Funções Autorreguladoras: Pensando os “mecanismos de defesa” no paradigma junguiano

 

Logo que começamos a estudar a psicologia analítica nos deparamos com o fato de que na psicologia analítica não se fala em “mecanismos de defesas do Ego”.  Apesar disso, é muito comum vermos junguianos utilizando termos relacionados aos mecanismos de defesas freudianos. Acredito ser importante refletirmos sobre a dinâmica da psique associada a esses processos defensivos.

Para tanto, gostaria de iniciar essa discussão partindo de dois pontos principais as concepções de Ego e as concepções acerca de defesa, para então podermos pensar a possibilidade de as defesas no contexto junguiano.

O “Ego”

O primeiro aspecto para pensarmos na possibilidade de “mecanismos de defesa do Ego” no contexto junguiano é pensarmos o Ego. Apesar de compartilharmos do mesmo termo latino (ego) as concepções inerentes aos “mecanismos de defesa” tem origem no universo conceitual da  psicanálise, que não combina com a perspectiva junguiana.

Desde modo, devemos rever alguns aspectos fundamentais da compreensão junguiana de Ego, assim, devemos lembrar que o Ego ou o “eu”

 é o cerne e o centro da consciência. É considerado por Jung como um complexo: enquanto parte da psique, condensa conteúdos carregados de energia, tem um núcleo arquetípico, tem autonomia, é compulsório, é uma psique parcial fechada, com seus próprios pensamentos, afeto, memória. No entanto o complexo do eu se diferencia dos outros em vários aspectos. Experimentado como identidade, o eu é o único complexo de representações conscientes. Tem função mediadora entre o indivíduo e o mundo, entre a consciente e o inconsciente, assim como entre o plano individual e coletivo. Por isso, o eu é o porta-voz da psique enquanto articulador da sua percepção do mundo externo e interno. Isto significa que ele pode fazer tanto o papel de mera ponte para as projeções dos outros complexos, identificando-se com eles, como o de diferenciação dos demais complexos, de reconhecimento das projeções e identificações. (PERRONE, 2008,  p.107)

É de suma importância compreendermos que o Ego no contexto junguiano é um complexo, pois este é um dado padrão de organização psíquica que atualizava e humanizava os arquétipos na experiência pessoal. Vale a pena lembrar que os complexos possuem um núcleo arquetípico e, entorno destes, as experiências pessoais são organizadas configurando nossa história pessoal. O Ego tem como núcleo arquetípico o Self, o coloca em uma posição diferenciada e especial em relação ao Self, como percebemos em von Franz, […] o Ego é como o olho do Si-mesmo, somente ele é capaz de ver e vivenciar como o Si-mesmo nasceu” (FRANZ, 1999, p.232) ou Solomon que afirma “o Ego é o “de-integrado” mais importante do Si-mesmo. (SOLOMON, 2002, p. 139-40) – devemos considerar que o Ego é compreendido como o centro da consciência e que pode sofrer influência de outros complexos. É obvia a importância do Ego, como complexo de identidade e/ou referência do indivíduo. Na ótica junguiana a relação com o Self, quando saudável, possibilita o desenvolvimento, organização e estruturação do Ego (através dos símbolos).

Deste modo, o desafio da individuação é o Ego se abrir a uma relação adequada com o Self. É claro que essa relação não deve ser idealizada, pois, o Ego ao longo seu desenvolvimento, o Ego em sua função de intermediar as relações do mundo interior e exterior, pode se identificar com alguns conteúdos relacionados com seu mundo interior (complexos) ou com elementos vindos da realidade exterior (identificação com a persona, que levaria a uma unilateralidade da atitude do Ego), que gerariam uma desarmonia na dinâmica psíquica, que seria compensada pelo inconsciente – podendo gerar ansiedade e sofrimento ao Ego. Contudo, a tendência natural da psique é se reorganizar ou de se autorregular que, dentro das condições adequadas trariam, naturalmente, a segurança e estruturação do Ego.

