Amazonas Contemporâneas

 

Por Indianara Pereira de Melo

É do conhecimento comum que a história se repete em ciclos. Particularmente, prefiro a imagem da espiral. Para que possamos compreender quais os passos a serem dados adiante, ou mesmo traçar algum prognóstico de alguma situação, é necessário que olhemos na história pregressa o que nos trouxe até este ponto. Quando se trata sobre o papel da mulher no mundo contemporâneo, é perceptível que muita coisa mudou desde a queima de sutiãs, passando pelo grito pelo direito ao voto e o advento da pílula anticoncepcional, até chegarmos no que está sendo popularmente conhecido e denotado como uma espécie de movimento feminazi. Porém, ao que devemos essa mudança extrema de comportamento e essas evoluções na psique feminina?

Por mais que anos e séculos tenham se passado, a psique humana não mudou muito desde a aurora de seus tempos. E isso quer dizer que continuamos sendo regidos e achando que regemos nosso comportamento primordial, por padrões de comportamentos internos conhecidos na Psicologia Analítica como arquétipos. Jung (2012) define os arquétipos como formas primordiais de transmissão de conteúdos que fazem parte da coletividade, ou seja, de todo o processo humano. São essespadrões de comportamento que são transmitidos ao longo do tempo e sobrevivem e se renovam com o passar das gerações e alterações da forma como se expressam. Pode parecer antagônico, mas não o é. Por exemplo, existem formas diferentes de se encarar aspectos de cunho Paterno, suas representações, sua imagética, o que se espera de um pai e etc. Porém, está intrínseca a ideia básica de que em todo lugar onde há um ser humano, há a experiência em torno da paternidade e isso é basicamente a definição na prática do que é arquétipo; experiências humanas que foram sendo repetidas ao longo das gerações e que geraram uma marca, um typos na psique humana e foram carregadas e passadas adiante ao longo dos tempos.  O arquétipo é em si uma grande potencialidade, porém nada mais é do que isso: potencialidade.

Dentro de toda representação psíquica Junguiana, os arquétipos localizam-se no Inconsciente Coletivo. Este último é o portador misterioso e paradoxal de toda problemática e história psíquica humana. E por estar aí alocado é que a forma que o arquétipo tem para ser notado é através da emersão à consciência: pelas representações mitológicas, contos de fadas e das manifestações culturais de um povo. Esse dinamismo trata da emersão dessa potencialidade traduzida na forma dessas representações culturais, culminando na produção do que chamamos deSímbolo. Este último nada mais é do que a possibilidade real, encarnada numa representação, numa imagem de qualquer natureza, da união dos opostos na psique.

Para a Psicologia Analítica, o símbolo faz parte do funcionamento compensatório e autorregulador da psique e seu dinamismo envolve a junção dos polos opostos nesta mesma psique, a compreender o Inconsciente e o Consciente. Como sua própria etimologia traz, símbolo significa unir, conjugar (KAST,2001); é o casamento perfeito entre potencialidades internas e externas, afim de colocar novamente a energia psíquica para fluir. Como se através dos arquétipos, excitados por alguma ação externa ou interna, movimentassem-se em direção à consciência e, ao chegarem nela, tomassem uma forma e carregassem uma grande carga de energia psíquica, que é desprendida no momento em que tocam à consciência e emergem como uma representação qualquer. Assim, a própria fabricação de símbolos e sua existência é necessária à saúde psíquica humana.4

Neste ponto, valho-me do mito de Hipólita, tida como Rainha das Amazonas, que fora derrotada por Héracles no seu nono trabalho. De acordo com Brandão (2012) tal tarefa lhe foi dada a pedido de Admeta, sacerdotisa de Hera, cobiçosa pelo cinto da rainha das amazonas. Este cinto havia sido um presente do deus Ares, deus das querelas aguerridas, para Hipólita, tida como sua filha, e figurava como um símbolo de poder e reinado por direito sobre as amazonas. O herói parte acompanhado de outros heróis gregos, Teseu inclusive, para a terra das amazonas e lá chegando consegue conversar com a
rainha e obter-lhe a promessa do cinto. Entretanto, Hera, disfarçada de uma amazona, incita a batalha entre os gregos e as guerreiras, de forma que Héracles, achando que havia sido enganado pela rainha Hipólita, rapta suas irmãs e mata-a, pedindo à nova rainha Melanipe como resgate pelas mulheres raptadas o cinturão em questão, objeto que é cedido em troca das guerreiras.

Vê-se nos âmbitos externos a acirrada querela entre homens e mulheres, de modo que as mulheres hoje mostram-se mais combativas, chegando ao ponto da misandria. Mesmo aquelas que enxergam as demasiadas intervenções de suas irmãs de luta, são obrigadas a calar-se, pois nenhuma mulher pode calar a boca de uma outra mulher.Não parece haver mais um ponto comum de acordo ou de possível diálogo, tal qual houve entre os heróis gregos e as amazonas inicialmente. Parece haver um espaço de não espaço, uma realidade líquida como defende Bauman, onde discursos são expelidos, vomitados e pouco diálogo real acontece. Invoco aqui o mito das amazonas e de sua rainha para vivificar e apontar que novamente a história parece estar se repetindo, pelo menos a nível psicológico.

De acordo com Gheerbrante & Chevalier (2009), as amazonas eram tidas como mulheres guerreiras que se auto governavam e que não permitiam a presença de homens em suas tribos. Alguns poetas antigos dizem ainda que eram tão habilidosas nas artes da guerra que eram favoritas do deus Ares, tendo este deus tido com uma de suas rainhas quatro filhas: Hipólita, Melanipe, Pentesileia e Antíope. Posteriormente, Hipólita viria a governar sua tribo e, após sua morte e rapto de suas irmãs, esse título e fardo passa a sua irmã Melanipe. Os autores ainda denotam que as amazonas eram conhecidas por cultuar em especial Ártemis, dada a semelhança de seu culto e iconografia aos seus estilos de vida. Diz-se que chegavam a extirpar um dos seios para terem melhor mobilidade com a lança e com o arco, fato que é parcialmente confirmado pela iconografia existente até os dias de hoje na arte.3

Da mesma forma que as amazonas de outrora, esse séquito militante do movimento feminista parece estar muito arraigado na vivência areica e artemísia de sua psique; expurgam-se os homens e qualquer coisa que lembre o masculino e entram-se em disputas acirradas, onde muitas vezes falta a lógica e a estratégia, aspecto atenéico tão comum. Nessa emersão tão profunda, nessa quase possessão arquetípica, esquecem-se que muitas vezes é necessário fazer uma aliança para evitar uma maior tragédia e, tal como Hera disfarçada de amazona, incita as guerreiras para a batalha contra os heróis gregos. Parece haver toda uma frustração, uma angústia e raiva por todos os anos estando longe da igualdade com o masculino e que está sendo desencadeada na contemporaneidade contra esse mesmo masculino. Esse movimento, esse brado pelo combate é, na verdade, uma corrida a largos galopes para o extremo oposto da subserviência e da submissão a qual foram obrigadas ao longo dos séculos.

Ao tomarmos a mitologia como um grande exemplo de representação arquetípica, ou seja, simbólica,  é possível perceber um movimento inverso, um correr ao contrário, das vivências e experiências do que é o feminino contemporâneo em relação a toda uma construção histórica predominantemente patriarcal. Esse movimento psíquico é conhecido como enantiodromia. Jung toma emprestado o termo grego para referir-se a esse movimento de correr para o extremo oposto antes de conseguir achar o balanço correto e retomar o equilíbrio psíquico adequado; que é dinâmico e não estático,

Quanto mais o nível da carga energética, tanto mais atitude repressiva assume um caráter fanático e, por conseguinte tanto mais se aproxima da conversão em seu oposto, isto é, da chamada enantiodromia. Quanto maior for a carga da consciência coletiva, tanto mais o eu perde sua consciência prática. (Jung, 2012, p. 169)

2Ocasionando assim uma certa falta de reflexividade e o nivelamento pelocomportamento do coletivo. Ao incitar a guerra entre gregos e amazonas, estas últimas acabam por perder, não por serem fracas ou menores do que os heróis gregos, mas porque recusaram-se a reconhecer sua incompletude e fazer uma aliança sadia e dialética e tornarem-se, de certa forma, mais completas.

Ao olharmos um pouco mais de perto o mito, vemos que é um dos 12 trabalhos outorgados à Héracles a obtenção de tal cinto. Alocado como o Nono trabalho, esse parece ser mais um que demandaria muitos recursos, negociação e, talvez, luta. Porém o que acontece, a princípio pelo menos, é o contrário. Héracles consegue a promessa da rainha que obterá o cinto. Ao observarmos a representação do número nove em algumas culturas, chegamos a alguns pontos interessantes. Tal número parece estar ligado à perfeição e à completude. É o número correto da gestação humana, é o número das Musas, filhas de Zeus, e detentoras de toda arte e eloquência e forma de comunicação humana; é também o número de ciclos celestiais e infernais para algumas culturas, tais como a asteca e partes da cultura chinesa (CHEVALIER & GHEEBRANT, 2009). Para além disso, o número nove, apesar de ser considerado um número masculino, por ser um número ímpar, é também considerado um número feminino, pois associa-se facilmente à ideia da divindade feminina tríplice, posto que nove é 3×3, ou seja, é passivo e agressivo em si. Além disso, o número 9 encerra em si o conceito de completude e reinício, pois após ele há o número zero e assim é um final e um recomeço de ciclos.

O número nove é também reconhecido como um número que induz à iniciação; os Mistérios de Elêusis, mistérios que celebravam o feminino, a morte e o renascimento, iniciavam seus candidatos num período de nove dias; os romanos celebravam uma festa de purificação para os meninos quando estes completavam nove dias de nascido. Em suma, o número nove “Simboliza a própria jornada do iniciado rumo à autocompreensão (…). O iniciado também precisa, no fim, voltar a si mesmo (Nichols, 2007, p. 179), de  maneira semelhante à mensagem transmitida pelo nono arcano do tarô ‘O eremita’, que induz a uma jornada de busca interna, afim de religar novamente as pontas que estão soltas na psique. É possível dizer então que o nono trabalho encerra em si uma busca pela completude, pela conjunção e casamento das forças masculinas e femininas internas que são reforçadas externamente pela imagética do cinturão portado por Hipólita.

Como já dito, o cinturão fora um presente do deus Ares à rainha das amazonas, sua filha Hipólita. A imagem do cinturão perpassa diversas culturas e em grande parte delas possui um significado análogo ao do anel: uma aliança entre o portador do cinto e aquele que o ofertou. O cinturão denota um status, é também um símbolo de poder visível aos outros, uma marca indelével e amplamente visível de um posto ocupado. É em si mesmo uma outra grande representação do poder. Em si mesmo, o cinto possui duas características: o ligar e o religar.

Ao religar (atar, ligar bem), o cinto tranquiliza, conforta, dá força e poder; ao ligar (apertar, prender), ele leva, em troca à submissão, à dependência e, portanto, à restrição – escolhida ou imposta – da liberdade. (Chevalier & Gheerbrant, 2009, p. 245)1

Ao deter tais características, a representação do cinturão expressa, antes de tudo, um símbolo para um relacionamento, um símbolo da aliança, um comum acordo existente; a materialização de um compromisso. Quando Héracles obtém de Hipólita a promessa do cinto, obtém dela, na verdade, uma promessa de aliança, ao passo que ela abdica de bom grado de seu posicionamento enquanto amazona, em prol dessa aliança com o masculino. Ao abdicar de seu cinturão, Hipólita promove e estimula a conjunção pacífica com o masculino, ela possibilita a coniunctio, procurando evitar o conflito que parecia ser certo. Todavia Hera frustra os planos de ambos e acaba por incitar o conflito. Por que a deusa do casamento e da feminilidade, soberana do Olimpo, atrapalharia uma aliança digna e justa, feita de comum acordo?

Além de toda irritação e mágoa por Héracles ser a materialização do rompimento de seus votos, pois este é fruto de uma união ilícita, há também o desejo de que haja a morte dessa mulher viril, masculinizada ao excesso, para possibilitar uma união entre o intrinsecamente feminino e o intrinsecamente masculino (BRANDÃO, 1991). Então, numa tentativa de possibilitar uma união lícita, através da morte desse excesso do masculino em Hipólita, Hera acaba por estragar os próprios planos quando se deixa cegar pela raiva e frustração que Héracles representa frente à sua união lícita com Zeus. Assim, é possível traçar um paralelo com a situação contemporânea dentro da exarcebação do movimento feminista, culminando no séquito das feminazi.

Da mesma forma que as amazonas, numa tentativa de exaltar em excesso o feminino, essa parcela extremista do movimento feminista acaba criando uma caricatura de um feminino viril. Na tentativa de fazer com que tudo gire ao redor do feminino e tenha o feminino enquanto alpha e ômega, tais sujeitos acabam assumindo uma postura extremamente briguenta e masculinizada, indo para o extremo oposto da subserviência; quase uma caricatura de um moleque macho (conforme é dito jocosamente acerca das meninas que brincam como os meninos, no Nordeste do Brasil). Criam uma aliança com o aspecto aguerrido irracional areico e, assim como Hipólita uma vez, usam de bom grado o cinturão concedido pelo deus. Entretanto, não conseguem trabalhar e reconhecer que para haver uma melhora de situação e uma evolução psíquica/social/cultural é preciso reconhecer a importância do outro, do masculino real e abdicar dessa masculinização, desse excesso de virilidade em prol de uma real conjunção, de uma real coniunctio, e acabam tomadas por toda raiva, frustração e desejo de vingança contra o masculino.

Mitos e contos não são apenas histórias, são expressões travestidas de cultura, de uma realidade psíquica de um povo; elas detêm em si as dicas do que está acontecendo, sempre aconteceu e como acontecerá. Quando elas conseguem tocar o sujeito, elas promovem uma renovação e indicam uma possível resolução a um problema existente e, muitas vezes, um possível prognóstico. Se olharmos com atenção, o movimento psíquico é cíclico e espiral. Então, tal como o mito, talvez essa guerra toda seja necessária para expurgar os fantasmas do ressentimento contra opatriarcado opressor. Porém, é necessário que enxerguemos como toda essa história se desenvolveu até chegar ao fim; foi necessário a morte da rainha e o rapto de duas princesas amazonas antes que uma terceira pudesse ceder novamente de bom grado o cinturão ao herói. Quantas princesas, quantas potencialidades mais teremos que perder para perceber que provavelmente o mais sensato é compartilhar e conjugar? Talvez, o mais sensato mesmo seja abdicar do desejo cego e irracional de poder e compartilhar os aspectos necessários à evolução de ambos os gêneros, em direção à completude e uma melhor convivência. 

Referências Bibliográficas

CHEVALIER, J. & GHEERBRANT, A. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. 24ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009;

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega, vol. III. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012;

____________ Dicionário mítico-etimológico de mitologia grega. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991;

JUNG, C. G. A natureza da psique. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012;

_________Os Arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012;

KAST, V. Sonhos: A linguagem enigmática do inconsciente. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010;

NICHOLS, S. Jung e o Tarô: uma jornada Arquetípica. São Paulo: Cultrix, 2007.

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Indianara Pereida de Melo (CRP 16/4364)

Psicóloga Clínica de Orientação Junguiana, Especialista Teoria Junguiana pela Clínica Psiquê/Faculdade Hélio Rocha (BA). Atuou ministrando aulas enquanto especialista na teoria Junguiana. Tem experiência na área da Psicologia Social e Dependência Química.Realiza atendimento a crianças, adolescentes e adultos e é facilitadora do Grupo de Estudos – Kairós e da Vivência Terapêutica – “Roda das Deusas”.

Contato: (27) 9.81325362/9.97802991. /e-mail: indianarapmelo@psicologiaanalitica.com

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