Pensando a ansiedade na perspectiva junguiana

A ansiedade é uma experiência universal. Todos experimentamos a ansiedade em diferentes momentos da vida, diferentes formas e intensidades. Podemos conhece-la por diferentes nomes: aflição, angustia, impaciência, agonia, gastura, inquietude, preocupação etc; todos essas situações apontam para um estado de preparação(antecipação) tanto psíquico quanto somático. Em alguns casos podem predominar os aspectos psíquicos em outros os somáticos.

A ansiedade se caracteriza como uma resposta adaptativa a uma possível ameaça. No passado mais distante as ameaças eram mais objetivas, externas e que colocavam em risco a continuidade da vida. Com o desenvolvimento cultural as ameaças se tornaram diversificadas ampliando das mais objetivas às relacionadas a aceitação, segurança, desempenho de função dentre outras.

A psicodinâmica da Ansiedade

Na literatura junguiana temos poucas referências sobre a ansiedade. Geralmente a ansiedade é associada com amplificações mítica/arquetípicas ou a relação a constelação dos complexos ou na emergência de uma dinâmica arquetípica. Gostaríamos olhar por uma perspectiva diferente das concepções tradicionais e clássicas.

As amplificações arquetípicas em torno da ansiedade podem estar tanto associadas à personificações/representações do trickster ou da sombra (personificada em monstros) por indicarem perigo e ameaça, quanto ao Jung (2000, p.47) nomeou de “arquétipos de transformação” que são locais, ambientes e situações – por ex. caverna, floresta, abandono – que apontam para igualmente a indeterminação e insegurança.

A ansiedade se faz presente nas entrelinhas das narrativas, quando nos deixa apreensivos, incomodados, temerosos. As narrativas relacionadas a ansiedade tanto nos mitos e contos, indicam uma saída, uma forma de lidar com ansiedade – uma vez que indicam como lidar com o objeto que causa ameaça. Contudo meu objetivo, não é esmiuçar as dinâmicas arquetípicas vinculas a ansiedade mas pensar seu aspecto na psique pessoal.

Na esfera pessoal, devemos pensar a ansiedade tanto em termos de Self quanto em termos de Ego. A percepção da ansiedade em associada do Ego, vem desde a psicanálise de Freud (1996, p101) já postulava que o ego era a sede da ansiedade, uma concepção correta contudo incompleta quando consideramos que a ansiedade já está presente na primeira infância, num momento anterior ao desenvolvimento do ego. Precisamos pensar e diferenciar essas duas dinâmicas.

No período que antecede ao desenvolvimento/estabelecimento do Ego como centro/mediador das relações consciente, compreendemos que a criança está num estado desenvolvimento onde o Self, a unidade biopsíquica que gradativamente se deintegra possibilitando a organização do psiquismo, é o principio que incita e organiza do desenvolvimento(sobre o desenvolvimento veja nosso texto Perspectivas Junguianas acerca do Ego parte1/3 ).

Nos primeiros meses de vida a ansiedade se manifesta como resposta à ameaças como frio, calor, fome, dor dentre outros, que a criança tende a reagir com o comportamento de protesto (como choro e agitação) assim como à situações de separação da figura de apego que sustenta sensação a proteção e segurança da criança. Essas relações de apego são importantes pois, as figura(s) de apego recebem a projeção do Self na infância possibilitando um estado de estabilidade de segurança, que viabilizará o desenvolvimento com as relações do meio, com os outros.

A ansiedade expressa uma função defensiva, onde a energia se retrai ante aos objetos percebidos como ameaça e ativam as defesas, em busca de segurança. As defesas primitivas, também chamadas defesas do Self são base do desenvolvimento das defesas do Ego. Em todo caso, visam neutralizar o objeto de desprazer/medo/ansiedade para garantir um desenvolvimento adequado do ego (ou no caso, do ego a manutenção de suas funções).

