauma e Alma.
Na mesma linha, o sucesso da análise é impossível se os estados traumatizados cindidos não forem trazidos para o recipiente alquímico. Esta é a imagem de uma jornada precária do potencial congelado, através do crescimento e desenvolvimento, para uma nova vida. (…). Jung reconheceu que a pressão interna e o calor gerados em um encontro analítico podem ser às vezes explosivos. Para a alquimia, o vulcão é um laboratório natural que produz todos os metais básicos de diferentes combinações de enxofre e mercúrio, aos quais o alquimista adiciona o elemento neutralizante de sal. Os vulcões são uma válvula de pressão natural para a Terra e, como tal, são necessários para seu contínuo crescimento e desenvolvimento. (WALDRON, 2010)
A articulação entre as contribuições de Shawn Waldron e Donald Kalsched permite compreender o trauma como um campo de intensa pressão psíquica, comparável a um vaso alquímico ou a um vulcão em atividade latente. Estados psíquicos cindidos acumulam energia ao longo do tempo, não como expressão de falha do sistema psíquico, mas como tentativa de preservação diante de experiências precoces insuportáveis. Nessa perspectiva, o trauma não é apenas ruptura, mas também contenção forçada de forças vitais que permanecem não metabolizadas.
A análise, assim como o opus alquímico, não visa eliminar essa pressão, mas criar um recipiente simbólico capaz de sustentá-la e transformá-la. Trazer os estados traumatizados para o vaso alquímico implica aceitar o risco do calor, da instabilidade e até da explosão psíquica. No entanto, é precisamente essa travessia que possibilita a passagem do potencial congelado para uma nova forma de vida psíquica. O percurso de Philippe ilustra, simbolicamente, essa jornada precária, porém possível, na qual a transformação não ocorre pela supressão da dor, mas pela sua inscrição em uma estrutura simbólica capaz de sustentá-la.
CONCLUSÃO
A riqueza que a alquimia pode trazer é protrusa e instigante, de forma que uma análise de um filme com tantos elementos pode ser sempre complementada a cada visita que fazemos a ele. A alquimia traz para a psicologia analítica uma imensa gama de analogias, metáforas e simbolismos, que tornam o processo analítico um opus intenso e um espaço de transmutação do indivíduo dele em si mesmo.
Conhecer as fases alquímicas e suas operações fazem a análise ser reconhecida e até vista de forma fásica – a partir do momento em que podemos reconhecê-las.
A leitura alquímica do filme O Homem da Máscara de Ferro permite compreender que o opus não se desenvolve como uma sequência ordenada de etapas, mas como um processo marcado por avanços, regressões, repetições e tensões internas. Tal compreensão aproxima-se profundamente da experiência clínica, sobretudo quando o processo analítico é atravessado por traumas precoces, nos quais a constituição do ego ocorre de forma interrompida ou fragmentada.
O percurso de Philippe evidencia que a individuação, nesses casos, não se realiza pela superação do sofrimento ou pela reparação do passado, mas pela possibilidade de simbolização da ferida. A máscara, inicialmente vivida como instrumento de aniquilamento da identidade, torna-se, ao longo do processo, elemento integrado à consciência, não como idealização do trauma, mas como reconhecimento de sua inscrição estrutural na história do sujeito.
As operações alquímicas descritas ao longo do trabalho — da nigredo à coniunctio — revelam-se especialmente fecundas para a clínica contemporânea ao oferecerem uma linguagem simbólica capaz de sustentar paradoxos. A transformação não elimina a dor, nem conduz a uma totalidade harmoniosa; ao contrário, exige a aceitação do limite, da perda e da ambiguidade como componentes inevitáveis do processo de tornar-se si mesmo.
Nesse sentido, a alquimia reafirma seu valor para a psicologia analítica não como um modelo explicativo fechado, mas como um campo simbólico vivo, capaz de acompanhar a complexidade da experiência psíquica.
REFERÊNCIAS
EDINGER, Edward F. Anatomia da Psique: o simbolismo alquímico na psicoterapia. São Paulo, Cultrix, 2006
EDINGER, Edward F. O Mistério da Coniunctio: Imagem alquímica da individuação. São Paulo, Paulus, 2008. Coleção Amor e Psique.
WALDRON, Shawn. Uma curiosa metáfora. Engajando-se com o trauma: uma perspectiva analítica. In:Journal of analytical Psychology, 2010, 55, 74 – 90.
Filmografia:
The Man in The Iron Mask
O Homem da Máscara de Ferro
1998, 132 min, EUA
Direção: Randall Wallace
Produção: Russel Smith
Randall Wallace
Elenco: Leonardo DiCaprio
John Malkovich
Jeremy Irons
Gabriel Byrne
Gérard Depardieu
Anne Parillaud
Judith Godreche
Gênero: filme de ação e aventura opus analítico configura-se, assim, como um espaço de contenção e transmutação, no qual o indivíduo pode, gradualmente, deslocar-se de uma identidade moldada pela violência para uma posição subjetiva que reconhece a própria história sem ser inteiramente determinada por ela.



