Algumas Reflexões acerca da Morte e seu simbolismo

 

27 de fevereiro de 2011

A Morte é um dos maiores mistérios da vida. Justamente por ser mistério, ela é temida pela grande maioria das pessoas. A temática da morte está presente em todas as formações religiosas, devido a numinosidade que a envolve.

Para pensarmos na morte, devemos ter em vista que a mesma comporta vários níveis de interpretação/compreensão desde o mais básico, como o biológico quando um ser vivente atinge um nível de desorganização em que ocorre a cessação dos processos vitais, passando pela simbólica podendo ser sociocultural, envolvendo o processo morrer, até a morte no sentido mais metafísico que é a morte espiritual.

No que tange a nosso post, devemos focalizar o aspecto da morte que nos fala mais diretamente, que é Morte como um símbolo, que eclode do inconsciente, invadindo a consciência pessoal, quer por meio de sonhos ou por meio de sensações, que promove a sensação de finitude, pequenez, e impossibilidade. (Lembro que há alguns anos, num Ciclo de Debates em Psicologia Hospitalar na UFES, o prof. Dr. Fernando Pessoa, do dept. de Filosofia da UFES, fez uma palestra brilhante, que me marcou profundamente, onde ele discutiu sobre a morte como a “impossibilidade das possibilidades”).

Sob a ótica junguiana, compreendemos que todos nós trazemos em nós esse “principio de desagregação”, sob o conceito de arquétipo. É importante lembrarmos que para a psicologia analítica, os arquétipos são fruto da experiência humana ao longo da evolução, isto é, as experiências típicas/comuns humanas imprimiram na psique , ao longo das centenas de milhares de anos, um registro residual dessas experiências, de modo que forneceriam ao individuo padrões de organização psíquica necessários para sua vida psíquica/simbólica.

Há tantos arquétipos quantas situações típicas na vida. Intermináveis repetições imprimiram essas experiências na constituição psíquica, não sob a forma de imagens preenchidas de um conteúdo, mas precipuamente apenas formas sem conteúdo, representando a mera possibilidade de um determinado tipo de percepção e ação, Quando algo ocorre na vida que corresponde a um arquétipo, este é ativado e surge uma compulsão que se impõe a modo de uma reação instintiva contra toda a razão e vontade, (JUNG, 2000a, p. 58)

Assim, podemos falar da Morte sob um aspecto arquetípico, contudo, devemos tomar cuidado ao lidarmos com esse arquétipo, para não incorrer num reducionismo teórico. Pois, quando falamos de um “arquétipo da Morte”, estamos fazendo uma cisão numa dinâmica arquetípica muito maior, que é do arquétipo de vida/morte. A morte representa um pólo dessa dinâmica arquetípica. De outra forma, podemos dizer que a vida e a morte constituem as faces de uma mesma e única moeda, não podemos perder de vista que a morte é parte da vida. Não há vida sem morte, nem  morte sem vida. É justamente ao nos confrontarmos com o horizonte da morte, finitude e limitações,  que tomamos consciência de nossa vida.

Na minha experiência bastante longa fiz uma série de observações com pessoas cuja atividade psíquica inconsciente eu pude seguir até imediatamente antes da morte. Geralmente a aproximação do fim era indicada através daqueles símbolos que, na vida normal, denotavam mudanças no estado psicológico — símbolos de renascimento, tais como mudanças de localidade, viagens e semelhantes. Muitas vezes pude acompanhar até acima de um ano antes os indícios de aproximação da morte, inclusive naqueles casos em que a situação externa não permitia tais pensamentos. O processo tanatológico começara, portanto, muito antes da morte real. Aliás, observa-se isto, freqüentemente, também na mudança peculiar de caráter que precede de muito a morte. Globalmente falando, eu me espantava de ver o pouco caso que a psique inconsciente fazia da morte. Pareceria que a morte era alguma coisa relativamente sem importância, ou talvez nossa psique não se preocupasse com o que eventualmente acontecia ao indivíduo. Por isto parece que o inconsciente se interessa tanto mais com saber como se morre, ou seja, se a atitude da consciência está em conformidade ou não com o processo de morrer. Assim, uma vez tive de tratar de uma mulher de sessenta e dois anos, ainda vigorosa, e sofrivelmente inteligente. Não era, portanto, por falta de dotes que ela se mostrava incapaz de compreender os próprios sonhos. Infelizmente era por demais evidente que ela não queria entendê-los. Seus sonhos eram muito claros, mas também desagradáveis. Ela metera na própria cabeça que era uma mãe perfeita para os filhos, mas os filhos não partilhavam desta opinião, e os seus próprios sonhos revelavam uma convicção bastante contrária. Fui
obrigado a interromper o tratamento, depois de algumas semanas de esforços infrutíferos, por ter sido convocado para o serviço militar (era durante a guerra). Entrementes a paciente foi acometida de um mal incurável que, depois de ;alguns meses, levou-a a um estado agônico o qual, a cada momento, podia significar o fim. Na maior parte do tempo ela se achava mergulhada numa espécie de delírio ou sonambulismo, e nesta curiosa situação mental ela espontaneamente retomou o trabalho de análise antes interrompido. Voltou a falar de seus sonhos e confessava a si própria tudo o que me havia negado antes com toda a obstinação possível, e mais uma porção de outras coisas. O trabalho de auto-análise se prolongava por várias horas ao dia, durante seis semanas. No final deste período, ela havia-se acalmado, como uma paciente num tratamento normal, e então morreu. 
Desta e de numerosas outras experiências do mesmo gênero devo concluir que nossa alma não é indiferente, pelo menos ao morrer do indivíduo. A tendência compulsiva que os moribundos freqüentemente revelam de querer corrigir ainda tudo o que é errado, deve apontar na mesma direção.’(JUNG, 2000b, p.363-4) (grifo meu)

