Depressão, preconceito e Elias

 

18 de outubro de 2010

(Escrevi esse texto como base para uma palestra apresentada no dia 17/10/10, numa reunião das Mulheres Cristãs em Ação – MCA, da Igreja Batista em Praia do Suá, Vitória,ES. Essa palestra não tem uma finalidade objetivamente teórica ou expositiva da teoria junguiana)

O tema de nossa palestra é “Depressão, preconceito e Elias”. Acredito ser importante para discutirmos nas igrejas, para estarmos atentos a depressão, pois é um tema com o qual nos confrontamos todos os dias. Recentemente foi divulgado pela Organização Mundial de Saúde que em 20 anos, isto é, 2030, a depressão será a doença mais comum no mundo e será a que gerará mais gastos em seu tratamento. Hoje estima-se que cerca de 17% da população sofra de depressão.

Esses dados da OMS servem para nos chamar a atenção para essa doença, muitas vezes silenciosa, que vem ocupando cada vezes mais espaços em nosso dia a dia, acredito que todos nós aqui já tivemos contato próximo com pessoas com depressão em nossa família, vizinhança, trabalho ou na igreja.

Apesar de termos muita informação acerca da depressão, muita gente ainda acha que é a depressão é uma bobeira, é fraqueza moral, é preguiça, ou que a depressão é apenas uma longa tristeza. Entretanto, a depressão é uma doença que exige seriedade pois, não só pelo sofrimento pessoal e perdas sociais causadas pela depressão, mas, pelo fato de estar associada a casos de suicídio e, também, ao abandono de tratamentos médicos, o que pode também agravar outras doenças.

Quando falamos da depressão ou de qualquer doença, três aspectos são fundamentais: sintomas, causas e tratamento. Falando de forma geral da depressão, os principais sintomas são:

– Perda de interesse

– Alterações no Sono (dorme demais ou tem insonia)

– Alterações no apetite (come muito pouco ou come muito)

– Dificuldade de concentração

– Lentificação das atividades físicas e mentais (demora a responder aos estímulos)

– Se sente fracassada, culpada, com pensamentos negativos acerca de si.

– Pessimista,

– Indecisão

– Isolamento

– Inquieta, irritadiço

– Ou Chora à-toa ou não consegue chorar.

Os sintomas podem variar de pessoa para pessoa.

Na depressão há um esvaziamento da vida, cada vez mais a vida vai se tornando sem sentido, cada experiência que a pessoa tem se torna frustrante, ela não consegue ter prazer em nada, não conseguindo ter uma visão ou perspectiva de futuro. Mas, não podemos confundir isso com tristeza, a tristeza dá e passa, tem um motivo, a depressão é um estado persistente, que atravessa os dias e as semanas.

A depressão é uma doença silenciosa, ela vai se construindo lentamente, muitas vezes só nos damos conta quando estamos em meio a uma crise depressiva. Não há uma causa específica, são várias as causas que podem levar a uma pessoa a desenvolver uma depressão, desde uma predisposição genética, perdas profundas (como de um familiar, amigo, ou mesmo emprego), uma vida de pura rotina, muitas vezes sem sentido, apenas repetição; dificuldades para lidar com a frustração, mudanças drásticas na vida, isolamento/solidão, isso sem falar em alterações de ordem fisiológicas como variações hormonais na menopausa. São vários os fatores que podem se somar no processo de depressão.

O ideal para o tratamento da depressão é a conciliação entre a medicação e a psicoterapia. Em alguns casos de depressão leve o medicamento sozinho pode ser eficaz, mas, na maioria das vezes, nos caso de depressão moderada e severa a pessoa apresenta uma melhora, mas, fica dependente da medicação, pois não refletiu acerca das mudanças necessárias em sua vida. Isso porque a medicação gera uma estabilidade no individuo, permitindo que ele tome as decisões necessárias em sua vida. Essas questões e decisões serão identificadas num processo psicoterapêutico. Aqui entra no segundo tópico, que sugeri no tema: O preconceito.

Eu acho importante falar do preconceito porque já ouvi algumas pessoas ligadas a igrejas/lideres religiosos falando sobre a depressão e outros transtornos psicológicos, como sendo exclusivamente de ordem espiritual. Algumas dizem (inclusive pastores) que depressão é falta de Deus, ou é fruto de um pecado não confessado, ou que é ação do diabo ou “do inimigo” na vida da pessoa e por isso ela deprimiu. E, que basta orar e buscar a Deus que a depressão ser curada.