As relações afetivas/apego servem às defesas visto que a figura de apego por geralmente afastarem os objetos negativos/ansiogêncios. Contudo, quando essas figuras de apego falham seja pela separação continua, comportamentos ambivalentes, e/ou atitudes agressivas – não sustentando a segurança necessária ao desenvolvimento – as defesas atuam podendo manter um estado continuo de ansiedade (para evitar a perda na relação com as figuras de apego) ou em casos extremos atuam rompendo os laços afetivos de confiança e apego, como descreveu Donald Kalsched(2013) em seus trabalhos sobre o trauma precoce.

A ansiedade associada a processos do Self envolvem situações intensas apreendidas como ameaças à continuidade da vida. Mesmo em idades avanças, quando as defesas do Ego não são capazes de lidar com o estimulo-ameaça (no geral em situações traumáticas), como no transtorno de estresse pós-traumático. Com o desenvolvimento do Ego, a ansiedade se torna uma referência de enfrentamento e adaptação, tendendo a ser percebida como uma ameaça ao ego tanto em relação a sua integridade quanto ao exercício de suas funções.

Em outro texto, comentei sobre a complexidade do ego ( Perspectivas Junguianas acerca do Ego parte 2/3 ) que é um fator importante para pensarmos a ansiedade. Pois, assim como o ego tem um aspecto somático, inconsciente e consciente e a ansiedade se manifesta através do corpo, com conteúdos inconscientes e conteúdos cognitivos.

A dinâmica da ansiedade está relacionada a capacidade do Ego em se adaptar/responder as exigências do meio e manter da estabilidade/segurança do organismo – para tanto é necessário força e coesão do Ego, que também podemos compreender como resiliência. Assim, o ego responde de acordo com suas capacidades defensivas (isso envolve tanto defesas sociais como da persona e as mecanismos de defesa do ego) e as experiências de vida – que estão associada aos complexos. Assim, precisamos considerar:

– Organização e defesas do Ego: Temos três situações: a) um ego maduro, forte, coeso ou resiliente pode ser capaz de elaborar a situação de ansiedade, revendo suas possibilidades, aprendendo e criando novas estratégias de enfrentamento e adaptação. b) o ego maduro, forte coeso pode responder defensivamente afastando do campo da consciência a percepção do objeto ansiogênico, sem elaborar ou se modificar pela experiência, nessas situações é comum que suas funções se mantenham “normais”, pois o objeto foi neutralizado ou deslocado para o corpo – gerando quadros de estresse, doenças psicossomáticas e/ou autoimunes. Com frequência o paciente diz que não é ansioso ou não se acha ansioso, pelo fato da ansiedade não prejudicar o curso da consciência. c) um ego com experiências limitadas, constituído com laços afetivos com poucos recursos defensivos, cuja experiência (ao longo do desenvolvimento foi marcada pela ambivalência/insegurança) tem maior dificuldade para se adaptar, desenvolvendo um caráter defensivo mais acentuado, apresentando um grau maior de ansiedade.

Devemos observar que as situações a e b ocorrem naturalmente em nossa na vida cotidiana .

Complexos ideoafetivos: Os complexos fornecem ao ego recursos históricos e modelos pessoais de reação/resposta. Se ao longo da vida as experiências forem de insegurança, a tendência é que os complexos tensionem as defesas do ego, ativando de acordo com a situação de possível ameaça ou a repetição de situação anterior, esse tensionamento também é chamado de “constelação do complexo”. De forma geral, a constelação do complexo ocorre por analogia ou similaridade à situação anterior. A manutenção do estado defensivo ocorre justamente porque o ego-consciente não elaborou o conteúdo (tanto cognitivo quanto afetivo) da ameaça passada quanto das defesas. Contudo, esses conteúdos exigem também a análise dos fatores externos que ativam o complexo. (recentemente publicamos um texto sobre A teoria junguiana dos complexos).