Para pensarmos acerca do simbolismo da morte, em seu caráter coletivo, isto é, arquetípico, devemos recorrer as formações/expressões  culturais que lidam com a morte através dos séculos. Talvez, seja importante esclarecer que o método junguiano de estudo do simbolismo é o método hermenêutico, ou seja, para se compreender um símbolo, devemos proceder como um tradutor procede para apreender o significado de uma palavra, que busca o termo em diferentes textos e contextos para assim compreender seus possíveis significados, assim também devemos buscar as ocorrências dos símbolos produções culturais através dos séculos, comparando sua ocorrência em diferentes culturas e tradições para assim, podermos nos aproximar da complexidade do símbolo.

Para compreendermos as relações com a morte é fundamental buscarmos as religiões/mitologias para compreendermos a Morte. isso por que, em primeiro lugar, as mitologias, segundo Campbell, começam a se desenvolver há cerca de 100 mil a.C, isto é, começamos a ter os primeiros indícios de um pensamento mítico, associados aos “enterros cerimoniais”. Esses enterros cerimoniais, indicam que já havia uma crença numa vida após a morte (ou vida após a vida). Isso é importante justamente, para compreendermos um ou “o” papel mais importante das religiões que é a preparação do individuo (e de seu grupo) para a morte e o morrer.

Na maior parte das religiões o “eterno retorno” é a marca crucial, isto é, a vida flui sempre e continuamente, sendo pontuada pela morte, que assinala a transformação da vida. Mesmo as religiões oriundas do judaísmo, que inaugura uma perspectiva linear da historia, onde há um inicio e um fim da “história humana”. Com o cristianismo, essa linearidade se expandiu assumindo uma “vida eterna” e o surgimento de um “novo ciclo” (os “novos céus e nova terra”).

No que diz respeito ao simbolismo da morte, devemos ressaltar, a Morte de Cristo é o ponto máximo da fé cristã, para não dizer que é o ponto fundante do cristianismo. Pois, foi a forma como Cristo morreu e a sua ressurreição que há a possibilidade de se considerar a vida eterna ou a vitória sobre a morte, esta ultima, se torna um ponto de transição, uma passagem pela qual o crente passa para se encontrar com Cristo.

Entre os Yorubas,na tradição do candomblé, a morte era a passagem para uma outra vida, onde poderia haver ou não retorno ao mundo dos vivos.

Entre os buddhistas tibetanos, a morte é um limiar, uma passagem, uma mudança, como um encerramento de um capitulo. No pós vida o espirito pode se iluminar ou retornar pelo renascimento.

Nos Ritos/mistérios de Elêusis, na Grécia, havia uma crença na vida suplantaria a morte. Sendo um rito vinculado a uma mitologia agrária, indicava que assim como o grão de trigo, caindo e sendo sepultado na terra daria origem a nova vida, do mesmo modo nós também viveremos após sermos sepultados na terra.

Uma outra tradição interessante a ser considerada é a do Tarot, que traz o arcano XIII, uma representação da morte. Apesar de poder significar morte física,  em geral, indica uma transformação ou mudança que pode` se apresentar como positiva ou negativa. Mas, em sua essência traz imagem da transformação.  