Mas, geralmente as pessoas ficam sofrendo no banco das igrejas, achando que tem algum pecado, achando que Deus não as ouve, achando que é o diabo agindo em suas vidas e não procuram ajuda profissional porque acham e ouvem as pessoas dizerem que a depressão é um problema “espiritual”. É importante entendermos que a depressão não é um problema espiritual, mas, pode causar um problema espiritual. Pois, muitos afastam da igreja e de Deus pelo fato se sentirem tão mal por ouvirem os irmãos dizendo que é “só ter fé “ou que o “seu problema é espiritual”, “é só uma provação” ou que “ é ter fé que o diabo vai se afastar”, nisso, a a ida na igreja em vez de ajudar, acaba deixando a pessoa pior.

Frente a essas idéias, esses preconceitos, podemos perguntar o que a bíblia diria acerca da depressão?Sempre que eu ouço alguém falando que se uma pessoa está deprimida ou é porque tem pouca fé, ou tem que orar mais, ou está em pecado, eu sempre pergunto, você já ouviu falar de Elias?

Elias foi o maior profeta do antigo testamento. No capitulo 19 de I Reis, temos um relato interessante sobre a situação dele. Vejamos o que diz o texto,

3 – Elias teve medo e fugiu para salvar a vida. Em Berseba de Judá ele deixou o seu servo

4 – e entrou no deserto, caminhando um dia. Chegou a um pé de giesta, sentou-se debaixo dele e orou, pedindo a morte. “Já tive o bastante, Senhor. Tira a minha vida; não sou melhor do que os meus antepassados. ”

5 – Depois se deitou debaixo da árvore e dormiu. De repente um anjo tocou nele e disse: “Levante-se e coma”.

6 – Elias olhou ao redor e ali, junto à sua cabeça, havia um pão assado sobre brasas quentes e um jarro de água. Ele comeu, bebeu e deitou-se de novo.

7 – O anjo do Senhor voltou, tocou nele e disse: “Levante-se e coma, pois a sua viagem será muito longa”.

8 – Então ele se levantou, comeu e bebeu. Fortalecido com aquela comida, viajou quarenta dias e quarenta noites, até que chegou a Horebe, o monte de Deus.

9 – Ali entrou numa caverna e passou a noite. E a palavra do Senhor veio a ele: “O que você está fazendo aqui, Elias? ”

10 – Ele respondeu: “Tenho sido muito zeloso pelo Senhor, Deus dos Exércitos. Os israelitas rejeitaram a tua aliança, quebraram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada. Sou o único que sobrou, e agora também estão procurando matar-me”.

11 – O Senhor lhe disse: “Saia e fique no monte, na presença do Senhor, pois o Senhor vai passar”. Então veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto.

12 – Depois do terremoto houve um fogo, mas o Senhor não estava nele. E depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave.

13 – Quando Elias ouviu, puxou a capa para cobrir o rosto, saiu e ficou à entrada da caverna. E uma voz lhe perguntou: “O que você está fazendo aqui, Elias? ”

14 – Ele respondeu: “Tenho sido muito zeloso pelo Senhor, Deus dos Exércitos. Os israelitas rejeitaram a tua aliança, quebraram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada. Sou o único que sobrou, e agora também estão procurando matar-me”.

15 – O Senhor lhe disse: “Volte pelo caminho por onde veio, e vá para o deserto de Damasco. Chegando lá, unja Hazael como rei da Síria.

16 – Unja também Jeú, filho de Ninsi, como rei de Israel, e unja Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, para suceder a você como profeta.

17 – Jeú matará todo aquele que escapar da espada de Hazael, e Eliseu matará todo aquele que escapar da espada de Jeú.

18 – No entanto, fiz sobrar sete mil em Israel, todos aqueles cujos joelhos não se inclinaram diante de Baal e todos aqueles cujas bocas não o beijaram”. (BIBLIA, I Reis 19:3-18, 2000),

Para entendermos esse capitulo da vida Elias, devemos lembrar rapidamente o que aconteceu no capitulo anterior, nele, Elias fez um desafio a 450 profetas de Baal, o deus que respondesse o holocausto com fogo, seria o Deus verdadeiro, após meio dia de suplicas os profetas de Baal nada obtiveram, Elias ao orar teve uma resposta imediata, onde fogo caiu do céu. Logo após, o povo que estava ali presente ficou maravilhado e matou os 450 profetas.