Uma pequena amplificação acerca da ansiedade

A ansiedade é uma palavra que expressa um universo de significações. É importante percebermos como a ansiedade se manifesta para o paciente específico. E perceber suas manifestações somáticas, as relações de segurança/proteção que o paciente estabelece. Pois, cada uma das “variações” exige um olhar diferenciado. Essas variações são expressas nas classificações nosológicas mais comuns como transtornos fóbicos-ansiosos, transtorno de ansiedade generalizada; transtorno do pânico e o transtorno de estresse pós-traumático.

Como nosso objetivo não é discutir classificações, mas pensar manifestações, chamando para o fato de que ela pode ser qualificada pela predominância de outros afetos como medo que inibe os processos de que enfrentamento e adaptação gerando um recolhimento e a busca pela evitação; insegurança percebida como a preocupação que, diferente do medo, gera uma miríades de pensamento que sem foco/intenção não ganham forma e não se materializam como ação; a raiva que quando limitada e sufocada perde sua força expansiva, transformadora e criativa e se torna frustração e tendendo tensionar o corpo, gerando agitação e mobilizando uma série de sintomas somáticos; o poder envolve a necessidade de controle, reconhecimento e organização; esses são alguns exemplos que podemos compreender a ansiedade associada a outras emoções que podem estar claramente manifestas ou não.

Do mesmo modo, a ansiedade pode se manifestar afetando diferentes sistemas do corpo que pode se tornar uma forte resistência a mudança, ainda mais associada a diferentes emoções (como esboçamos acima) e na forma como interpretamos a realidade seja como nós compreendemos a nós mesmos, nossos recursos internos e a realidade circundante. Desde modo, precisamos compreender a complexidade da ansiedade e como afeta o individuo como um todo (corpo-emoções- cognição), para assim traçar estratégias mais eficafazes de trabalho com a ansiedade.

A psicologia analítica possui uma diversidadede possibilidades de trabalhos com a ansiedade, associando técnicas tradicionais da análise do inconsciente(complexos), sonhos, defesas com técnicas sandplay, hipnoterapia, técnicas expressivas dentre outras; que possibilitam a construção de estratégias com paciente, permitindo o ego, reorientando em relação a percepção do corpo, reconhecimento de recursos que o paciente tem e que pode desenvolver.

Acredito que vale a pensa considerar que o trabalho conjunto da psicoterapia/análise com as práticaspráticas integrativas e complementares a saúde, como acupuntura, fitoterapia e yoga, podem ser de grande contribuição no tratamento da ansiedade. A complexidade do fenômeno da ansiedade torna necessário integrar os recuros possiveis para auxiliar os paciente em seu tratamento – sem descartar os tratamentos alopáticos tradicionais.

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Referências bibliográficas

Astor, J. Michael Fordham: Innovations in Analytical Psychology. London: Routledge. , 1995

Freud, S. Inibições, sintomas e ansiedade In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. (Vol. XX). Rio de Janeiro: Imago. 1996, p.101.

JUNG, C.G. Os arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Petrópolis: Vozes, 2000.

KALSCHED,D. O Mundo interior do Trauma, São Paulo:Paulus, 2013

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico Junguiano, Supervisor Clínico, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Pós-graduando em Acupuntura Clássica Chinesa (IBEPA/FAISP). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos” Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. / e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes /Instagram @fabriciomoraes.psi

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Os Complexos na Teoria Junguiana

A teoria dos complexos marca o início da construção teórica junguiana, sendo inclusive um dos pontos mais lembrados quando falamos do pensamento junguiano. Recentemente foi feita uma sugestão no instagram que eu falasse sobre complexos, me espantei que em mais de 10 anos do blog não ter escrito um texto específico sobre os complexos.

Corrigindo esse lapso, apresento essa visão geral da teoria dos complexos buscando apresentar sumária os aspectos fundamentais da teoria, prática e sua evolução histórica. Os estudos de associação de palavras que levaram à descoberta dos complexos tiveram inicio em 1903 se estenderam até 1909,.