Essa concepção junguiana, que visa compreender a psique desde seus aspectos saudáveis e compreendo que o adoecimento não é a regra, mas, o funcionamento anômalo, é muito distante das concepções freudianas, que compreende que

O Ego é a sede real da ansiedade. Ameaçado por perigos oriundos de três direções, ele desenvolve o reflexo de fuga retirando sua própria catexia da percepção ameaçadora ou do processo semelhantemente considerado no id, e emitindo-a como ansiedade. Essa reação primitiva é posteriormente substituída pela efetivação de catexias protetoras (o mecanismo das fobias). O que o Ego teme do perigo externo e do libidinal não pode ser especificado; sabemos que o medo é de ser esmagado ou aniquilado, mas ele não pode ser analiticamente compreendido. O Ego está simplesmente obedecendo ao aviso do princípio de prazer. Por outro lado, podemos dizer o que se acha escondido por trás do pavor que o Ego tem do superEgo, o medo da consciência. (FREUD, 2006, p. 69-70)

Na dinâmica proposta por Freud, o Ego é ameaçado continuamente pelo Id, SuperEgo e pelo meio externo. De forma geral, a concepção psicanalítica fundamental é de que o ego é a instância psíquica que “funciona como mediadora, integradora e harmonizadora entre as pulsões do Id, as exigências e ameaças do superego e as demandas da realidade exterior”(ZIMMERMAN,1999, p.84).  Assim, o universo conceitual freudiano cuja relação baseada nessas três instâncias Id-Ego-Supergo, privilegia a patologia ou sofrimento psíquico, o único ponto em “comum” efetivamente entre essas duas concepções de Ego é o termo. Assim, a simples “transposição téorica” dos “mecanismos de defesas do Ego” não pode ocorrer em virtude das diferenças de pressupostos acerca da natureza e dinâmica do Ego.

Gostaria de ressaltar, que as concepções de Jung acerca do Ego não são isentas de críticas no meio junguiano. Samuels(1989) elenca uma série de questionamentos que foram realizados sobre o modelo de Jung, como o fato dele não ser claro em seus apontamentos sobre o Ego, deixando de lado elementos como a parte inconscientes do Ego e mesmo faz uma omissão significativa a respeito processos de defesa da consciência e do Ego. Essas críticas e outras nos mostra como é necessário ampliar reflexões acerca dos processos da consciência e o Ego.

Defesas do Ego: Duas visões psicanalíticas

Acima indicamos que as diferenças na compreensão do Ego nos impõe uma cautela quando lidamos com essas aproximações teóricas. A princípio, quando falamos em “mecanismos defesas” relacionadas ao psiquismo quase que invariavelmente nos referimos a construção de Freud, que já se referia as defesas em 1896. Durante um período, substituiu a noção de defesa pelo recalque, mas, a partir do texto Inibições, Sintomas e Angustias (1927), Freud compreendeu que o recalque era uma forma de defesa, voltado assim a sua percepção inicial e reabilitando o conceito de defesa que foi definitivamente incorporado à psicanálise. Segundo Freud,

Os mecanismos de defesa servem ao propósito de manter afastados os perigos. Não se pode discutir que são bem-sucedidos nisso, e é de duvidar que o ego pudesse passar inteiramente sem esses mecanismos durante seu desenvolvimento. Mas é certo também que eles próprios podem transformar-se em perigos. Às vezes, se vê que o ego pagou um preço alto demais pelos serviços que eles lhe prestam. O dispêndio dinâmico necessário para mantê-los, e as restrições do ego que quase invariavelmente acarretam, mostram ser um pesado ônus sobre a economia psíquica. Ademais, esses mecanismos não são abandonados após terem assistido o ego durante os anos difíceis de seu desenvolvimento. Nenhum indivíduo, naturalmente, faz uso de todos os mecanismos de defesa possíveis. Cada pessoa não utiliza mais do que uma seleção deles, mas estes se fixam em seu ego.” (FREUD, 2006b. P.253-4)

A concepção acima é importante por ser retirado do texto “Analise Terminável e Interminável” (1937) ou seja, representa uma concepção final construção teórica de Freud. Ele compreendia os mecanismos de defesa possuíam um caráter ambivalente pois, se por um lado, eles afastavam os “perigos” por outro, passam a fazer parte do ego gerando prejuízos ao mesmo. Essa perpectiva da psicanalise centra-se sobretudo no aspecto psíquico ou mental.