Quando vamos buscar em várias e diferentes tradições,  a morte indica uma passagem e transformação. É importante compreendermos que, quando uma pessoa produz um sonho, este, no geral, fala da realidade psíquica daquela pessoa. Assim, quando observamos um símbolo de morte ou ruptura num sonho, p. ex, temos que recorrer as associações do sonhador, pois, somente ele vai poder dar a direção, para compreender, se for o caso, o que precisa morrer ou abrir espaço para que algo novo se configure em sua vida? A chave está sempre com quem produziu o símbolo.

O fundamental é considerar que todos os símbolos são polissêmicos, dessa forma, não podemos considerar um sonho de morte, ou uma sensação de morte iminente num sintoma, como sendo uma morte física que se aproxima. O desespero muitos sentem frente a ideia da morte, ou frente aos símbolos da morte, indica que há muito que repensarmos em nossa própria vida. Pois, a forma como encaramos a morte é um reflexo de como vivemos nossa vida.

Transpondo para termos junguianos, esse desespero ou terror em se pensar na morte, nos permite vislumbrar que há algo de errado no  desenvolvimento do processo de individuação. Isso porque o “horizonte da morte” é um dos fatores que disparam o processso de individuação

Do meio da vida em diante, só aquele que se dispõe a morrer conserva a vitalidade, porque na hora secreta do meio-dia da vida inverte-se a parábola e nasce a morte. A segunda metade da vida não significa subida, expansão,  crescimento, exuberância, mas morte, porque o seu alvo é o seu término. A recusa em aceitar a plenitude da vida equivale a não aceitar o seu fim. Tanto uma coisa como a outra significam não querer viver. E não querer viver é sinônimo de não querer morrer. A ascensão e o declínio formam uma só curva. (JUNG, 2000b.p. 359-60 )

A metáfora que Jung utiliza, comparando a vida humana ao ciclo solar, é importante para compreendermos que ao meio dia da vida, o desenvolvimento se inverte, já não é exterior, mas, se inclina gradativamente ao desenvolvimento interior. Aceitar a possibilidade da morte, a finitude, as limitações da idade, propicia que que o individuo viva cada etapa de sua vida de forma plena.

Muitas vezes, quando os símbolos da morte se manifestam, podemos pensar, também, que há a necessidade de ir a adiante, uma nova etapa deve ser começada. Muitas vezes,esse movimento que busca a continuidade é sentida com muito sofrimento, como a perda ou ruptura, pois, o Self que “incita a este movimento para diante, e, se necessário, o realiza com força inexorável”.(NEUMANN, 2000, p.228)

Quanto maior a desconexão entre a consciência e o inconsciente, melhor representada pelo eixo ego-self, maior será a dificuldade do individuo perceber a dinâmica em seu inconsciente. E, os símbolos constelados tendem a não ser assimilados pela consciência, gerando assim, os sintomas e possíveis quadros neuróticos.

Assim, uma perspectiva para compreendermos a psicologia dos símbolos da morte é compreendermos que a morte é parte da vida e, desta forma, a os símbolos que envolvem a morte são, em ultima instância, símbolos da vida, ou de forma mais específica, da transitoriedade e/ou das transformações que são necessárias ou inerentes a vida. 

Referências bibliográficas

JUNG, C.G. Os arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Petropolis: Vozes, 2000a.

______________. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000b.

CAMPBELL, Myths to Live By. Nova York: Penguin Books, 1993.

NEUMANN, E., O Medo do Feminino – E outros ensaios sobre a psicologia feminina, São Paulo: Paulus, 2000.

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala

Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte I

(24 de maio 2010)

A psicoterapia e/ou análise junguiana são, de certa forma, desconhecidas do público em geral. No Espírito Santo, em especial, o lacanismo é uma das principais referências em modelo de atendimento. Assim, nesse post vamos começar a  discutir alguns dos aspectos básicos da abordagem junguiana.

Psicoterapia ou Análise

Em sua obra, Jung utilizava os termos psicoterapia e análise de forma praticamente indistinta. Ele compreendia que o objetivo da análise e da psicoterapia seriam similares. Pois, tanto a psicoterapia quando a análise buscam o desenvolvimento/amadurecimento do individuo.

A distinção entre análise e psicoterapia começou a se delinear de forma mais clara após a morte de Jung.  A Psicoterapia propriamente dita passou ter como objetivo mais delineado com o tratamento das neuroses, isso quer dizer, que a psicoterapia teria como direcionamento a elucidação de um dado quadro neurótico, o processo duraria o tempo necessário para a elucidação do conflito neurótico.  A psicoterapia poderia evoluir para a análise.