Os estudos de Jung foram baseados em pesquisas de Kraepelin e Aschaffenburg com associação de palavras. Acreditava-se que a demetia precox (posteriormente renomeada para Esquizofrenia) era resultado de baixa tensão associativa. Jung e sua equipe buscava compreender o tempo de reação com o objetivo de criar um instrumento  para o diagnóstico diferencial  de doenças, esse objetivo não foi alcançado.

Inicialmente o “teste de associação de palavras” contava uma lista de 400 palavras. 231 substantivo. 69 adjetivos. 82 verbos. 18 advérbios e numerais. Posteriormente, foi diminuído para 100 palavras. Cada palavra-estímulo era dita ao participante e o tempo de reação e a palavra-resposta eram anotadas, após o término da lista, essas palavras eram repetidas para análise do tempo e das palavras-resposta. O teste foi aplicado comparativamente em pacientes neuróticos, psicóticos e “saudáveis”.

Jung e sua equipe ao analisar o tempo de reação/reposta, tiveram achados importantes:

  • O tempo de reação indicava que havia um esforço adaptativo da consciência evitando conteúdos não disponíveis a consciência.
  • Havia uma alteração/perturbação no curso da consciência.
  • As palavras com maior tempo de reação estavam relacionadas entre si, com uma relação temática.
  • O tempo de reação estava associado a mudança no estado afetivo do paciente.
  • Ao realizar uma entrevista com o participante, as palavras estímulos remetiam a momentos significativos da vida/história do participante.

As descobertas com os estudos experimentais com associação de palavras aproximaram Jung dos trabalhos de Freud que apontavam na mesma direção de conteúdos inconscientes que afetariam o curso da consciência e que estariam dissociados da consciência. Jung que lera a “Interpretação dos Sonhos” em 1900, notou a semelhança do que Freud vinha dizendo a partir de sua experiência e prática clínica.

Word Association Experiment – Bringing our Complexes to Light
Cena do Filme “Um Método Perigoso” 2011

Posteriormente, Jung e sua equipe realizaram pesquisas psicofísicas com pneumógrafo, galvanômetro que permitiram perceber que haviam mudanças significativas na reação somática (emissão de CO2, assim como mudança na tensão elétrica da superfície da pele).

Dos estudos experimentais Jung e sua equipe concluiu que:

  • As alterações no curso da consciência ocorreria por um aglomerado de idéias/memórias unidas com um mesmo eixo temático ou de significação e uma carga afetiva;
  • A carga afetiva que “energizava” esses conteúdos poderia variar em intensidade, podendo se percebida pelo tempo de reação, assim como as alterações psicofísicas, nas expressões (faciais, agitação) do paciente.
  • O tempo de resposta e as manifestações corresponderiam a tentativa da consciência/Ego em manter esses conteúdos fora da consciência.

Dessas conclusões Jung denominou esse “aglomerado de ideias/memórias unidos por uma carga afetiva” de complexos de acento emocional, essa primeira denominação evoluiu para complexos de tonalidade afetiva, e posteriormente Complexo ideoafetivo.

Arquétipos e Complexos

Jung compreendeu que seus estudos dialogavam com a psicanálise de Freud, com quem estabeleceu um relacionamento profissional e de amizade que se desenvolveu entre 1906-1913. Com a relação com Freud, Jung direcionou seus estudos aos processos do inconsciente. Contudo, haviam diferenças importantes na prática clinica de cada um. Freud atendia um público com predominância de pacientes neuróticos (histeria e quadros obsessivos), a experiência do Jung Hospital Burgholzli era com pacientes graves, especialmente psicóticos.

Essa diferença é importante pois, Jung acompanhou delírios de pacientes que tangenciavam aspectos impessoais, com profunda similaridade com mitos das diversas tradições culturais, a compreensão que havia um campo impessoal foi a base em torno do qual se desenvolveu a teoria dos arquétipos.