Acredito que seja importante considerar outra referencia psicanalítica. Wilhelm Reich foi um psicanalista que compreendeu estudou e observou as entre psique e corpo, desenvolvendo uma abordagem propriamente corporal. Reich, como Freud, compreendeu que haveria modificação defensiva da parte do Ego contra o mundo exterior e interior, chamada de “caráter”, contudo, para Reich o  caráter  teria sua expressão própria na couraça muscular de caráter, ou seja, seria expresso de forma somática. Segundo Reich,

A couraça de caráter e´ a expressão concreta na defesa narcísica cronicamente implantada na estrutura psíquica. Além das resistências conhecidas, que são mobilizadas contra cada nova peça do material inconsciente, há um fator de resistência constantemente enraizado no inconsciente, que não pertence ao conteúdo, mas à forma. Como se origina no caráter, chamamos de “resistência de caráter” a esse fator de resistência constante. (…)

A resistência de caráter não se expressa em termos de conteúdo, mas de forma: o comportamento típico, o modo de falar, andar, gesticular, e os hábitos característicos (como o indivíduo sorri ou escarnece, se fala de maneira coerente ou incoerente, quanto é polido e o quanto é agressivo).

O indício da resistência de caráter não está naquilo que o paciente diz e faz, mas no modo como ele fala e age. Também não no que ele revela em sonhos, mas no modo como ele censura, distorce, condensa, etc…. (REICH, 1989, p. 59 – Grifos do autor)

Deve-se notar, que Reich foi além da perpectiva de Freud, chegando a negar pressupostos como a pulsão de morte, além de compreender que em grande parte as relações sociais de poder eram determinantes no processo neurótico, pois, impediam a satisfação das pulsões sexuais. Assim, os dinamismos de defesa se estenderiam desde estratégias inconscientes até um modo de organização tanto física quanto do modo de ser.

Essas duas concepções psicanalíticas (apesar da psicologia corporal de Reich ter tomado um caminho de desenvolvimento particular, quando ele desenvolve suas idéias sobre caráter ele ainda era membro da IPA) são importantes como referência básica da compreensão acerca de alguns aspectos da dimensão dos mecanismos de defesas de ego.

 

Funções autorreguladoras: Pensando as defesas no contexto Junguiano

 Como vimos, as concepções acerca de Ego e de mecanismos de defesa do ego na ótica psicanalítica são incompatíveis com os pressupostos da psicologia junguiana. É um fato que Jung utiliza alguns termos similares a psicanálise, contudo, aplicando ao termo uma compreensão própria advinda de sua própria experiência.  Num questionário enviado a Jung sobre sua relação com a teoria psicanalítica freudiana em 1953, Jung comenta que

Os fatos da repressão, substituição, simbolismo e amnésia sistemática que FREUD descreve coincidem com os resultados do meu experimento de associação (1902-1904). Mais tarde descobri fenômenos semelhantes na esquizofrenia. Naqueles anos aceitei todos os pontos de vista de FREUD, mas, não pude aceitar, por mais boa vontade que tivesse, a teoria sexual das neuroses e, muito menos ainda das psicoses.” (JUNG, 2000, p. 435-6)

Em seus estudos Jung encontrou fenômenos similares aos de Freud que, se caracterizam por processos psíquicos que visavam evitar que os conteúdos inconscientes prejudicassem atividade consciência.

