Série conceituando: “Arquétipo”
O conceito de arquétipo é o mais emblemático da psicologia analítica, pois é em torno dele que grande parte da teoria junguiana se organiza. Apesar disso, é um conceito considerado difícil devido à sua complexidade. Assim, não basta fazer uma tentativa de definição, precisamos considerá-lo em sua amplitude.
Origens do termo
O termo arquétipo é formado pelas palavras gregas arkhé, que significa original, primordial, superior, e typos, que significa modelo, marca, impressão. Associadas, essas palavras formam a ideia de modelo primordial ou uma impressão original. O ponto relevante é que arkhé indica uma dominância, isto é, seria um “modelo mestre”, uma referência fundamental para uma determinada percepção ou atividade.
Jung (CW9/1) atribui a formulação etimológica de “arquétipo” ao neoplatonismo, citando autores como Fílon de Alexandria (o Judeu), Dionísio, o Areopagita, Hermes Trismegisto (Corpus Hermeticum) e, indiretamente, Santo Agostinho. Apesar disso, uma influência mais próxima seriam as categorias a priori de Kant.
Jung observou em sua prática clínica, nos delírios de pacientes psicóticos e nos sonhos de pacientes neuróticos, a presença de imagens que não podiam ser compreendidas pela experiência pessoal deles e que eram similares a imagens de mitologias com as quais os pacientes não tinham contato. Um exemplo muito rico dessa percepção das imagens arquetípicas foi o trabalho da Dra. Nise da Silveira com a exposição “Arqueologia da Psique”.
Jung nomeou essas imagens com profundo impacto na psique de “dominantes do inconsciente coletivo”, imagens primordiais, antes mesmo de adotar o termo arquétipo, utilizado pela primeira vez na conferência “Instinto e Inconsciente” (1919).
Os arquétipos e inconsciente coletivo
Os conceitos de Arquétipo e de Inconsciente Coletivo são indissociáveis, pois estão em uma relação de continente e conteúdo. O inconsciente coletivo refere-se à camada mais antiga e profunda da psique que “contém” os arquétipos, ou ainda, os arquétipos formam o inconsciente coletivo. Assim, falar de um pressupõe o outro. Dessa forma, os mesmos atributos utilizados para qualificar e descrever o inconsciente coletivo servem para os arquétipos, como: impessoal, suprapessoal, objetivo, filogenético e psicoide.
Esses atributos nos auxiliam a compreender a natureza dos arquétipos. Assim, ao falar de “impessoal, suprapessoal e objetivo”, compreendemos que os arquétipos não pertencem à realidade individual, pessoal ou subjetiva. Os atributos “filogenético e psicoide” apontam para a evolução humana que fundamenta a teoria dos arquétipos (sobre esses atributos, confira o texto “O inconsciente” ). Nessa direção, Jung afirma que:
Os arquétipos são sistemas de prontidão que são ao mesmo tempo imagens e emoções. São hereditários como a estrutura do cérebro. Na verdade são o aspecto psíquico do cérebro. Constituem, por um lado, um preconceito instintivo muito forte e, por outro lado, são os mais eficientes auxiliares das adaptações instintivas. Propriamente falando, são a parte ctônica da psique – se assim podemos falar – aquela parte através da qual a psique está vinculada à natureza, ou pelo menos em que seus vínculos com a terra e o mundo aparecem claramente. (JUNG, 2000a, p. 35)
Deste modo, os arquétipos são processos que possibilitam a organização da psique, manifestando-se tanto na forma somática (instintiva) quanto na de imagens e emoções, em seu aspecto representado por meio dos símbolos. A partir desse aspecto basal da teoria junguiana, derivam diferentes compreensões e modelos para o estudo dos arquétipos.
A diversidade de compreensões dos arquétipos
A analista junguiana Jean Knox, em seu livro “Archetype, Attachment, Analysis”, ofereceu uma importante análise crítica sobre a teoria dos arquétipos. Nesse trabalho, ela apontou quatro modelos de compreensão que os junguianos utilizam, são eles:
• entidades biológicas na forma de informação que está incorporada nos genes, fornecendo um conjunto de instruções para a mente e também para o corpo
• estruturas mentais organizadoras de natureza abstrata, um conjunto de regras ou instruções, mas sem conteúdo simbólico ou representacional, de modo que nunca são experimentadas diretamente.