O desenvolvimento da teoria dos arquétipos proporcionou um acréscimo importante para a teoria dos complexos. Os temas arquetípicos universais, mitológicos, compreendidos tanto em delírios, fantasias e sonhos, seriam os mesmos temas fundantes de nossa experiência pessoal. Dito de outra forma, Jung compreendeu que os arquétipos consistiam no eixo em torno do qual os complexos se formavam.

The Interface of Carl Jung and Dissociative Identity Disorder: From  Autonomous Complex to Personality - Document - Gale Academic OneFile

As experiências arquetípicas basais/fisiológicos como nutrição e proteção – personificadas nas ações de cuidado da figura/função materna – espelhariam no campo coletivo às experiências da do arquétipo materno ou da Grande Mãe, no campo pessoal essas experiências arquetípicas seriam a base entorno do qual as experiências de cuidado, proteção e nutrição se configuração ao longo da vida desse individuo, ou seja, do complexo materno. Ao longo da vida as experiências significativas relacionadas ao cuidado (autocuidado), nutrição (incluindo a simbólica) e proteção (Segurança) vão articulando em torno do complexo materno – tornando o complexo mais pessoal e relacionado com a história pessoal, se distanciando do aspecto arquetípico (coletivo e universal).

Assim, os complexos estariam intimamente arraigados nas experiências somática/pessoais e arquetípicas do individuo. Os complexos seriam representações arquetípicas em nossa experiência pessoal.

Na prática, isso possibilitaria uma compreensão mais ampla e profunda dos complexos, visto que podemos compreender a dinâmica dos complexos por analogia de outras representações arquetípicas, como mitos e contos de fadas.

A dinâmica dos Complexos

Os complexos são estruturas ou padrões de organização da psique pessoal fundamentais para nosso desenvolvimento. Isso porque a função mais importante dos complexos é integrar ou organizar nossas vivências/experiências significativas fornecendo referência e repertório de respostas/ações ao Ego.

Quando falamos de “experiências significativas” nos referimos aquelas que possuem uma carga afetiva indicando o que a experiência que se torna memória ou não. Uma experiência pode ser negativa, ou seja, marcada por afetos/sentimentos como rejeição, medo, abandono, insegurança. Ou positivas marcadas por afetos/sentimentos como acolhimento, pertencimento, encorajamento, segurança. A qualidade das experiências vividas(positivas ou negativas) ao longo do tempo serão referência ao desenvolvimento indicando os padrões de respostas possíveis as situações cotidianas. É importante que claro que não é uma situação de rejeição, uma situação insegurança que se tornará referência ou o padrão afetivo do complexo, mas a recorrência, a regularidade dessas experiências ao longo do tempo no caso.

Acredito ser necessário distinguir as experiências que geram um “complexo negativo” das experiências traumáticas. Quando falamos de trauma falamos de experiências que podem ser acumulativas ou agudas(abruptas – como a vivência de violências ou perdas). São experiências que, como descreveu Donald Kalsched, nos “despedaçam” gerando um processo severo de dissociação que prejudica o desenvolvimento, afeta o Ego e prejudica as relações e estabelecimento de vínculos internos e externos.

Um complexo negativo traz consigo dor e sofrimento que as defesas do Ego conseguem lidar ou mesmo elaborar – muitas vezes formando um caráter neurótico, muitas vezes se manifestando ou na dependência ou na reatividade.

O complexo atrai experiências que sejam similares ao seu eixo temático (seu núcleo arquetípico), deste modo as experiências negativas ou positivas serão continuamente acrescidas, aumentando a carga afetiva do complexo. As experiências positivas produzem segurança, confiança e estabilidade ao ego, possibilitando o amadurecimento, a coesão e flexibilidade. As experiências negativas marcadas por sofrimento/dor/rejeição geram ansiedade e tendem a prejudicar as função adaptativas do ego, por isso ele (o ego) tende a se defender afastando ou dissociando esses conteúdos de sofrimento. Mesmo dissociados, os complexos continuam agregando conteúdos(ideias, vivências) e energia aumentando sua pressão sobre a consciência demando mais esforços defensivos do Ego para dissociar/controlar os impulsos gerados pelo complexo.