No cenário junguiano, encontrei poucos autores que utilizaram o termo “defesa”, um desses autores foi Carlos Byington(2006) que inclusive, nos chama atenção para o fato de que o conceito de defesa da psicanálise foi empregado generalizando o tanto desenvolvimento normal e o patológico, assim, dentro de sua construção teórica os mecanismos de defesa são funções estruturantes da consciência, somente quando fixadas ou no contexto em que se manifestam é que poder-se-ia dizer se seriam defensivas ou defesas.

A Byington nos dá uma direção importante para pensarmos as dinâmicas defensivas como “funções psíquicas”. Jung compreendia que uma função psicológica “certa forma psíquica de atividade que, em princípio, permanece idêntica sob condições diversas” (JUNG, 1991, p.412) Estamos mais familiarizados com o termo “função psíquica” relacionada com a tipologia psicológica, e as quarto funções associadas aos tipos psicológicos são apenas as que Jung distinguiu e trabalhou. Acredito que seja fundamental reconhecermos que existem outras funções que operam na consciência independente do controle do voluntário do Ego.

A relação do Ego com os conteúdos inconscientes é ambivalente, ora auxiliam a dinâmica da consciência, ora invadem prejudicando as suas atividades normais, segundo Jolande Jacobi, “há quatro possibilidades de comportamento em face ao complexo: a total inconsciência de sua existência, a identificação, a projeção e a confrontação” (JACOBI, 1986, p. 26). Devemos notar que das quatro alternativas três caracterizam exatamente formas de “defensivas” que operam inconscientemente. Poderíamos também elencar a unilateralidade, como uma dinâmica relacionada a defesa do Ego, inicialmente ela não se caracteriza por uma atividade do ego, mas, como uma tendência da consciência em estabelecer uma relação com o meio exterior (incialmente pelos órgãos do sentido, posteriormente pela aprendizagem e interpretação) que possibilitam o desenvolvimento do Ego, contudo, com o desenvolvimento do Ego, a unilateralidade passa a ser uma de defesa voluntaria do Ego.

 Acerca da relação entre a consciência e o inconsciente Jung afirma

1) os conteúdos do inconsciente possuem um valor liminar, de sorte que todos os elementos por demais débeis permanecem no inconsciente: 2) a consciência, devido a suas funções dirigidas, exerce uma inibição (que Freud chama de censura) sobre todo o material incompatível, em conseqüência do que, este material incompatível mergulha no inconsciente; 3) a consciência é um processo momentâneo de adaptação, ao passo que o inconsciente contém não só todo o material esquecido do passado individual, mas todos os traços funcionais herdados que constituem a estrutura do espírito humano e 4) o inconsciente contém todas as combinações da fantasia que ainda não ultrapassaram a intensidade liminar e, com o correr do tempo e em circunstâncias favoráveis, entrarão no campo luminoso da consciência.

(…)

Também esta qualidade é frequentemente prejudicada nos pacientes neuróticos que se distinguem dos indivíduos normais pelo fato de que o limiar da consciência é mais facilmente deslocável, ou, em outros termos: a parede divisória situada entre a consciência e o inconsciente é muito mais permeável. O psicótico, por outro lado, se acha inteiramente sob o influxo direto do inconsciente. (JUNG, 2000, p.1)

Dessa forma, todo conteúdo que atinge a consciência passa primeiramente pelo inconsciente. Isto é, antes que seja reconhecido pela consciência este conteúdo foi considerado pelo inconsciente, este é um motivo importante pelo qual os complexos são ativados antes mesmo que o ego se dê conta desses estímulos. Acima Jung citou a maleabilidade do limiar da consciência nos estados neuróticos. Devemos ressaltar, que essa mesma maleabilidade é observada em condições especiais, como no caso da a hipnose e imaginação ativa. Nesses casos, há uma dissociação dirigida, onde consciência e Ego estão preservadas numa situação de equilíbrio e segurança (presença/transferência com o analista, o ambiente/temenos, a voz e as técnicas utilizadas) propiciam que processos dolorosos ao ego sejam trabalhados e resolvidos sem o controle dirigido do ego. Isso ocorre pela atividade autorreguladora do inconsciente visa que a superação de conflito com ou sem a participação do ego. Essas atividades autorreguladoras atuam incessantemente em níveis inconscientes.