• significados centrais que contêm conteúdo representacional e que, portanto, fornecem um significado simbólico central para nossa experiência
• entidades metafísicas que são eternas e, portanto, independentes do corpo. (KNOX,2003 p.28)
Por ser um texto introdutório, não avaliaremos cada um desses modelos. Basta dizer que cada um é passível de críticas e que o pensamento junguiano é vivo e precisa ser sempre atualizado. A discrepância entre esses modelos é um fator que dificulta a compreensão do conceito de arquétipo. Não há um padrão de certo ou errado nesses modelos, mas todos são passíveis de críticas.
Os Arquétipos e suas representações
Um aspecto fundamental da teoria dos arquétipos é a diferenciação entre “arquétipo em si” e “imagem ou representação arquetípica”. O “arquétipo em si” é uma estrutura dinâmica do inconsciente coletivo, não sendo acessível pela consciência. Inclusive, o arquétipo em si é incompatível com a consciência. Isso porque, como conteúdo impessoal, participante da estruturação de processos da psique, o arquétipo em si pode ser descrito como um atrator que direciona a energia biopsíquica para o desenvolvimento psíquico. Por isso, quando ocorre uma manifestação arquetípica, falamos de atributos como compulsividade, rebaixamento da consciência e numinosidade (a experiência aterradora e fascinante) que envolve e pode desorganizar a consciência.
O arquétipo, em si, situa-se em uma dimensão pré-simbólica (ou psicóide) que pode ser concebida na interface entre o corpo e a psique. Para compreender essa interface, é necessário entender que, em um passado remoto, os padrões arquetípicos, essenciais para a manutenção da vida, estavam associados ao reconhecimento de perigos, a comportamentos reflexos e a relações de dependência do grupo (semelhantes aos encontrados em grandes primatas). Esses padrões, que estavam dentro da esfera biológica, diferenciam-se com a evolução biológica e da cultura.
Dessa forma, os arquétipos correspondem à potencialidade de formação de esquemas de imagens. Por isso, Jung insistia em não confundi-los com ideias inatas, mas em compreendê-los como formas sem conteúdo, ou padrões pré-simbólicos e pré-conceituais que possibilitam e continuam a possibilitar a organização da psique e da cultura. Essas formas ganham conteúdo através da codificação do mundo em imagens, na linguagem e nos mitos. Os padrões arquetípicos abriram caminho para o desenvolvimento da consciência representacional, ou seja, simbólica.
Deste modo, nossa consciência evoluiu por meio de conteúdos simbólicos, que possibilitaram a expansão da capacidade de lidar e compreender a realidade. As imagens ou representações arquetípicas nos conectam ao processo arquetípico profundo, mobilizando a energia no corpo e na psique. Assim, só podemos compreender os arquétipos indiretamente, ou seja, os compreendemos através de padrões comuns que emergem nas culturas e nos indivíduos. Por isso, damos atenção especial aos mitos, contos de fadas, religiões, literatura e artes, cujos padrões humanos essenciais, ou seja, padrões arquetípicos, nos conectam independentemente do tempo e espaço.
Assim, por exemplo, quando falamos do “arquétipo da grande mãe”, nos referimos à imagem arquetípica ou à representação desse arquétipo em um dado tempo e espaço. Mesmo utilizando uma “roupagem cultural”, podemos reconhecê-lo em outras culturas e mitos, nos sonhos de pacientes e em nossa própria experiência pessoal. Devemos ressaltar que o eixo arquetípico dos mitos e símbolos do materno se expressa nas funções basais da gestação/parto, de proteção e nutrição.
“Assim, a manifestação dos arquétipos não se restringe ao campo imaginal; podemos encontrar símbolos corporais em somatizações e sintomas neuróticos. Por exemplo, transtornos que envolvem alimentação e nutrição possuem conexão com a dinâmica do arquétipo da Grande Mãe.”
Concluindo…
O arquétipo é uma estrutura dinâmica que nos organiza como espécie, constituindo padrões basais que organizam a psique pessoal e coletiva. Em seu aspecto impessoal, podemos reconhecê-los nas grandes produções culturais humanas (arte, literatura, mitos e religiões). Quando humanizados e vividos em nossa história pessoal, podemos reconhecê-los nos símbolos e complexos que organizam nossa trajetória individual.
Em todo caso, o arquétipo é um conceito amplo e rico, que vem sendo refletido nas diversas escolas junguianas com ênfases distintas, mas igualmente legítimas.
REferências bibliográficas
JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, CW9/1, 2000
JUNG, C.G Civilização em Transição, Petrópolis:Vozes, 2000a.
KNOX, Jean. Archetype, Attachment, Analysis: Jungian Psychology and the Emergent Mind. London: Routledge. 2003