Mesmo acontecendo esse milagre, Elias não viu a conversão em massa que provavelmente ele esperava. Muito pelo contrário, a notícia que ele teve foi justamente que a rainha Jezabel queria vê-lo morto. Assim, começa dizendo que

3 – Elias teve medo e fugiu para salvar a vida.

4 – e entrou no deserto, caminhando um dia.

Elias teve medo e fugiu, se isolou, foi para o deserto, isto é, foi para uma região árida, infrutífera, vazia, que certamente refletia o que ele estava se sentindo por dentro. Assim, olhando para esse inicio poderíamos começar a identificar como sintomas de depressão o isolamento, mas, um sintoma não é suficiente para falar depressão, vamos continuar vendo o texto,

Chegou a um pé de giesta, sentou-se debaixo dele e orou, pedindo a morte. “Já tive o bastante, Senhor. Tira a minha vida; não sou melhor do que os meus antepassados. ”

Encontramos outros sintomas aqui, o desejo de morrer e os pensamentos negativos sobre si, como ele diz, que não é melhor que os antepassados. No versículo seguinte temos outro sintoma,

5 – Depois se deitou debaixo da árvore e dormiu

Uma dos sintomas comuns na depressão é a alteração do regime de sono (uns dormem demais, outros sofrem de insônia). É importante notar que o texto continua dizendo que Deus cuidava de Elias, tanto que o anjo veio por duas vezes para alimentá-lo. Elias estava num processo depressivo, mas, Deus não o abandonou, não viu pecado nele, nem o julgou. No versículo 8, temos outro dado

8 – Então ele se levantou, comeu e bebeu. Fortalecido com aquela comida, viajou quarenta dias e quarenta noites, até que chegou a Horebe, o monte de Deus.

O sofrimento Elias continuava, e ele caminhou pelo deserto durante 40 dias e 40 noites, até chegar em Horebe, no Egito. E chegando lá, ele entrou numa caverna, quando Deus fala com ele, e o responde dizendo justamente o que ele percebia da realidade, segundo ele, todo o povo de Israel havia abandonado a Deus, e só restava ele, sozinho.

10 – Ele respondeu: “Tenho sido muito zeloso pelo Senhor, Deus dos Exércitos. Os israelitas rejeitaram a tua aliança, quebraram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada. Sou o único que sobrou, e agora também estão procurando matar-me”.

Na fala de Elias percebemos como ele se sentia frustrado como profeta, como ele sentia que havia fracassado um profeta que não conseguiu converter o povo de seus maus caminhos. Deus manda Elias sair da caverna, que ele iria passar, conforme o texto,

11 – O Senhor lhe disse: “Saia e fique no monte, na presença do Senhor, pois o Senhor vai passar”. Então veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto.

12 – Depois do terremoto houve um fogo, mas o Senhor não estava nele. E depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave.

Elias conhecia bem a Deus, e não viu sua presença nem na tempestade, nem no terremoto, nem no fogo. Ou seja, as vezes a gente espera coisas grandiosas, milagres enormes, mas, Deus se manifestou na brisa, no suave murmúrio da brisa, e Elias o reconheceu ali.

Por isso, eu insisto em dizer que mesmo segundo a bíblia não tem como afirmar que a depressão é um problema espiritual. A depressão pode causar um problema espiritual, pode causar um afastamento de Deus, mas ela em si não deve ser vista como um problema espiritual.

Elias estava deprimido, mas, mesmo assim sua relação com Deus não mudou. Ele reconhecia a presença e a manifestação a Deus, e por outro lado, o próprio Deus falava com ele. É interessante a gente notar, que Deus mandou ele voltar pelo mesmo caminho e ir até o deserto de Damasco, ou seja, ele teria que viajar pelo deserto (por outros quarenta dias), onde ele caminhando ainda nesse vazio, mas, Deus afirma que mesmo estando com essa depressão ele não estaria sozinho, pois, no caminho dele ele encontraria ajuda.

