“A Bela e a Fera”, “O Barba Azul” e a violência contra a mulher – algumas reflexões

Por Fabrício Moraes 

Os mitos e contos de fadas são uma rica fonte de conhecimento, inspiração e de trabalho para os psicólogos junguianos. Podemos compreendê-los como metáforas de nossa realidade, de nossa condição humana, pois eles espelham os arquétipos e, assim, falam justamente do aspecto universal que nos constituem como espécie.

Assim, os contos de fadas falam de nós, de quem somos tanto em nossa individualidade quanto em nossas relações sociais. Joseph Campbell nos chamava a atenção que os mitos e contos de fadas possuem funções, dentre as quais, está a função pedagógica, ou seja, os mitos e contos de fadas nos ensinam algo fundamental sobre nós mesmos, tão fundamental que foram fixados na cultura na forma de narrativas.

Frequentemente, no meio junguiano, pensamos os contos de fadas a partir de nossos objetos internos, nossas imagens internas como a anima, persona, sombra etc…  Contudo, essa não é a única forma de compreender a relação dos contos de fadas em nosso cotidiano. Pois, os contos fornecem metáforas para compreender de nossas relações sociais, nossa prática clínica, permitindo uma leitura da realidade.

Nesse sentido, gostaria de fazer uma provocação, ampliando a nossa percepção dos, pois, vejo nos contos “A Bela e a Fera” e “O Barba Azul” uma clara narrativa de violência contra a mulher, e gostaria de fazer algumas reflexões sob essa perspectiva. Caso algum leitor não que não se recorde dos contos eu indico a leitura dos contos nos links a seguir: da bela a fera(clicando aqui) e do barba azul (clicando aqui).

A violência contra a mulher não é fenômeno contemporâneo, muito pelo contrário, ao longo de toda história temos incontáveis registros desse tipo de violência.  No Brasil a violência contra a mulher atinge índices ainda mais alarmantes, em 2015 nosso país foi apontado como o quinto país do mundo em violência contra a mulher. O que os contos de fadas poderiam dizer sobre essa realidade?

Primeiro, devemos considerar que esses dois contos possuem similaridades falam de duas jovens que se casaram com homens abusivos, falam da colaboração da família nesse abuso, falam de homens escondem segredos, que usam do poder (um as riquezas e outro força, ameaças) para conseguir o que querem. E, em ambos tem um final feliz, ou pela morte (do barba azul) ou pela transformação da fera.

Devemos notar o modus operandi, onde no conto do Barba Azul a jovem foi enganada, aspirando por um relacionamento seguro, uma vida próspera ela aceita casar com o Barba Azul. No conto da Bela e a Fera, a Bela se vê na necessidade de salvar seu pai e, para tanto, se entrega nas garras da fera.

Acredito ser bem fácil notar a similaridade com nossa realidade. Em nosso dia a dia, é muito comum ouvirmos “mas, ele não era assim” ou “ ele sempre foi atencioso” (tal qual o Barba Azul) e as mentiras utilizadas por esses homens abusivos/agressores tem como efeito principal a culpa e o sentimento de fizeram algo errado, minando a autoestima e aprisionando-as cada vez mais nessa relação perversa. Da mesma forma, é comum vermos como a necessidade (seja ela afetiva ou material) é usada por homens agressores para produzir a dependência material ou emocional como forma de prender as mulheres.

Os contos nos mostram que um dos fatores predominantes nessas agressões é a cumplicidade social. Em ambos os contos, vemos uma complacência da família com os homens abusivos(o Barba Azul e a Fera). Temos em nossa cultura uma conivência com a violência, que se manifestam muito cedo no machismo e sexismo na infância. Ou fator é religião que contribui com a violência, temos igrejas negligenciam saúde e a vida de muitas mulheres em nome de um casamento indissolúvel, onde essas mulheres só podem orar pela “conversão” ou “mudança” de seus maridos.

Assim, esses contos falam de elementos que se repetem no dia a dia com quais nos deparamos cotidianamente seja no consultório, nas igrejas ou nos noticiários. Apesar desses contos apontarem para a possibilidade do “final feliz”, eles não negam os inúmeros “finais infelizes”, que vemos retratados no Barba Azul, na cena onde a jovem esposa abre o quarto proibido,

“Não conseguia enxergar nada, as janelas estavam fechadas. Aos poucos seus olhos foram se acostumando à escuridão e começou a perceber que o assoalho estava todo recoberto por sangue coagulado, e que naquele sangue se refletiam os cadáveres de muitas mulheres mortas, as antigas esposas do Barba Azul, dependuradas ao longo das paredes, degoladas e enfileiradas num espetáculo macabro e aterrador”

Os cadáveres das antigas esposas refletem os inúmeros finais infelizes. Os finais infelizes refletem nossa realidade, refletem nossa cultura que não só cria novos “barbas azuis” e novas “feras”, mas também impõe às muitas mulheres a responsabilidade pelos “finais felizes” suportando os abusos e sofrimentos esperando a transformação desses homens. Essa concepção, presente na Bela e a Fera, reside no ideal romântico de que o “amor tudo vence”, onde a Bela seria recompensada pelo seu sofrimento. Pessoalmente, vejo nisso uma armadilha perversa (digna de um Barba Azul), pois, no geral só tende a produzir culpa nas mulheres e prendê-las ainda mais nesses relacionamentos abusivos.

Voltando aos contos, acredito que precisamos olhar com mais atenção aos modelos de masculinidade apresentada, pois, há uma cumplicidade com a violência seja pelo consentimento claro (como o pai e os irmãos da Bela), ou no Barba Azul, onde temos omissão das figuras masculinas dos irmãos, que só aparecem no último instante, não representam o eros masculino – que cuida, protege, potencializa- mas, o poder da lei o do estado (são soldados, dragões e mosqueteiros).

O desfecho dos contos nos da falam a necessidade de mudança desses modelos de masculinidade que colaboram com a violência, sejam eles ativos engando, matando e ameaçando (barba azul e a Fera) e os passivos (pai, irmãos) que são agentes indiretos da violência. A necessidade de mudança é expressa na morte do barba azul e na transformação da fera em príncipe. Acho perturbador que numa visão clássica essa transformação condicionada à analise pessoal, pois, é insuficiente. Deveríamos voltar nossos olhos para a educação, para os movimentos sociais, para todas as formas que a psique se manifesta buscando a individuação.

Como disse anteriormente, minha proposta é fazer uma provocação. Muitas vezes nos vemos tão envolvidos no mundo dos contos de fadas, mitos e sonhos e não percebemos que eles apontam para nossa realidade social. Acredito que a psicologia junguiana tem muito a contribuir com as questões sociais, com o conhecimento e uso dos contos de fadas para uma educação que valorize a vida, privilegiando o desenvolvimento coletivo.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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