Lembrar que os complexos possuem a função fornecerem um referencial de ação/resposta ao Ego nos ajuda a compreender os principais padrões disfuncionais da dinâmica dos complexos que são: Invasão e a identidade com o ego.

A invasão se caracteriza pela irrupção repentina do afeto correspondente ao complexo (medo, raiva, tristeza etc) ou de comportamentos e ações inadequados que prejudicam o curso da consciência. Essa “invasão” sobrepõe momentaneamente as defesas do ego, ocorrem quando um evento externo correlato/similar a dinâmica do complexo se apresenta. A invasão é uma imposição momentânea do registro histórico do complexo, , do padrão de referência e repertório rejeitados, à realidade do ego.

A invasão é característica de uma situação onde o ego foi capaz de se defender e manter o complexo afastado/dissociado, evitando o contanto com elementos que possam gerar sofrimento/ansiedade. Fala de um ego funcional mais ou menos adaptado.

A identidade com o complexo se caracteriza pelo ego manifestar um comportamento identico e característico do complexo, podemos compreender que a identidade se manifesta por gerar um mínimo segurança e estabilidade ao ego. Por exemplo, um individuo com um complexo materno pronunciado pode assumir ou um comportamento materno em relação a terceiros ou um comportamento dependente/infantil – em ambos os casos, a repetição desses padrões indicam norteiam o ego, pautam o modo de organização e funcionamento, contudo indica limitação adaptativa, gerando prejuízo às relações e um conflito que impede de individuação.

Essas possibilidades de invasão e identidade são variações disfuncionais a função basal de fornecer repertório adaptativo ao Ego. Uma terceira possibilidade é a Possessão que veremos no próximo tópico.

É necessário considerar que os complexos podem se associar amplificando seu potencial de interferência. Nos exemplos anteriores citei o complexo materno, de forma, o complexo materno negativo pode se associar com o complexo paterno e o de poder (pois não é incomum que uma mãe que se excede – no cuidado, cansaço, proteção – indica um pai ausente, omisso ou fraco, o que associa a incapacidade de enfrentamento da realidade, ou seja, um complexo de poder negativo, ou de inferioridade).

Podemos compreender a dinâmica do complexo intimamente relacionada a capacidade do Ego em se adaptar e elaborar simbolicamente sua própria história. Possibilitando compreender o complexo por aspectos adaptativo, de desenvolvimento do individuo e da energia psíquica.

Dois tipos de complexos

Desenvolvimentos posteriores da teoria dos complexos trouxeram uma compreensão importante acerca das características da natureza dos complexos na dinâmica psíquica. Nos anos 80, Donald Sandner e John Beebe publicaram um artigo chamado “Psychopathology And Analysis” (1982) que lançou uma nova luz sobre a compreensão que os complexos poderiam ser compreendidos em duas categorias: os complexos “ego-alinhados” ou “associados ao ego” e os complexos “ego-projetados”.

Os complexos ego alinhados são complexos mais próximos ao ego, que potencialmente se associam aos elementos de identidade do Ego. Seus conteúdos são mais facilmente reconhecidos como do próprio individuo, mesmo quando projetados. Esses complexos trazem mais propriamente a história do individuo correspondendo à sombra pessoal aos elementos que devem ser integrados e se referem aos complexos que comentamos até aqui.

Os “complexos ego-projetados ” (originalmente complexes ego-projected)

O termo ego-projetado não significa que o ego faz a projeção, mas sim que o ego se relaciona com esse tipo de complexo na forma projetada. Embora esses complexos sejam teoricamente partes da psique, localizados em níveis mais profundos do inconsciente do que os complexos da sombra, eles são comumente experimentados pelo ego como qualidades em outras pessoas. (BEEBE et SANDNER, 1984, p.304- tradução nossa)

O fato de estarem em camadas mais profundas da psique e serem experimentados em sua forma projetadas, não como “partes” ou da “identidade do ego”. Por estarem em camadas mais profundas, tendem a ser mais impessoais e próximos das camadas coletivas/culturais da psique. Nesta categoria encontramos a Anima/Animus, Trickster, Salvador, Morte e aspectos impessoais dos complexos parentais – dentre outros. Esses complexos impessoais possuem um carater arquetípico (energia e convulsividade) muito mais acentuadas. Por isso, quando em relação direta com o Ego vemos o fenômeno de Possessão , o Ego é possuído pelo aspectos impessoais/coletivos perdendo momentaneamente sua individualidade/pessoalidade.

Por não estarem relacionados diretamente com a formação da identidade Ego e mais relacionados com aspectos arquetípicos/coletivos são nomeados como “arquétipos”. O Ego se relaciona com eles pela “projeção” ou personificada em símbolos para proteger do fenômeno possessão que é potencialmente trágico – podendo comprometer o desenvolvimento do Ego e assim o processo de individuação. Fiona Ross no livro “Perversion: A Jungian Approach” sugere que a perversão está associada a identificação do Ego com o Trickster.

Os complexos ego-projetados são aspectos do Self por excelência indispensáveis para individuação. Na prática clínica lidamos com eles em duas situações importantes:

1 – Quando lidamos com complexos culturais: quando fatores históricos da psique cultural (grupo, étnico ou familiar) se manifestam à psique pessoal influenciando os complexos pessoais.

2 – Quando elidamos com a transferência/contratransferência arquetípica: são situações onde após a integração dos complexos ego-alinhados a libido regride às camadas mais profundas ativando os dinamismos arquetípicos essenciais à individuação.

Para concluir…

A teoria dos complexos é extremamente importante para uma compreensão ampla e profunda do pensamento junguiano. Muitas vezes, nos restringimos aos textos de Jung que fundam a teoria. Contudo, como um organismo vivo o pensamento junguiano está em movimento e transformação. Embora não seja o foco deste texto, os complexos culturais são um desenvolvimento importante e um novo capitulo que torna a “teoria dos complexos” ainda mais rica e atual.

Referência Bibliográfica

PERRONE, M.P.M.S.B.  Complexo: conceito fundante na construção da psicologia de  Carl Gustav Jung, 2008,155f. Tese (Doutorado em Psicologia) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2008.

Sandner, D. F. and Beebe, J. . “Psychopathology and Analysis.” in Stein, M. (ed.), Jungian Analysis. Boulder, Colo. and London: Shambala, 1984.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico Junguiano, Supervisor Clínico, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Pós-graduando em Acupuntura Clássica Chinesa (IBEPA/FAISP). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos” Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. / e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes /Instagram @fabriciomoraes.psi

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Retorno do Grupo Aion

O Grupo Aion – Estudos Junguianos está retornando para seu 10 ano de atividades!

Neste ano teremos algumas novidades! A coordenação das estudos será compartilhada com professores do CEPAES:
-Raíssa Rodrigues – Psicóloga Clínica, Mestre em Psicologia, Especialista Psicologia Analítica
-Edi Assis – Arteterapeuta e Especialista em Psicologia Analítica
-Guilherme Rocha – Psicólogo Clínico Junguiano com formação no CEPAES

Neste ano teremos uma proposta de uma leitura diversificada! A próposta é o estudo dos textos:

  • “Objetivos da Psicoterapia” de C.G Jung – Fabricio Moraes
  • “Trabalhando com o trauma em análise” de Donald Kalsched – Guilherme Rocha
  • “Projeção – sua relação com o adoecimento e amadurecimento psíquico” de Marie-Louise von Franz – Edi Assis
  • “O Arquétipo do Inválido e os limites da Cura” de Adolf Guggenbhul-Craig – Raissa Rodrigues
  • “Os problemas da Psicologia Moderna” de C.G Jung – Fabrício Moraes
  • “A psicologia da Figura do Trickster” de C.G Jung – Guilherme Rocha
  • “Fundamentos Psicológicos da Crença nos Espíritos de C.G Jung – Edi Assis
  • “Complexos Culturais em Análise” de Thomas Singer e Catherine Kaplinsky – Raissa Rodrigues
  • As Relações entre a Psicoterapia e a Direção Espiritual de C.G Jung – Fabrício Moraes
  • A divergência entre Freud e Jung de C.G Jung – Guilherme Rocha
  • As relações da psicologia analítica com a obra de arte poética de C.G. Jung – Edi Assis e Raissa Rodrigues
    (Não colocamos uma data para os textos pois dependerá das discussões.)
    Reinício: 31 de janeiro 2022
    Encontros semanais – Sempre às segundas das 19:30h as 21h
    mensalidade 120 reais
    Encontros pelo zoom
    Coordenação Geral: Fabrício Moraes
    Informações: 027-993166985
    inscrições https://forms.gle/Nqz3noKEz2yqao2S8
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Um Ano Novo em Nossa Vida

Mais um ano termina e um novo se inicia. É comum fazermos retrospectivas e planejamentos – vemos muitos programas de TV com suas retrospectivas do ano e temos as famosas “promessas de ano novo”. Esses ritos de final de ano, que marcam “passagem de ano” é uma transição artificial, do calendário, que espelham um processo natural, mais profundo que vivemos diante travessia um limite, da transição entre momentos de nossa existência.

The Invitation of Janus - Leadershift Consulting | Leslie Williams |  Leading with Grit & Grace
Deus Janus

Na mitologia romana Janus representava essa situação, era o deus dos limites, das entradas e saídas, das decisões e das escolhas. Chamado “Janus bifronte”, a divindade com dois rostos um velho que olha para o passado e um jovem que olha para o futuro. Por isso mesmo, Janus é homenageado no mês de janeiro.

A passagem do ano (que hoje vemos no “velho” e da “bebê/criança”) nos convida olhar para esse “lugar existencial” de nossa vida: o olhar para trás, para o passado, para o caminho caminhado, assim como olhar para frente, para o futuro, para o caminho a caminhar nos ajuda a entender onde estamos no presente, onde estamos estamos em nossa vida. Por isso mesmo, um ano novo em nossa vida nem sempre começa em 1o de janeiro, começa, na verdade, quando encontramos o limite do caminho, o marco que divide os caminhos e, tal qual Janus, podemos olhar para trás e para frente, para o passado e para o futuro e decidimos qual o caminho que vamos seguir.

O ano novo em nossa vida nem sempre é absoluto como uma “mudança total/radical”, às vezes temos um ano novo no trabalho; um ano novo no autocuidado, um ano novo nos relacionamentos (o que não quer dizer um novo relacionamento, mas uma nova etapa num antigo relacionamento). Em todo caso, todo ano novo precisa que reconheçamos o ano velho. É importante virarmos a página, fecharmos o ciclo, darmos espaço ao novo, ao devir à transformação. Sentimentos o medo, dor, ansiedade são normais nesse momento de travessia, para deixar ir o ano velho e nos permitir o ano novo!

Em todo caso, em breve faremos a virada para 2022, iniciaremos um ano novo. Espero que o que seja um ótimo ano novo em nossas vidas, que o olhando o passado e o futuro possamos viver a dádiva do presente, das escolhas e transformações que a vida nos oferece.

Feliz Ano Novo.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico Junguiano, Supervisor Clínico, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Pós-graduando em Acupuntura Clássica Chinesa (IBEPA/FAISP). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos” Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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Três pequenas histórias para o fim do ano

Encerramos mais um ano! Deixamos essas histórias para reflexão!

Que 2022 seja um ano de realizações! Aguardarei a ajuda de vocês com sugestão de novos textos e indicações!

Abraços

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