Nesse ponto encontramos um segundo preconceito tão complicado quanto o primeiro muito complicado, que é o preconceito ao tratamento. Muitas pessoas não procuram tratamento porque alegam que não conhecem algum psicológo cristão ou não há no plano de saúde nenhum psicólogo cristão. E, não percebem que o mais importante é encontrar um bom profissional, mesmo que não seja cristão. Acerca disso, a bíblia nos mostra algumas coisas importantes. Vejamos um ponto importante, no texto.

15 – O Senhor lhe disse: “Volte pelo caminho por onde veio, e vá para o deserto de Damasco. Chegando lá, unja Hazael como rei da Síria.

16 – Unja também Jeú, filho de Ninsi, como rei de Israel, e unja Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, para suceder a você como profeta.

17 – Jeú matará todo aquele que escapar da espada de Hazael, e Eliseu matará todo aquele que escapar da espada de Jeú.

Deus mandou Elias ir ungir Hazel, como rei da Síria, que não era do povo de Israel, para ajudar em sua obra, mais adiante vemos que Hazael declarou guerra contra Israel, de forma a combater os inimigos de Elias, segundo a vontade de Deus. Ao longo de toda a bíblia vemos Deus usando pessoas que não eram do povo de Israel para salva-los. Outros exemplos bíblicos, que podemos citar são: Moisés, que Deus usou a filha do Faraó, para protegê-lo de Faraó; Davi que quando perseguido por Saul, ele encontrou abrigo entre filisteus de Gate(I Sm 27), eu seja, Deus usou os inimigos de Israel para dar abrigo a Davi; no período do exílio na Babilônia, Deus usou Ciro, Dario e Artaxerxes reis da Pérsia, para libertar o povo, restabelecer o templo e a reconstruir a cidade de Jerusalém conforme nos narram Esdras e Neemias; outro exemplo, foi o próprio Cristo, quando nasceu, teve de fugir de Herodes e encontrou abrigo no Egito, sendo acolhido numa terra estranha.

Por isso, é importante a gente orientar as pessoas que estão atravessando uma depressão ou qualquer outro transtorno de ordem psicológica a confiar em Deus e procurar um profissional habilitado, isto é, um psiquiatra para ministrar a medicação e um psicólogo para fazer o acompanhamento psicoterapêutico – existem pessoas que fizeram cursos de psicanálise e abrem consultório, eu não indico nem considero confiáveis. Sugiro sempre procurar um psicólogo devidamente registrado no Conselho Regional de Psicologia.

Em nossos dias, é muito importante que as igrejas tenham clareza desses preconceitos que cercam a depressão (também outras doenças de ordem psicológica), pois, esses preconceitos impedem um tratamento adequado, e isso promove o agravamento da doença, podendo realmente se tornar numa doença espiritual – quando a pessoa duvida de Deus, se revolta ou se sente abandonada por Ele. A melhor forma de ajudar essas pessoas é estimulá-las confiar em Deus e procurar um tratamento adequado e profissional. Quando mais dizemos que ela “não tem fé”, “só precisa de Deus” ou que “depressão coisa do inimigo” pioramos o estado de saúde delas, quando deveríamos orientarmos as pessoas a procurarem o tratamento adequado e assim, muitas vezes, contribuímos para que elas se afastem de Deus e das Igrejas.

Referencia bibliográfica

– Bíblia Sagrada Nova Versão Internacional. São Paulo: Soc. Bíblica Internacional, 2000.

 

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala

NUMINOSO: Do sagrado de Otto ao Arquétipo de Jung

 

13 de abril de 2010

(Esta palestra foi apresentada no I Congresso Estadual de Psicologia Analítica, realizado em Vitória, Dezembro 2009)

Este Primeiro congresso Estadual de Psicologia Analítica, é sem dúvida um marco na história do movimento junguiano capixaba e a realização de um sonho sonhado muitos.

Gostaria de parabenizar ao Programa Portas – que é um baluarte da psicologia junguiana no ES – e ao PET por essa importante iniciativa em contribuir com a psicologia analítica no ES.

A nossa proposta para esta palestra é pensarmos um pouco sobre o conceito “numinoso”, que é encontrado com freqüência na obra de Jung como uma qualidade ou caráter do inerente ao arquétipo. Mas, para compreender a adoção deste conceito, é necessário buscarmos a sua origem, o que nos leva a Rudolf Otto, que foi contemporâneo de Jung, e um dos responsáveis pelas conferências Eranos.