Por outro lado, a análise passou a ter como objetivo o processo de individuação. Esta seria de duração maior, propiciando a interação ou dialogo do individuo com o inconsciente. Sem a necessidade de haver uma questão neurótica a priori. Assim, seria muito tênue a separação da análise da psicoterapia ou da psicoterapia da analise, tanto que alguns analistas definem que a analise como uma forma especial de psicoterapia. Podemos dizer até, que a psicoterapia e a análise são faces de uma mesma moeda. Não acredito ter possível separar claramente uma da outra.

Existe, também, uma questão politica que atravessa a caracterização de psicoterapia e análise, e esta questão talvez seja a mais relevante nessa percepção da terminologia. Essa “questão politica” foi sendo construida ao longo do tempo, com a formação de institutos de formação em psicologia analítica e da International Association for Analytical Psychology (IAAP) foi se desenvolvendo uma convenção de que os profissionais que fizessem uma formação num instituto reconhecido pela IAAP seriam denominados “analistas junguianos”, os demais profissionais psicoterapeutas sem formação reconhecida seriam considerados “ psicoterapeutas junguianos”.

Muitos profissionais junguianos que praticam a psicoterapia e a analise junguiana têm passado a utilizar a designação de “analista junguiano”. Efetivamente, não há nada que realmente impeça um profissional (médico ou psicólogo) habilitado e qualificado em psicoterapia a utilizar a designação “analista”.  A IAAP ou institutos de formação não tem o poder de limitar o uso, podem apenas “certificar” a qualidade do treinamento do analista (muito rigorosa, diga-se de passagem). Um dado que chama atenção é que eu verifiquei o site da IAAP, no ultimo dia 26/05/10, e segundo ele hoje a IAAP  conta com 2909 membros no mundo inteiro. No Brasil são 178 analistas junguianos membros da IAAP, em sua grande maioria concentrados no Rio de Janeiro e São Paulo.  Um número pequeno, se pensarmos que somos 190 milhões de brasileiros.

Eu me recordo de um belo texto publicado na revista virtual Coniunctio, (do grupo Sizigia, de Fortaleza), o texto é “A Máscara Junguiana: Uma Reflexão sobre o que caracteriza o autêntico psicólogo de orientação junguiana” de Edvaldo Ferreira da Costa, gostaria apenas de citar o seu final

Portanto, diante de tudo que foi exposto aqui, não é a titulação, a formação ou a filiação a esta ou àquela sociedade que caracteriza o autêntico psicólogo de orientação junguiana, mas a sua capacidade para sustentar uma persona ou máscara junguiana que, em vez de esconder, revele a sua personalidade e o possibilite ser a pessoa autêntica que é com todas as suas fraquezas, limitações e defeitos assim como com todas as suas forças, possibilidades e virtudes. Para isso é necessário que este psicólogo esteja caminhando sozinho, se for capaz, ou com a ajuda de colegas, professores, supervisores e analista em busca de integrar da melhor forma e na maior intensidade possível, autoconhecimento e conhecimento científico.(COSTA,S/D.)

Apesar desse aspecto politico, eu prefiro optar pela diferenciação a partir de foco e duração. Sinceramente, a designação psicoterapeuta ou analista acredito ser pouco importante, prefiro utilizar a designação (também utilizada pelo Edvaldo Costa) de psicólogo de orientação junguiana, afinal, no Brasil, nem psicoterapeuta nem analista são profissões regulamentadas. Por outro lado, dois dos pioneiros da psicologia analítica no Brasil, Dra. Nise da Silveira e Dr. Petho Sándor não eram “analistas reconhecidos” ou “IAAP”. Mas, isso não os impediu de desenvolver a psicologia analítica através de trabalhos brilhantes.

Características da Psicoterapia/Análise Junguiana

Jung não formalizou o método seu analítico em artigos ou manuais, muito pelo contrário, ele formalizou a particularidade de cada analista/psicoterapeuta na condução do processo terapêutico. Segundo Jung,

Todo psicoterapeuta não só tem seu método: ele próprio é esse método. Ars totum requirit hominem” * diz um velho mestre. O grande fator de cura, na psicoterapia é a personalidade do médico – esta não é dada “a priori”; conquista-se com muito esforço, mas não é um esquema doutrinário. As teorias são inevitáveis, mas, não passam de meios auxiliares. Assim que se transformam em dogmas, isso significa que uma grande duvida interna está sendo abafada. É necessário um grande números de pontos de vista teóricos para produzir, ainda que aproximadamente, uma imagem da multiplicidade da alma. Por isso é que se comete um grande erro quando se acusa a psicoterapia de náo ser capaz de unificar suas próprias teorias. A unificação poderia significar apenas unilateralidade e esvaziamento. A psique não pode ser apreendida numa teoria; tampouco o mundo. As teorias não são artigos de fé, são instrumentos a serviço do conhecimento e da terapia; ou então não servem para muita coisa. (JUNG, 1999, 84-85)

* – A arte exige o homem inteiro.