A atividade autorreguladora atua mantendo a homeostase psíquica através de elaboração simbólica – por meio de sonhos, sintomas, atos falhos etc… – e garantindo a estabilidade e funcionamento saudável da consciência, atrav9és as funções autorreguladoras da consciência que atuam como um filtro inconsciente possibilitando um funcionamento normal do ego e da consciência.

Chamo de funções autorreguladoras da consciência as funções psíquicas que visam manter o equilíbrio, estabilidade, organização da consciência e do Ego afastando tanto conteúdos de pouca expressão no inconsciente – favorecendo a atividade dirigida da consciência – quanto os conteúdos que poderiam oferecer riscos ao funcionamento ou a integridade do ego.  Assim, no caso de patologia, essas funções, visando manter a integridade do ego, assumem um caráter defensivo afastando possíveis perigos (internos e externos), podendo chegar, em casos mais graves, a serem percebidas pelo Ego como intrusas, uma vez que interferem no curso das atividades da consciência.

Essas funções “não pertencem” ao Ego ou mesmo não são parte do Ego, essas funções estão diretamente associadas ao dinamismo da consciência, embora, sua operação ocorra geralmente de forma inconsciente. As funções autorregulatórias têm sua origem nos processos de centroversão ou, na verdade, são uma expressão da centroversão, descrita por Neumann.

Damos o nome de centroversão à função da totalidade, que na primeira metade da vida leva, entre outras coisas, à formação de um centro de consciência, posição esta que gradualmente vai sendo assumida pelo complexo do ego. Com a formação deste centro, o Self estabelece um “derivado” de si próprio, uma “autoridade”, o ego, cujo papel é representar os interesses da totalidade, defendendo-os das demandas particulares do mundo interior e do meio ambiente. (…) Durante a primeira metade da vida predomina a psicologia do ego e da consciência, e a personalidade é centrada no ego e na consciência. No processo de individuação da segunda metade da vida, ocorre um deslocamento de foco do ego para o Self. Todos esses processos, assim como a ampliação e a síntese da consciência e a integração da personalidade, ocorrem sob o comando da centroversão (NEUMANN, 1992,p.10-11)

Ao longo de todo o processo de desenvolvimento, a centroversão percebida como funções autorregulatórias, como uma expressão do self, possibilitando a formação de símbolos manutenção energética da consciência. As funções autorregulatórias têm esse aspecto em comum com a função transcendente, pois,  ambas tem como produto a formação de símbolos.

Apesar do ambas produzirem símbolos, não devemos confundi-las. pois, como Jung explica a “função transcendente. É chamada transcendente, porque torna possível organicamente a passagem de uma atitude para outra, sem perda do inconsciente” (JUNG, 2000b, p.6 ) no caso das funções autorregulatórias em seu aspecto defensivo há frequentemente uma perda por parte da consciência, caracterizada pelo sintoma neurótico. Talvez poderíamos fazer uma analogia com as operações alquímicas, no caso, o símbolo formado pela função autorregulatória seria como uma coniuntio inferior , que são uniões “impuras” ou precipitadas que devem novamente separadas e elaboradas e a função transcendente como a coniuntio superior, com a constelação de um símbolo unificador.

Compreender que geralmente as funções homeostáticas formam símbolos indica a razão pela qual os junguianos compreendem as formações do inconsciente como símbolos e trabalhando com os mesmos de forma teleológica, isto é, visando compreender o “para que” do símbolo – sem se ater exaustiamente aos processos psíquicos que levaram a formação deste símbolo.

Autorregulação ou defesa?

Quando contrapomos autorregulação e defesa não estamos apenas fazendo um jogo de linguagem, mas, colocando em cena toda uma perspectiva epistemológica que separa o paradigma psicanalítico do paradigma junguiano que é a perspectiva teleológica e a ênfase na saúde.

Para Jung era fundamental compreender a psique a partir de sua perspectiva teleológica ou finalista. Isso significa dizer que quanto aos fenômenos psíquicos, somente podemos fazer inferências acerca de sua forma final ou manifesta, nunca sobre sua causa original. Desta forma, quando nos deparamos com os fenômenos de autorregulação psíquica podemos percebe-los em seu funcionamento saudável, normal e discreto que atua subsidiando ou favorecendo o funcionamento ótimo da consciência seja suprimindo elementos da percepção como sons, a percepção visual de outros objetos ou mesmo a sensação corpórea, impedindo que lembranças, pensamentos ou conteúdo dos complexos (afetos, emoções) possam interferir na atividade dirigida da consciência e do Ego.  Essa atividade é comumente observada nos fenômenos hipnóticos, assim como nos sonhos e outras formações compensadoras do inconsciente. As funções autorreguladoras são fundamentais na economia psíquica, possibilitando que o Ego tenha energia suficiente para em funcionamento e desenvolvimento pleno.

Por outro lado, temos também o funcionamento defensivo, isto é, quando a função autorregulatória deixa sua atividade de complementar e subsidiar a consciência e o Ego, e passa a defender o Ego. A postura ou posição defensiva somente é necessária quando algo oferece um potencial risco a integridade do Ego. Por isso, algumas atividades defensivas no dia a dia como negação, projeção, deslocamento, substituição dentre outras, não oferecem um prejuízo a continuidade da atividade da consciência. Contudo, em casos a posição função autorregulatória defensiva precisa se manifestar comprometendo a atividade do Ego e da consciência. Em algumas situações essas formas defensivas podem se enrijecer ao longo do tempo – seja no corpo, nas ações, nas formas, no pensamento. Limitando e restringindo muitas vezes a flexibilidade do Ego, atuando tal qual um gesso protege e limita os movimentos de um membro fraturado. Em alguns casos, a postura defensiva da função autorregulatória se torna uma condição para a estabilidade da consciência e do ego fragilizado, nesses casos, pouco se pode fazer em termos de psicoterapia. Mas, dentro das condições do indivíduo, a esta função autorregulatória consegue atingir seu objetivo.

Em outras situações mais complexas, como nos transtornos psiquiátricos, a função autorregulatória não apenas protege, mas, inflige um prejuízo ou sofrimento ao Ego. Nesses casos, as funções defensivas são “bem sucedidas” por afastarem o fator que oferece risco ou perigo ao ego, como ocorre os transtornos somatoformes, alguns transtornos dissociativos, transtorno obsessivo-compulsivo, em outros transtornos como ansiedade generalizada e síndrome do pânico, vemos que as funções defensivas obtém pouco sucesso, pois, a experiência vivida indica um colapso dos processos defensivos, visto que o ego experimento essas vivenciadas como risco iminente morte. O mesmo pode ser pensado em caso de algumas fobias, e outros transtornos, como os transtornos psicóticos e esquizofrenia, onde o ego fragilizado é invadido pelo inconsciente.

Outro ponto citado anteriormente, afirmamos que no paradigma junguiano a ênfase sempre recai sobre os nos processos de produção e manutenção da vida ou saúde – mesmo que isso se dê pela dor ou adoecimento – isso é fundamental para que compreendamos psique como um sistema autorregulador que visa sempre um equilíbrio dinâmico das atividades da psique.  Acima apontamos que em seu caráter final, as funções autorregulatórias se manifestam num aspecto saudável, positivo ou sob um aspecto patológico, defensivo.

Na grande maioria das vezes, o que chega ao consultório do psicólogo são os casos patológicos, defensivos, essa é uma realidade que acontece em nossos dias e acontecia nos dias de Jung. Este, por sua vez, fez uma escolha de perspectiva, ele escolheu “entender as pessoas a partir de sua saúde” (Jung, 1989,p.325) compreendendo que os processos patológicos representam alterações nos processos normais. Em nosso caso, a defesa é uma manifestação exacerbada da função autorregulatória e não uma prisão na qual o ego se vê protegidamente condenado.

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