Rudolf Otto, o Sagrado e o Numinoso

Apesar de sua importância, Rudolf Otto(1869-1937) não é muito conhecido em nosso meio. Nascido na Alemanha, Otto foi um destacado teólogo protestante, filósofo e historiador das religiões. Esses três títulos de “teólogo”, “filósofo” e “historiador” correspondem também aos três estágios de desenvolvimento de sua obra, cuja primeira fase[i] correspondeu a seus estudos direcionados a teologia cristã, sua segunda fase marcada pela obra “O sagrado”, onde ele discutiu questões relacionadas a filosofia, mais propriamente fenomenologia da religião e Psicologia da religião. A terceira fase de sua obra, foi dedicada a estudos comparativos de história das religiões, especialmente as religiões orientais.

Um dado fundamental sobre Rudolf Otto é que ele, assim como Jung, não foi um pensador de gabinete, sua “inspiração”(por assim dizer) vinha das viagens que realizou ao longo de sua vida – como, por exemplo,  a Grécia, ao norte da Europa (Finlândia, Russia, Suécia), Oriente Médio (Beirute, Jerusalem), Norte da Africa(Egito), Oriente (India, China, Japão, Ceilão), America (EUA). A experiência com essas culturas diferentes, com formas de perceber a religião, fez de Otto um pensador ímpar. Seu trabalho influenciou pensadores importantes como Mircea Eliade e Paul Tillich, assim como C.G.Jung.

A obra que deu destaque a Rudolf Otto foi “O Sagrado – Os aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o racional” e foi publicada em 1917, durante a primeira guerra mundial. Nesse trabalho, Otto se dedicou a defender que o conceito deSagrado seria o elemento essencial das religiões, este seria o elemento relacionado ao divino, não sendo passível de racionalização. Otto compreendia que o Sagrado era uma idéia ou noção complexa, sendo formado por dois aspectos opostos:

1 – O primeiro era o elemento “racional”. Por racional, Otto compreendia os elementos que são nomeados, ou conceituados. Ou de outra forma, seriam os elementos passíveis de serem claramente comunicados pela linguagem. Nessa categoria de racional estariam as narrativas, as doutrinas, a ética e a moral religiosa.

2 – O segundo aspecto é o que nos importa nesse momento, corresponde ao âmbito irracional do sagrado. E, o irracional seria justamente os elementos que não se dobram ao a linguagem, fugindo a uma apreensão conceitual. Esse aspecto ou categoria Otto chamou de “numinoso”. Esse termo tem sua origem no termo latino Numensignifica deus ou divino. O Numinoso corresponderia ao aspecto ativo, experiencial da vivência religiosa e essa categoria só se aplicaria quando o numinoso se manifesta, ou seja,  quando o numinoso se manifesta a um individuo. Otto propõe que única forma de se compreender o irracional no sagrado é ter tido uma experiência pessoal com o sagrado, Isso é tão importante, que no terceiro capitulo, ele sugere que quem não tiver tido uma experiência religiosa ou não for capaz de se recordar de uma experiência deste tipo, que não continue a ler o livro. O que se diz acerca do numinoso, só faz sentido por encontrar eco na experiência vivida.

Desse modo, para se aproximar do aspecto irracional do Sagrado, Otto tomou como referência as reações afetivas dos indivíduos frente ao numinoso, ou seja, as sensações provocadas pelo sagrado nos individuos. (Isso é um dado interessanate, pois, ao optar em discutir o numinoso a partir das reações afetivas, ele saiu do âmbito filosófico e metafisco, fez psicologia da religião.)

O numinoso, entretanto, não se manifesta de uma forma simples, mas, complexa, Otto propôs uma formula básica para expressar essa complexidade, segundo Otto o numinoso é o mysterium tremendum et fascinans (mistério terrível e fascinante).

O mysterium corresponde a forma como o numinoso se manifesta. É o mistério, o desconhecido, incompreensível. Que quando manifesto se faz perceber como algo distinto da realidade que experimentamos, é o totalmente Outro.

Apesar de ser um mistério, ao se manifestar o numinoso é perceptível, Otto dizia que o sagrado se faz perceber pelo “arrepiar dos pêlos”, pelo “tremor dos joelhos”. Esse mistério  causa arrepios, se apresentando em dois aspectos qualitativos: o Tremendum e oFascinans.

O Tremendum é o aspecto negativo ou repulsivo do sagrado, onde a manifestação nos impele para trás, que nos impõem o temor. Ele pode ser percebido sob três formas: Tremendum, majestas e orgé.

O Tremendum é o terrível no sagrado; é o que nos faz tremer, que causa calafrios, que nos traz a sensação de risco a nossa integridade. Em nossa cultura cristã, podemos observar esse aspecto relacionado ou ao que seria demoníaco ou relacionado ao demônio ou em experiências místicas. No antigo testamento, Deus impunha temor, era o Deus que castigava, punia até a “segunda e terceira geração”. Nos dias de hoje percebemos esse “temor” na crença ou no Diabo como opositor, ou no castigo divino sentir o “peso da mão de Deus”.

O Majestas está relacionado com o poder ou a majestade com qual a experiência se apresenta. Nesse aspecto o misterium nos coloca na posição de pequenez, impotência, finitude, é o desesperador sentimento de finitude frente ao infinto produzindo o sentimento de criatura diante da grandiosidade deste Outro.

O terceiro aspecto é o Orgê que é a energia do numinoso. Que se faz manifestar na “vivacidade, paixão, natureza emotiva, vontade, força, comoção[ii]” gerados no individuo pelo contato com o objeto numinoso.

Esses aspectos são percebidos como repulsivos pois geraram o terror, o medo. E são percebidos como algo exterior a nós mesmos, algo que nos atinge.

O Fascinans é o aspecto positivo ou atrativo do sagrado, que é formado por dois aspectos, o augustus que impacta o individuo com a sensação de pureza, santidade; e o sebastus que se manifesta impondo o prudência, reverência, veneração.

A sensibilidade de Otto ao descrever o Numinoso possibilitou não só uma compreensão teórica do Sagrado ou da experiência religiosa, mas, também a possibilidade de compreendermos a experiência religiosa pela psicologia. O Numinoso não é uma noção teológica ou metafísica, mas, uma noção pautada na descrição da experiência do sagrado, a compreensão do numinoso como o aspecto irracional do sagrado que invade e toma o individuo, permitiu que Jung pudesse também aproximar a noção de numinoso da noção de arquétipo e de inconsciente.

O Arquétipo de C.G. Jung

Acredito que Jung dispensa apresentações. Mas a complexidade do conceito de arquétipo nos impõe uma constante reflexão sobre o mesmo.

Em primeiro lugar, é importante pensarmos no arquétipo num sentido amplo, não apenas como um conceito em si. Podemos pensar o arquétipo como uma categoria a priori necessária para pensarmos e compreendermos os fenômenos psíquicos,  que fogem ao âmbito histórico tanto do individuo quanto do grupo no qual o individuo esta inserido. E que podem reconhecidos nas diversas culturas, seja comportamentos ou por narrativas míticas.

Assim, quando falamos em arquétipo estamos nos referimos a uma categoria de padrões basais de organização e orientação psíquica comuns a todos os seres humanos, pois sua origem e desenvolvimento remontam a historia evolutiva humana.

Como padrões basais de organização, os arquétipos são a base da organização da consciência. E por isso que Jung afirma que o arquetipo-em-si não atinge a consciência. Pois, isso comprometeria a organização do ego e da consciência.

Deste modo, o arquétipo é estranho a consciência, nós somente apreendemos suas representações . Eu prefiro usar o termo representação arquetípica no lugar de imagem arquetípica. Isso porque imagem no uso comum tem um apelo visual, gerando um pouco de confusão.

Os arquétipos podem se manifestar ou se representar em nossa realidade como:

1 – Complexos de Tonalidade Afetiva: Os complexos são centros ordenadores de nossa experiência pessoal. Os complexos são atualização dos arquétipos em nossa realidade pessoal, pois, é em torno da tendência arquetípica que vão se organizar os complexos. Por isso, que podemos compreender a dinâmica de um complexo a partir os aspectos arquetípicos – como as representações culturais – mitos e contos de fada.

2 – Representações Simbólicas Culturais: São as manifestações arquetípicas na consciência coletiva. Que podemos perceber nas narrativas mítico-religiosas e na iconografia religiosa, cuja estrutura é similar nas mais diferentes culturas.

3 – Representações Simbólicas pessoais – Os símbolos correspondem a atualização do arquétipo através da projeção em situações ou imagens que correspondem arquétipo. Os símbolos podem ser ícones (como a cruz, um santo) ou situações típicas que marcam a vida – como o “sair da casa dos pais”, um “rompimento ou uma perda afetiva”. São situações que imprimem um significado maior aos indivíduos.

4 – Representações Corporais: Os arquétipos se expressam no corpo, através sentimentos, emoções, posturas que assumimos inconscientemente e que condicionam nosso modo ser, e perceber a vida. Essas representações corporais que são tão bem descritas pela psicologia corporal – em especial a analise bioenergética.

Essas formas de representação arquetípica demonstram a amplitude da idéia de arquétipo, que vai desde o aspecto cultural ao físico.

O que não podemos perder de vista, que quando o arquétipo se constela ou se manifesta, ele traz uma energia característica à consciência, fazendo com que o ego seja atraído e se submeta(mesmo que temporariamente) a dinâmica arquetípica. Ou melhor, ele passa a ser orientado pelo arquétipo.

Os arquétipos constituem o pano de fundo de nossa realidade. E, na maioria das vezes não nos apercebemos disso, pois, não nos damos conta de que cada representação arquetípica citada é um nível manifestação do arquétipo, e que é geralmente inconsciente.

Arquétipo e o Numinoso

A relação entre o arquétipo e o numinoso, fica clara quando a representação arquetípica se constela na consciência. Quando o arquétipo se constela, o ego vai experimentar essa manifestação com um caráter compulsivo, que pode ser experimentado como um fenômeno restaurador – ou seja, que vai fortalecer o ego, mas, limitar a liberdade do ego – ou como algo ameaçador que colocaria o ego em xeque, provocando uma profunda desestabilização do ego (chegando até uma possível ruptura psicótica).

Por exemplo, a experiência arquetípica é restauradora quando ela emerge no meio de uma crise, dando um norte para o ego. Isso é muito comum nas conversões religiosas, onde, com individuo num momento de crise, eclode um símbolo cuja intensidade e a força de atração é tão forte, que o ego se ordena em função disso. Nesse mesmo nível, podemos pensar nas constelações onde um individuo se separa, larga toda sua vida para viver uma paixão que todos vêem como absurda, ou mesmo se converte a uma religião e assume uma atitude fanática. O ego fica fascinado pelo arquétipo. Nesse caso o ego supera a crise, mas, paga o preço perdendo de sua autonomia, ficando identificado pela imagem arquetípica .

No outro caso, o arquétipo ou a representação arquetípica se coloca como uma ameaça iminente seja pela projeção da sombra, pela paranóia e estc.., No transtorno obsessivo compulsivo, p.ex., onde o individuo tem pensamentos dos quais tem que se defender, ou pela síndrome do pânico onde há a sensação de morte iminente, que é a própria ansiedade de ruptura do ego.

Em sua possibilidade de manifestação, o arquétipo pode ser terrível e fascinante. Por isso Jung afirma que o arquétipo é numinoso ou que o arquétipo possui “numinosidade”, pois os a constelação arquetípica observada no consultório apresentava as mesmas características que Otto descrevera da experiência do Sagrado.

Devemos tomar cuidado, para não fazermos reduções, dizendo “Sagrado é Arquétipo”, nem que o “Arquétipo é Sagrado”, não estou falando na disso, apenas que são duas categorias que nos afetam de forma similar.

Outro aspecto que aproxima o pensamento de Otto e do Jung é a questão de irracional. Tanto o sagrado quando o arquétipo são idéias ou conceitos, que não se aprende racionalmente, é necessário viver a experiência do sagrado ou do arquétipo para compreendê-las. Por exemplo, quem não sentiu o poder sedutor da anima, vai ter dificuldade para compreender a angústia de um cliente fascinado pela anima. Quem não se confrontou com o Mal em si próprio, vai ter dificuldade para compreender o Mal ou a Sombra, no cliente. Por isso que para se compreender a psicologia analítica, é necessário viver os conceitos.

O Numinoso na psicologia analítica aponta justamente para isto:  omistério terrível e fascinante que nos organiza e nos constitui. Que nos confronta com quem somos, e assim, nos conduz a nós mesmos.

OTTO, Rudolf. O Sagrado: os aspectos irracionais na noção de divino e sua relação com o racional, São Leopoldo:Sinodal/EST; Petropolis: Vozes, 2007.


[i] Cf. O sagrado, p. 15.

[ii] Cf. O Sagrado, p. 55

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala