Os Complexos na Teoria Junguiana

A teoria dos complexos marca o início da construção teórica junguiana, sendo inclusive um dos pontos mais lembrados quando falamos do pensamento junguiano. Recentemente foi feita uma sugestão no instagram que eu falasse sobre complexos, me espantei que em mais de 10 anos do blog não ter escrito um texto específico sobre os complexos.

Corrigindo esse lapso, apresento essa visão geral da teoria dos complexos buscando apresentar sumária os aspectos fundamentais da teoria, prática e sua evolução histórica. Os estudos de associação de palavras que levaram à descoberta dos complexos tiveram inicio em 1903 se estenderam até 1909,.

Os estudos de Jung foram baseados em pesquisas de Kraepelin e Aschaffenburg com associação de palavras. Acreditava-se que a demetia precox (posteriormente renomeada para Esquizofrenia) era resultado de baixa tensão associativa. Jung e sua equipe buscava compreender o tempo de reação com o objetivo de criar um instrumento  para o diagnóstico diferencial  de doenças, esse objetivo não foi alcançado.

Inicialmente o “teste de associação de palavras” contava uma lista de 400 palavras. 231 substantivo. 69 adjetivos. 82 verbos. 18 advérbios e numerais. Posteriormente, foi diminuído para 100 palavras. Cada palavra-estímulo era dita ao participante e o tempo de reação e a palavra-resposta eram anotadas, após o término da lista, essas palavras eram repetidas para análise do tempo e das palavras-resposta. O teste foi aplicado comparativamente em pacientes neuróticos, psicóticos e “saudáveis”.

Jung e sua equipe ao analisar o tempo de reação/reposta, tiveram achados importantes:

  • O tempo de reação indicava que havia um esforço adaptativo da consciência evitando conteúdos não disponíveis a consciência.
  • Havia uma alteração/perturbação no curso da consciência.
  • As palavras com maior tempo de reação estavam relacionadas entre si, com uma relação temática.
  • O tempo de reação estava associado a mudança no estado afetivo do paciente.
  • Ao realizar uma entrevista com o participante, as palavras estímulos remetiam a momentos significativos da vida/história do participante.

As descobertas com os estudos experimentais com associação de palavras aproximaram Jung dos trabalhos de Freud que apontavam na mesma direção de conteúdos inconscientes que afetariam o curso da consciência e que estariam dissociados da consciência. Jung que lera a “Interpretação dos Sonhos” em 1900, notou a semelhança do que Freud vinha dizendo a partir de sua experiência e prática clínica.

Word Association Experiment – Bringing our Complexes to Light
Cena do Filme “Um Método Perigoso” 2011

Posteriormente, Jung e sua equipe realizaram pesquisas psicofísicas com pneumógrafo, galvanômetro que permitiram perceber que haviam mudanças significativas na reação somática (emissão de CO2, assim como mudança na tensão elétrica da superfície da pele).

Dos estudos experimentais Jung e sua equipe concluiu que:

  • As alterações no curso da consciência ocorreria por um aglomerado de idéias/memórias unidas com um mesmo eixo temático ou de significação e uma carga afetiva;
  • A carga afetiva que “energizava” esses conteúdos poderia variar em intensidade, podendo se percebida pelo tempo de reação, assim como as alterações psicofísicas, nas expressões (faciais, agitação) do paciente.
  • O tempo de resposta e as manifestações corresponderiam a tentativa da consciência/Ego em manter esses conteúdos fora da consciência.

Dessas conclusões Jung denominou esse “aglomerado de ideias/memórias unidos por uma carga afetiva” de complexos de acento emocional, essa primeira denominação evoluiu para complexos de tonalidade afetiva, e posteriormente Complexo ideoafetivo.

Arquétipos e Complexos

Jung compreendeu que seus estudos dialogavam com a psicanálise de Freud, com quem estabeleceu um relacionamento profissional e de amizade que se desenvolveu entre 1906-1913. Com a relação com Freud, Jung direcionou seus estudos aos processos do inconsciente. Contudo, haviam diferenças importantes na prática clinica de cada um. Freud atendia um público com predominância de pacientes neuróticos (histeria e quadros obsessivos), a experiência do Jung Hospital Burgholzli era com pacientes graves, especialmente psicóticos.

Essa diferença é importante pois, Jung acompanhou delírios de pacientes que tangenciavam aspectos impessoais, com profunda similaridade com mitos das diversas tradições culturais, a compreensão que havia um campo impessoal foi a base em torno do qual se desenvolveu a teoria dos arquétipos.

O desenvolvimento da teoria dos arquétipos proporcionou um acréscimo importante para a teoria dos complexos. Os temas arquetípicos universais, mitológicos, compreendidos tanto em delírios, fantasias e sonhos, seriam os mesmos temas fundantes de nossa experiência pessoal. Dito de outra forma, Jung compreendeu que os arquétipos consistiam no eixo em torno do qual os complexos se formavam.

The Interface of Carl Jung and Dissociative Identity Disorder: From  Autonomous Complex to Personality - Document - Gale Academic OneFile

As experiências arquetípicas basais/fisiológicos como nutrição e proteção – personificadas nas ações de cuidado da figura/função materna – espelhariam no campo coletivo às experiências da do arquétipo materno ou da Grande Mãe, no campo pessoal essas experiências arquetípicas seriam a base entorno do qual as experiências de cuidado, proteção e nutrição se configuração ao longo da vida desse individuo, ou seja, do complexo materno. Ao longo da vida as experiências significativas relacionadas ao cuidado (autocuidado), nutrição (incluindo a simbólica) e proteção (Segurança) vão articulando em torno do complexo materno – tornando o complexo mais pessoal e relacionado com a história pessoal, se distanciando do aspecto arquetípico (coletivo e universal).

Assim, os complexos estariam intimamente arraigados nas experiências somática/pessoais e arquetípicas do individuo. Os complexos seriam representações arquetípicas em nossa experiência pessoal.

Na prática, isso possibilitaria uma compreensão mais ampla e profunda dos complexos, visto que podemos compreender a dinâmica dos complexos por analogia de outras representações arquetípicas, como mitos e contos de fadas.

A dinâmica dos Complexos

Os complexos são estruturas ou padrões de organização da psique pessoal fundamentais para nosso desenvolvimento. Isso porque a função mais importante dos complexos é integrar ou organizar nossas vivências/experiências significativas fornecendo referência e repertório de respostas/ações ao Ego.

Quando falamos de “experiências significativas” nos referimos aquelas que possuem uma carga afetiva indicando o que a experiência que se torna memória ou não. Uma experiência pode ser negativa, ou seja, marcada por afetos/sentimentos como rejeição, medo, abandono, insegurança. Ou positivas marcadas por afetos/sentimentos como acolhimento, pertencimento, encorajamento, segurança. A qualidade das experiências vividas(positivas ou negativas) ao longo do tempo serão referência ao desenvolvimento indicando os padrões de respostas possíveis as situações cotidianas. É importante que claro que não é uma situação de rejeição, uma situação insegurança que se tornará referência ou o padrão afetivo do complexo, mas a recorrência, a regularidade dessas experiências ao longo do tempo no caso.

Acredito ser necessário distinguir as experiências que geram um “complexo negativo” das experiências traumáticas. Quando falamos de trauma falamos de experiências que podem ser acumulativas ou agudas(abruptas – como a vivência de violências ou perdas). São experiências que, como descreveu Donald Kalsched, nos “despedaçam” gerando um processo severo de dissociação que prejudica o desenvolvimento, afeta o Ego e prejudica as relações e estabelecimento de vínculos internos e externos.

Um complexo negativo traz consigo dor e sofrimento que as defesas do Ego conseguem lidar ou mesmo elaborar – muitas vezes formando um caráter neurótico, muitas vezes se manifestando ou na dependência ou na reatividade.

O complexo atrai experiências que sejam similares ao seu eixo temático (seu núcleo arquetípico), deste modo as experiências negativas ou positivas serão continuamente acrescidas, aumentando a carga afetiva do complexo. As experiências positivas produzem segurança, confiança e estabilidade ao ego, possibilitando o amadurecimento, a coesão e flexibilidade. As experiências negativas marcadas por sofrimento/dor/rejeição geram ansiedade e tendem a prejudicar as função adaptativas do ego, por isso ele (o ego) tende a se defender afastando ou dissociando esses conteúdos de sofrimento. Mesmo dissociados, os complexos continuam agregando conteúdos(ideias, vivências) e energia aumentando sua pressão sobre a consciência demando mais esforços defensivos do Ego para dissociar/controlar os impulsos gerados pelo complexo.

Lembrar que os complexos possuem a função fornecerem um referencial de ação/resposta ao Ego nos ajuda a compreender os principais padrões disfuncionais da dinâmica dos complexos que são: Invasão e a identidade com o ego.

A invasão se caracteriza pela irrupção repentina do afeto correspondente ao complexo (medo, raiva, tristeza etc) ou de comportamentos e ações inadequados que prejudicam o curso da consciência. Essa “invasão” sobrepõe momentaneamente as defesas do ego, ocorrem quando um evento externo correlato/similar a dinâmica do complexo se apresenta. A invasão é uma imposição momentânea do registro histórico do complexo, , do padrão de referência e repertório rejeitados, à realidade do ego.

A invasão é característica de uma situação onde o ego foi capaz de se defender e manter o complexo afastado/dissociado, evitando o contanto com elementos que possam gerar sofrimento/ansiedade. Fala de um ego funcional mais ou menos adaptado.

A identidade com o complexo se caracteriza pelo ego manifestar um comportamento identico e característico do complexo, podemos compreender que a identidade se manifesta por gerar um mínimo segurança e estabilidade ao ego. Por exemplo, um individuo com um complexo materno pronunciado pode assumir ou um comportamento materno em relação a terceiros ou um comportamento dependente/infantil – em ambos os casos, a repetição desses padrões indicam norteiam o ego, pautam o modo de organização e funcionamento, contudo indica limitação adaptativa, gerando prejuízo às relações e um conflito que impede de individuação.

Essas possibilidades de invasão e identidade são variações disfuncionais a função basal de fornecer repertório adaptativo ao Ego. Uma terceira possibilidade é a Possessão que veremos no próximo tópico.

É necessário considerar que os complexos podem se associar amplificando seu potencial de interferência. Nos exemplos anteriores citei o complexo materno, de forma, o complexo materno negativo pode se associar com o complexo paterno e o de poder (pois não é incomum que uma mãe que se excede – no cuidado, cansaço, proteção – indica um pai ausente, omisso ou fraco, o que associa a incapacidade de enfrentamento da realidade, ou seja, um complexo de poder negativo, ou de inferioridade).

Podemos compreender a dinâmica do complexo intimamente relacionada a capacidade do Ego em se adaptar e elaborar simbolicamente sua própria história. Possibilitando compreender o complexo por aspectos adaptativo, de desenvolvimento do individuo e da energia psíquica.

Dois tipos de complexos

Desenvolvimentos posteriores da teoria dos complexos trouxeram uma compreensão importante acerca das características da natureza dos complexos na dinâmica psíquica. Nos anos 80, Donald Sandner e John Beebe publicaram um artigo chamado “Psychopathology And Analysis” (1982) que lançou uma nova luz sobre a compreensão que os complexos poderiam ser compreendidos em duas categorias: os complexos “ego-alinhados” ou “associados ao ego” e os complexos “ego-projetados”.

Os complexos ego alinhados são complexos mais próximos ao ego, que potencialmente se associam aos elementos de identidade do Ego. Seus conteúdos são mais facilmente reconhecidos como do próprio individuo, mesmo quando projetados. Esses complexos trazem mais propriamente a história do individuo correspondendo à sombra pessoal aos elementos que devem ser integrados e se referem aos complexos que comentamos até aqui.

Os “complexos ego-projetados ” (originalmente complexes ego-projected)

O termo ego-projetado não significa que o ego faz a projeção, mas sim que o ego se relaciona com esse tipo de complexo na forma projetada. Embora esses complexos sejam teoricamente partes da psique, localizados em níveis mais profundos do inconsciente do que os complexos da sombra, eles são comumente experimentados pelo ego como qualidades em outras pessoas. (BEEBE et SANDNER, 1984, p.304- tradução nossa)

O fato de estarem em camadas mais profundas da psique e serem experimentados em sua forma projetadas, não como “partes” ou da “identidade do ego”. Por estarem em camadas mais profundas, tendem a ser mais impessoais e próximos das camadas coletivas/culturais da psique. Nesta categoria encontramos a Anima/Animus, Trickster, Salvador, Morte e aspectos impessoais dos complexos parentais – dentre outros. Esses complexos impessoais possuem um carater arquetípico (energia e convulsividade) muito mais acentuadas. Por isso, quando em relação direta com o Ego vemos o fenômeno de Possessão , o Ego é possuído pelo aspectos impessoais/coletivos perdendo momentaneamente sua individualidade/pessoalidade.

Por não estarem relacionados diretamente com a formação da identidade Ego e mais relacionados com aspectos arquetípicos/coletivos são nomeados como “arquétipos”. O Ego se relaciona com eles pela “projeção” ou personificada em símbolos para proteger do fenômeno possessão que é potencialmente trágico – podendo comprometer o desenvolvimento do Ego e assim o processo de individuação. Fiona Ross no livro “Perversion: A Jungian Approach” sugere que a perversão está associada a identificação do Ego com o Trickster.

Os complexos ego-projetados são aspectos do Self por excelência indispensáveis para individuação. Na prática clínica lidamos com eles em duas situações importantes:

1 – Quando lidamos com complexos culturais: quando fatores históricos da psique cultural (grupo, étnico ou familiar) se manifestam à psique pessoal influenciando os complexos pessoais.

2 – Quando elidamos com a transferência/contratransferência arquetípica: são situações onde após a integração dos complexos ego-alinhados a libido regride às camadas mais profundas ativando os dinamismos arquetípicos essenciais à individuação.

Para concluir…

A teoria dos complexos é extremamente importante para uma compreensão ampla e profunda do pensamento junguiano. Muitas vezes, nos restringimos aos textos de Jung que fundam a teoria. Contudo, como um organismo vivo o pensamento junguiano está em movimento e transformação. Embora não seja o foco deste texto, os complexos culturais são um desenvolvimento importante e um novo capitulo que torna a “teoria dos complexos” ainda mais rica e atual.

Referência Bibliográfica

PERRONE, M.P.M.S.B.  Complexo: conceito fundante na construção da psicologia de  Carl Gustav Jung, 2008,155f. Tese (Doutorado em Psicologia) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2008.

Sandner, D. F. and Beebe, J. . “Psychopathology and Analysis.” in Stein, M. (ed.), Jungian Analysis. Boulder, Colo. and London: Shambala, 1984.

Comentem e Compartilhem!

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico Junguiano, Supervisor Clínico, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Pós-graduando em Acupuntura Clássica Chinesa (IBEPA/FAISP). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos” Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. / e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes /Instagram @fabriciomoraes.psi

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Retorno do Grupo Aion

O Grupo Aion – Estudos Junguianos está retornando para seu 10 ano de atividades!

Neste ano teremos algumas novidades! A coordenação das estudos será compartilhada com professores do CEPAES:
-Raíssa Rodrigues – Psicóloga Clínica, Mestre em Psicologia, Especialista Psicologia Analítica
-Edi Assis – Arteterapeuta e Especialista em Psicologia Analítica
-Guilherme Rocha – Psicólogo Clínico Junguiano com formação no CEPAES

Neste ano teremos uma proposta de uma leitura diversificada! A próposta é o estudo dos textos:

  • “Objetivos da Psicoterapia” de C.G Jung – Fabricio Moraes
  • “Trabalhando com o trauma em análise” de Donald Kalsched – Guilherme Rocha
  • “Projeção – sua relação com o adoecimento e amadurecimento psíquico” de Marie-Louise von Franz – Edi Assis
  • “O Arquétipo do Inválido e os limites da Cura” de Adolf Guggenbhul-Craig – Raissa Rodrigues
  • “Os problemas da Psicologia Moderna” de C.G Jung – Fabrício Moraes
  • “A psicologia da Figura do Trickster” de C.G Jung – Guilherme Rocha
  • “Fundamentos Psicológicos da Crença nos Espíritos de C.G Jung – Edi Assis
  • “Complexos Culturais em Análise” de Thomas Singer e Catherine Kaplinsky – Raissa Rodrigues
  • As Relações entre a Psicoterapia e a Direção Espiritual de C.G Jung – Fabrício Moraes
  • A divergência entre Freud e Jung de C.G Jung – Guilherme Rocha
  • As relações da psicologia analítica com a obra de arte poética de C.G. Jung – Edi Assis e Raissa Rodrigues
    (Não colocamos uma data para os textos pois dependerá das discussões.)
    Reinício: 31 de janeiro 2022
    Encontros semanais – Sempre às segundas das 19:30h as 21h
    mensalidade 120 reais
    Encontros pelo zoom
    Coordenação Geral: Fabrício Moraes
    Informações: 027-993166985
    inscrições https://forms.gle/Nqz3noKEz2yqao2S8
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Um Ano Novo em Nossa Vida

Mais um ano termina e um novo se inicia. É comum fazermos retrospectivas e planejamentos – vemos muitos programas de TV com suas retrospectivas do ano e temos as famosas “promessas de ano novo”. Esses ritos de final de ano, que marcam “passagem de ano” é uma transição artificial, do calendário, que espelham um processo natural, mais profundo que vivemos diante travessia um limite, da transição entre momentos de nossa existência.

The Invitation of Janus - Leadershift Consulting | Leslie Williams |  Leading with Grit & Grace
Deus Janus

Na mitologia romana Janus representava essa situação, era o deus dos limites, das entradas e saídas, das decisões e das escolhas. Chamado “Janus bifronte”, a divindade com dois rostos um velho que olha para o passado e um jovem que olha para o futuro. Por isso mesmo, Janus é homenageado no mês de janeiro.

A passagem do ano (que hoje vemos no “velho” e da “bebê/criança”) nos convida olhar para esse “lugar existencial” de nossa vida: o olhar para trás, para o passado, para o caminho caminhado, assim como olhar para frente, para o futuro, para o caminho a caminhar nos ajuda a entender onde estamos no presente, onde estamos estamos em nossa vida. Por isso mesmo, um ano novo em nossa vida nem sempre começa em 1o de janeiro, começa, na verdade, quando encontramos o limite do caminho, o marco que divide os caminhos e, tal qual Janus, podemos olhar para trás e para frente, para o passado e para o futuro e decidimos qual o caminho que vamos seguir.

O ano novo em nossa vida nem sempre é absoluto como uma “mudança total/radical”, às vezes temos um ano novo no trabalho; um ano novo no autocuidado, um ano novo nos relacionamentos (o que não quer dizer um novo relacionamento, mas uma nova etapa num antigo relacionamento). Em todo caso, todo ano novo precisa que reconheçamos o ano velho. É importante virarmos a página, fecharmos o ciclo, darmos espaço ao novo, ao devir à transformação. Sentimentos o medo, dor, ansiedade são normais nesse momento de travessia, para deixar ir o ano velho e nos permitir o ano novo!

Em todo caso, em breve faremos a virada para 2022, iniciaremos um ano novo. Espero que o que seja um ótimo ano novo em nossas vidas, que o olhando o passado e o futuro possamos viver a dádiva do presente, das escolhas e transformações que a vida nos oferece.

Feliz Ano Novo.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico Junguiano, Supervisor Clínico, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Pós-graduando em Acupuntura Clássica Chinesa (IBEPA/FAISP). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos” Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. / e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Três pequenas histórias para o fim do ano

Encerramos mais um ano! Deixamos essas histórias para reflexão!

Que 2022 seja um ano de realizações! Aguardarei a ajuda de vocês com sugestão de novos textos e indicações!

Abraços

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A Transferência na Psicologia Junguiana – Parte 2/2

No post anterior A Transferência na Psicologia Junguiana – Parte 1/2 discutimos acerca das contribuições de Jung à temática da transferência. Contudo, é incompleto pensar a transferência(T) sem considerar a contraparte do analista, isto é, a contratransferencia(CT). Apesar de Jung apresentar ideias sobre o uso terapêutico da introjeção, de considerar que toda relação transforma as partes envolvidas, não poderia haver a transferência sem a contratransferência, sinalizando a importância da contratransferência. Jung não falava diretamente sobre a CT, mas sobre a importância da personalidade do analista.

No cenário junguiano, coube Michael Fordham dar contorno e redimensionar a contratransferência e sua importância para para a prática da psicoterapia. A T/CT forma um campo único, integral, muitas vezes representado pelo vaso alquimico onde o analista e paciente estão envolvidos e ambos se transformam. Linda Carter afirma que

“O analista não “possui” ou “tem” uma contratransferência; ele está “em” uma experiência fenomenológica cocriada com o outro. As duas pessoas da díade analítica estão em conjunção, simbolicamente sustentada pelo vaso alquímico construído através do relacionamento analítico. A contratransferência não pode nunca ser completamente analisada porque não é uma coisa ou ente em si; ao invés disso ela é emergente num dado momento e num dado relacionamento. Certamente, compreender o conteúdo narrativo da história de um paciente é central para a prática do analista, mas simplesmente tornar o inconsciente consciente não basta para a mudança e a individuação. compreender como se é “com outro” é essencial, juntamente com a capacidade para a função reflexiva e para o jogo com a metáfora e a analogia (CARTER, 2019, p.308)

Desde modo, a T/CT envolve elementos da psique tanto do analista quanto do paciente, essa conjunção simbólica exige autoconhecimento e autopercepção para compreender os processos contratransferenciais que são naturais, inconscientes e, muitas vezes, sutis. A CT se manifesta como a introjeção de conteúdos do paciente pelo analista

Fordham descreveu quarto possibilidades de manifestação/compreensão da CT são elas: Sintônica, ilusória, delirante e arquetípica. De forma geral, os efeitos ou qualidade da CT se manifestarão de acordo com a disponibilidade do ego do terapeuta acolher e simbolizar essas reações que emergem da relação com o paciente.

1- Contratransferência Sintônica: A CT sintônica também chamada de útil ou verdadeira é indica a relação adequada do terapeuta com o o paciente e consigo mesmo. Segundo Fordham,

“a introjeção útil ocorre enquanto se ouve o paciente e, se mantido à distância do ego do analista, fornece material através do qual uma interpretação pode ser formulada. Então, uma dialética interna pode ocorrer e, se o analista também puder projetar a si mesmo, e particularmente as partes infantis, ao paciente e combiná-las com o conhecimento adquirido do paciente, uma interpretação válida pode resultar disso. A parte interna da dialética pode ser quase instantânea ou demorada, mas exige a projeção antes que uma interpretação efetiva possa ser feita. essa situação, creio eu, foi indicada por Jung nos diagramas das projeções cruzadas na “psicologia da transferência”. FORDHAM,M et al , 1974, p. 278 – tradução nossa)

Fordham propõe uma atenção especial aos conteúdos manifestos pela introjeção de aspectos do paciente – que conteúdos seriam esses? Sensações físicas (azia, tontura, sono, dor, tensão, etc), sentimentos (raiva, tédio, impaciência, ternura, pena etc.), lembranças (da infância, de situações, de livros ou filmes, histórias, pessoas etc.) conteúdos esses relacionados com os complexos do analista (daí a importância da análise pessoal), mas foram evocados pela relação com o paciente e sem esta possivelmente não apareceriam.

Se o terapeuta perceber esses conteúdos emergindo enquanto o paciente fala e não se identificar com os mesmos (considerando que não são “autenticamente” seus mas derivam da relação com o paciente), ele pode se relacionar com o conteúdo, extrair dele sua temática e afeto e compreender o que foi sintonizado entre ele e o paciente podendo assim compreender o que está ativo no paciente e a natureza de sua transferência. A partir dessa compreensão acerca do paciente, uma interpretação ou intervenção se tornam simbólicas e podem integrar os conteúdos do paciente projetados e percebidos a partir do inconsciente do analista.

2 – A Contratransferência Ilusória também chamada de CT neurótica, ocorre quando o terapeuta se identifica com os conteúdos e pode agir a partir desses conteúdos (como infantilizar o paciente, tomado pelo complexo materno) ou agir defensivamente ignorando os conteúdos ou mesmo justificando como sendo dos pacientes. Nessas situações, o terapeuta perde a conexão com o paciente.

“Ocorre quando o analista não examina suas reações ao paciente, mas percebe que algo se alojou em si mesmo, proveniente da interação com o paciente. Se ele continuar a não prestar atenção a isso, como Fordham percebeu, ele pode se comportar como se não tivesse ouvindo o que o paciente está dizendo, (…), que pode levar a fazer comentários intuitivos que parecem “brilhantes”. mas são realmente exemplos do material projetante do analista que ele ainda não digeriu na relação com paciente.” (ASTOR, J. Michael Fordham, 115)

A CT ilusória pode ser um momento (ou momentos do processo terapêutico) ou inviabilizar o processo dependendo do conteúdo. Segundo Fordham as principais características dessa modalidade é

“seguintes características: (1) houve uma ativação inconsciente, ou melhor, vagamente consciente, de uma situação passada que substituiu completamente minha relação com o paciente; (2) durante esse tempo nenhuma análise do paciente foi possível.” (Fordham, M, 1974, p.139

3 – A Contratransferência delirante é um caso particular de contratransferência que envolve especialmente casos mais graves como psicose e transtornos graves. Nessa situação o analista introjeta objetos do delírio do paciente, identificando-se com os mesmos. Nesse processo pode romper com a realidade, sejam com elementos delirantes, paranóicos, ideação suicida, em alguns aspectos essa identificação pode ser como “folie à deux”.

É claro, no entanto, que ele[Jung] tem certeza de que o paciente pode ter efeitos muito drásticos sobre o analista e que isso pode induzir a manifestação patológica nele, particularmente quando pacientes esquizofrênicos e limítrofes estão sendo tratados: pode se instaurar no médico com uma paranóia  induzida pelo paciente, com uma paranóia  induzida, e médicos e enfermeieras podem sofrer “ataques psicóticos curtos” induzidos por pacientes sob seus cuidados. Fordham, 1974, p.242

A transferência delirante tende a mobilizar os aspectos pré-simbólicos, psicóides para os quais o ego pode não tem referência, é sempre importante que o analista tenha uma vida pessoal viva, sólida para a qual ele retorne. assim como o suporte de supervisão para elaborar essas T/CT (especialmente no inicio de carreir), em todo caso os sintomas tendem se desfazer com a suspensão do tratamento.

4 – A contratransferência arquetípica está associada a transferência arquetípica, ou seja, está associada a conteúdos do Self que se deintegram e através da relação transferencial são reintegrados, ou seja, padrões arquetípicos que são atualizados e necessários à individuação. A potencia dos conteúdos arquetípicos podem “fascinar” o analista – fazendo com que se identifique com a numinosidade arquetípica.

É importante notar que a CT arquetípica fala de conteúdos impessoais com os quais o analista precisa ter atenção e, como diz Warren Steinberg (1992), e um certo censo humor acerca de si mesmo, para de distanciar rir e elaborar a numinosidade de forma saudável, sem perder a pessoalidade e humanidade.

Ao prestar atenção na CT presentamos mais atenção ao paciente, notamos a complexidade da relação e podemos nos sentir parte do processo. Isso exige autoconhecimento, amor, paciencia, humildade e disponibilidade do terapeuta para se perceber, revisitar em seus conteúdos e sofrimentos pessoais – que ressoam com o sofrimento do paciente. Através da relação transferencial podemos visualizar além dos conteúdos transferidos mas também as defesas, resistências e dinâmicas que precisam ser humanizadas para serem elaboradas pelo ego.

Não podemos deixar de considerar que a contratransferência está intimamente relacionada com a dinâmica/temática do arquétipo do curador-ferido, que foi comentado em outros textos aqui no blog, segue os links:

http://psicologiaanalitica.com/pensando-alguns-aspectos-do-curador-ferido/

http://psicologiaanalitica.com/algumas-palavras-sobre-o-curador-ferido/

Caso tenha ficado com dúvidas, entre em contato!

Referências Bibliográfica:

Astor, J. Michael Fordham: Innovations in Analytical Psychology. London: Routledge, 1995

CARTER, L. Contratransferência e intersubjetividade in Stein, M. Psicanálise Junguiana Petrópolis: Vozes 2019

Fordham, M R. Gordon, J. Hubback and K. Lambert (eds), Technique in Jungian Analysis. London: Heinemann, 1974.

STEINBERG,W. Aspectos Clínicos da Terapia Junguiana, São Paulo: Cultrix, 1992.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Pós-graduando em Acupuntura Clássica Chinesa (IBEPA/FAISP). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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