Jung compreendia que a cada psicoterapeuta/analista era antes de tudo um individuo. Assim, era necessário reconhecer as peculiaridades de cada psicoterapeuta, como uma expressão do processo de individuação do terapeuta. Por isso, podemos encontrar psicoterapeutas/analistas junguianos que utilizam técnicas corporais (calatonia), arteterapia, sandplay, biblioterapia, hipnose, etc…Não há uma normatização que diga, “você pode usar isso” ou “você não pode usar aquilo”, a regra é ser sincero consigo mesmo e utilizar instrumento que o psicoterapeuta esteja capacitado e se sinta “inteiro” para usa-lo com  o cliente. Eu me recordo de quando eu era estagiário de psicologia em minha graduação, quando fiz estágio em psicoterapia corporal. Eu conhecia a teoria, fiz grupos de movimento, me sentia confiante para usar utilizar a técnica corporal, contudo, a primeira pessoa que coloquei no grounding foi a ultima. Eu sentia estranho frente a pessoa que estava a minha frente, dentro de mim eu senti um distanciamento enorme. Eu vi que aquela técnica “não me pertencia”, por mais que eu tivesse sentido a eficácia dogrounding pela minha experiência pessoal, aquilo não estava mim.

Apesar dessa ressalva da acerca da particularidade de cada psicoterapeuta junguiano, existem algumas características formais compartilhadas por muitos junguianos. São elas

– Duração: As sessões possuem uma duração fixa, que pode variar de psicoterapeuta para psicoterapeuta, contudo, no  geral variam de 45 min a 60 min.

– Frequência: De formal geral, são realizadas sessões semanais. Entretanto, em caso de análise ou por necessidade terapêutica (como o paciente estar em crise) pode variar, sendo mais comum até 3x por semana, mas, tudo depende da avaliação do psicoterapeuta.

– Postura frente ao Cliente: Os Junguianos geralmente sentam frente a frente com seu cliente, criando um ambiente de igualdade, onde ele pode ver com clareza seu cliente (e suas reações) assim como pode ser visto por seu cliente. O posicionamento frente-a-frente também é importante pela relação dialética proposta por Jung,

Se, na qualidade de psicoterapeuta, eu me sentir como autoridade diante do paciente e, como médico, tiver a pretensão de saber algo a sua individualidade e fazer afirmações válidas a seu respeito, estarei demonstrando falta de espirito critico, pois não estarei reconhecendo que não  tenho condições de julgar a totalidade da personalidade que está na minha frente.(….) Por isso, quer eu queira quer não,  se eu estiver disposto a fazer o tratamento psíquico de um individuo, tenho que renunciar à minha autoridade no saber, a toda e qualquer autoridade e vontade de influenciar. Tenho de optar necessariamente por um método dialético, que consiste em confrontar as averiguações mútuas. Mas, isto só se torna possível se eu deixar ao outro a oportunidade de apresentar seu material o mais completamente possível, sem limitá-lo pelos meus pressupostos. (JUNG, 1999, p.3)

Deve-se notar que Jung indica que o método dialético é um dialogo entre dois indivíduos, onde há o confronto de hipóteses e percepções. Assim, o psicoterapeuta terá uma atitude ativa – uma escuta ativa e uma troca com o cliente, falando de suas percepções de modo ao cliente refletir sobre a hipótese levantada – sem que com isso, a percepção do terapeuta se imponha ao cliente. Como uma postura ativa, o psicoterapeuta poderá sugerir ao cliente atividades (como ver determinado filme, ou realizar uma determinada atividade) esses “deveres de casa” muitas vezes caracterizam a abordagem junguiana como “semi-diretiva”, mas, isso vai depender de psicoterapeuta para psicoterapeuta e da relação com cada cliente.

Devemos lembrar também que a psicologia analítica clássica atendia preferencialmente adultos em sessões individuais.  Atualmente, tem se produzido trabalhos em atendimentos de casais, grupos e crianças.

(Em breve vou colocar mais aspectos para pensarmos a psicoterapia/analise junguiana)

Referências

COSTA, E. F, A Máscara Junguiana: Uma Reflexão sobre o que caracteriza o autêntico psicólogo Junguiano, Coniunctio, no. 1, v.1, s/d, http://www.sizigia.com.br/revista_conteudo.asp?revista=7&autor=15. Acessado em 26 de maio de 2010.

JUNG, A pratica da psicoterapia, Petropolis: Vozes, 7ed. 1999.

 

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala