Breve comentário sobre o filme “Um Método Perigoso” de Cronenberg

(29 de abril de 2012)

Finalmente,  eu assisti ao filme mais comentado nas comunidades junguianas nos últimos tempos “Um Método Perigoso” de David Cronenberg. Gostaria de fazer um comentário geral, sem me apegar a detalhes da narrativa.(fazendo assim, spoilers)

O filme tem o mérito inegável de uma excelente fotografia, com paisagens lindas, uma caracterização impecável dos personagens, especialmente dos secundários, como Bleuler, Gross,  Ferenczi. Foi feito um trabalho realmente fabuloso. Mas, especificamente do triangulo sobre o qual a história se desenvolve acho que devo comentar individualmente.

Sobre Freud, de Viggo Mortensen, ficou bem caracterizado, um trabalho excelente de Mortensen, contudo, na minha opinião, Freud pareceu apenas “alguns anos” mais velho que Jung – quando na verdade a diferença era de 20 anos, sei que pode parecer um “excesso” de detalhismo, mas, a diferença de idade foi fundamental para o estabelecimento da relação de respeito e “autoridade” com Jung.

Acerca de Sabina Spielrein… confesso que fiquei profundamente incomodado. A Keira Knightl2ey fez uma interpretação que me pareceu tão caricata, com caras e bocas, ao longo de todo o filme. Se considerarmos que o filme aponta acontecimentos de um período de quase 10 anos. Sabina foi internada em 1904, obteve alta cerca de 1905. Cursou medicina, período no qual teve o envolvimento com Jung, mesmo no final desse período, cerca de 5 anos após sua internação, a Sabina Spielrein de Knightley continua se estivesse acabado de sair da internação. Mas, porque isso me incomodou? Justamente, porque Sabina se tornou uma mulher importante no meio psicanalítico, como o próprio filme indica, e, por outro lado,

Spielrein se apresentara a Freud em 11 de outubro de 1911, e tinha começado a freqüentar seus seminários depois de ter se transferido para Berlim. E, em 25 de novembro de 1911, na presença de 18 membros, entre os quais Freud, Federn, Rank, Sachs, Stekel e Tausk, explica numa conferência as suas idéias sobre o instinto de morte. (…) Um dia depois, Freud comunicava a Jung as suas impressões: “Sabina Spielrein  leu  ontem um capitulo do seu trabalho, (…) ao que se seguiu uma discussão instrutiva. Vieram-me à mente algumas formulações contra seu (…) modo de trabalhar com a mitologia, que também expus a jovem Spielrein. do resto, ela é verdadeiramente talentosa, eu começo a entender…(CAROTENUTO, 1984, p. 35-6)

Seria difícil uma mulher conseguir o respeito da sociedade psicanalítica de Viena fazendo caras e bocas. Enfim, fiquei decepcionado com atuação da Keira Knightley, pois, mais, que “amante doente” de Jung, Sabina Spielrein foi uma mulher que sofreu, superou e influenciou de uma forma direta ou indireta dois dos maiores gênios do século XX. Acredito que o filme “Jornada da Alma” (2003) fez mais justiça a Sabina Spielrein que este.

O Carl Gustav Jung de Michael Fassbender ficou bem caracterizado, mas, vale lembrar que Jung possuia um porte um tanto quanto “avantajado”, entre os amigos tinha o apelido de “barril”, e a diferença de altura entre Jung e Freud era tamanha que na foto do Congresso de Psicanálise de 1911, Freud pediu um banco para subir para não ficar abaixo de Jung. Mas, certamente, esse primeiro aspecto não influi em nada, é apenas uma curiosidade. O segundo, por outro lado, chamou muita atenção: o Jung de Fassbender me pareceu profundamente inseguro. Não podemos perder de vista que antes de conhecer Freud, Jung já era assistente do Dr. Bleuler, privatdozent da Faculdade de Medicina de Zurique (1905-1913), palestrante oficial do Hospital Burgholzli.  Jung era altivo e orgulhoso, seria estranho Freud confiar o “futuro” do movimento psicanalítico a um homem confuso e inseguro como o Jung de Fassbander.

Faço esses comentários não para desmerecer o filme, mas, para lembrar que um filme, por mais bem intencionado, não faria justiça aos personagens históricos que o inspiraram. E, assim, devemos buscar estudar e conhecer mais esses personagens de modo a “completar” em nós mesmos a lacuna deixada pelo filme, que é apenas um vislumbre desses nomes.

Apesar desses comentários, os fatos históricos foram retratados de forma bem fiel, como as 13 horas do primeiro encontro, a viagem aos EUA, a crise de síncope, alguns diálogos relatados no Memórias, Sonhos e Reflexões, a troca de cartas (pois, boa parte da relação deles foi epistolar e não presencial),  buscando fazer um retrato o mais fiel possível da relação de Freud e Jung.

Assim, por conhecer a história, o filme não me impressionou, certamente foi incomparavelmente melhor ao antecessor “Jornada da Alma” (The Soul Keeper) de 2003. Mas, acredito que para quem nunca estudou a história do movimento psicanalítico, o filme apresenta um belo retrato daquele momento, instigando espectador buscar maiores informações acerca dos primórdios das abordagens do inconsciente.

Vale a pena ser visto, como um primeiro passo nessa jornada de estudo.

Referências Bibliográficas

CAROTENUTO, Aldo (org.). Diário de Uma Secreta Simetria. RJ: Paz e Terra,. 1984.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Pensando a Relação com o Inconsciente a partir do Conto “O Sapateiro e os Duendes”

(16 de abril de 2012)

(Agradeço a psicóloga Giuliana de Paula Oliveira. por sua participação no insight que me trouxe a este post. Sucesso!)

O Sapateiro e os Duendes

Era uma vez um sapateiro que trabalhava duro e era muito honesto. Mas nem assim ele conseguia ganhar o suficiente para sobreviver. Até que, finalmente, tudo que ele tinha no mundo se foi, exceto a quantidade de couro exata para ele fazer um par de sapatos. Ele os cortou e deixou preparados para montar no dia seguinte, pretendendo acordar de manhã bem cedo para trabalhar. Apesar de todas as dificuldades, tinha a consciência limpa e o coração leve, por isso foi tranquilamente para a cama deixando seus problemas aos cuidados dos céus, e adormeceu. De manhã cedo, depois de dizer suas orações, preparava-se para fazer seu trabalho, quando, para seu grande espanto, ali estava os sapatos já prontos, sobre a mesa. O bom homem não sabia o que dizer ou pensar sobre aquele estranho acontecimento. Examinou o acabamento: não havia sequer um ponto falso no serviço todo e era tão bem-feito e preciso que parecia uma perfeita obra de arte.

Naquele mesmo dia apareceu um cliente e os sapatos agradaram-lhe tanto, que teria pago um preço muito acima do normal por eles; e o pobre sapateiro, com o dinheiro, comprou couro suficiente para fazer mais dois pares. Naquela noite cortou o couro e não foi para a cama tarde porque pretendia acordar e começar cedo o trabalho no dia seguinte: mas foi-lhe poupado todo o trabalho, pois quando acordou, pela manhã, o trabalho já estava feito e acabado. Vieram então compradores que pagaram generosamente por seus produtos, de modo que ele pôde comprar couro suficiente para mais quatro pares. Ele novamente cortou o couro à noite, e encontrou o serviço acabado pela manhã, como antes; e assim foi durante algum tempo: o que era deixado preparado à noite estava sempre pronto ao nascer do dia, e o bom homem prosperou novamente.

Certa noite, perto do natal, quando ele e a mulher estavam sentados perto do fogo conversando, ele lhe disse:

-” Gostaria de ficar observando esta noite para ver quem vem fazer o trabalho por mim.”

A esposa gostou da idéia. Eles deixaram, então, uma lâmpada ardendo e se esconderam no canto do quarto, por trás de uma cortina, para observar o que iría acontecer. Quando deu a meia noite, apareceram dois anõezinhos nus que se sentaram na bancada do sapateiro, pegaram o couro cortado e começariam a preguear com seus dedinhos, costurando, martelando e remendando com tal rapidez que deixaram o sapateiro boquiaberto de admiração; o sapateiro não conseguia despregar os olhos do que via. E assim prosseguiram no trabalho até terminá-lo, deixando os sapatos prontos para o uso em cima da mesa. Isto foi muito antes do sol nascer; logo depois eles sumiram depressa como um raio.

No dia seguinte, a esposa disse ao sapateiro:

– “Esses homenzinhos nos deixaram ricos e devemos ser gratos a eles, prestando-lhes algum serviço em troca. Fico muito chateada em vê-los correndo para cá e para lá como eles fazem, sem nada para cobrir as costas e protegê-los do frio. Sabe do que mais vou fazer uma camisa para um, e um casaco, e um colete, e um par de calças em troca; você fará para cada um deles um sapatinho”.

A idéia muito agradou o bom sapateiro e, certa noite, quando todas as coisas estavam prontas, ele as puseram sobre a mesa em lugar das peças de trabalho que costumavam deixar cortadas e foram se esconder para observar o que os duendes fariam. Por volta de meia-noite, os anões apareceram e iam sentar-se para fazer o seu trabalho, como de costume, quando viram as roupas colocadas para eles, o que os deixou alegres e muito satisfeitos. Vestiram-se, então, num piscar de olhos, dançaram, deram cambalhotas e saltitaram na maior alegria até que finalmente saíram, dançando pela porta para o gramado, e o sapateiro nunca mais os viu: mas enquanto viveu, tudo correu bem para ele desde aquela época.

Retirado de http://www.aterp.com.br/o-sapateiro-e-os-duendes.htm

Para mim esse conto é muito especial, pois, sempre que o leio eu vejo a compreensão junguiana acerca da relação com o inconsciente. Isso porque uma das principais características dos junguianos é a confiança no inconsciente. É a confiança no princípio autorregulador da psique.

Nesse conto, eu vejo no velho sapateiro honesto um belo exemplo ego e da consciência, que em sua ação cotidiana e diurna possui limites naturais, pois, o ego e a consciência por si mesmos não são autossuficientes. Devemos notar que nesse conto não indica uma atitude neurótica, pois, o velho sapateiro “trabalhava duro e era muito honesto”  e “Apesar de todas as dificuldades, tinha a consciência limpa e o coração leve, por isso foi tranquilamente para a cama deixando seus problemas aos cuidados dos céus”.

Por outro lado, a noite é representação mais propícia do mergulho no inconsciente, caracterizada pelo sono. No conto, quando o sapateiro desperta, faz suas orações, e ele descobre um par de sapatos, produzidos naquela noite. Assim, como os sonhos são produtos ou presentes dados a consciência pelo inconsciente.

De aberto a colaboração do desconhecido (=inconsciente) o sapateiro continua realizado seu trabalho e acolhendo e utilizando da melhor forma os sapatos que recebe, de forma, a se enriquecer ou poder prosperar. Aceitar e se permitir a relação com o inconsciente possibilita o enriquecimento simbólico/energético da consciência, estruturando e vitalizando o ego.   

A esse respeito, Jung nos diz algo bem interessante,

Quando conseguimos estabelecer a função denominada fun­ção transcendente, suprime-se a desunião com o inconsciente e então o seu lado favorável nos sorri. A partir desse momento, o inconsciente nos dá todo o apoio e estímulo que uma natu­reza bondosa pode dar ao homem em generosa abundância. O inconsciente encerra possibilidades inacessíveis ao conscien­te, pois dispõe de todos os conteúdos subliminais (que estão no limiar da consciência), de tudo quanto foi esquecido, tudo o que passou despercebido, além de contar com a sabedoria da experiência de incontáveis milênios, depositada em suas estruturas arquetípicas.

O inconsciente está em constante atividade, e vai combi­nando os seus conteúdos de forma a determinar o futuro. Pro­duz combinações subliminais prospectivas, tanto quanto o nosso consciente; só que elas superam de longe, em finura e alcance, as combinações conscientes. Podemos confiar ao inconsciente a condução do homem quando este é capaz de resistir à sua sedução.(JUNG, 2001, p. 106)

A última frase de Jung é especialmente interessante “Podemos confiar ao inconsciente a condução do homem quando este é capaz de resistir à sua sedução” . Vejamos no conto, na véspera do natal, o sapateiro e sua esposa se escondem para ver o que acontecia na oficina, ficando surpresos com os dois duendes nus, que faziam tão primoroso trabalho. É importante notar que o fato deles estarem nus, indica que eles era seres próprios da natureza. Frente aquela cena o pensamento deles é “recompensar”, “presentear” com roupas aqueles seres fantáticos. Isso é resistir a tentação.  Eles não pensaram em explorar ou dominar aquelas criaturas, se guiando pela riqueza que eles poderiam ter com os duendes.

Mas, eles optaram por respeitar os duendes oferencendo presentes, roupas. As quais os duendes vestem, brincam e voltam para a noite, sem perder suas características. Estabelecendo um acordo respeitoso. A relação com o inconsciente para ser frutifera precisa ser equilibrada, compreendo o que o inconsciente nos diz, percebendo suas formações de forma objetiva – como os duendes. Jung afirma que , 

Um dos requisitos essenciais do processo de confrontação é que se leve a sério o lado oposto. Somente deste modo é que os fatores reguladores poderão ter alguma influência em nossas ações. Tomá-lo a sério não significa tomá-lo ao pé da letra, mas conceder um crédito de confiança ao inconsciente, proporcionando-lhe, assim, a possibilidade de cooperar com a consciência, em vez de perturbá-la automaticamente. 
A confrontação, portanto, não justifica apenas o ponto de vista do ego, mas confere igual autoridade ao inconsciente. A confrontação é conduzida a partir do ego, embora deixando que o inconsciente também fale — audiatur et altera pars [ouça-se também a outra parte]. (JUNG, 2000, p.20-1)

Esse aspecto de respeitar o inconsciente e suas “mensagens” é fundamental. Muitas vezes, sonhamos ou mesmo somatizamos e afirmamos “Ah! Eu estou apenas somatizando”, como se a somatização fosse uma produção do Ego ou como se a somatização não estivesse dizendo nada! Um dos maiores perigos que corremos é de cometermos a “apropriação indébita” das produções do inconscientes, creditando-as ao Ego. Em outras palavras, seria mais adequado dizer “eu recebi um sonho” e não “Eu sonhei”. Pois, somente com a devida atenção podemos garantir o distanciamento ou objetividade necessária para lidar respeitosamente com o inconsciente. Essa relação gera um equilibrio saudável, uma sensação de integridade ou “inteireza”. É justamente, como o conto nos narra, “sapateiro nunca mais os viu: mas enquanto viveu, tudo correu bem para ele desde aquela época”.

A confiar no inconsciente é confiar na potencia de vida que reside no interior de cada um nós, que mesmo em meio a dor e ao sofrimento, busca o desenvolvimento e o   amadurecimento.

Rerefências Bibliográficas

JUNG, C.G. Psicologia do Inconsciente, Vozes: Petrópolis, 2001

_________. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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Algumas considerações sobre o conceito de “projeção”

(02 de abril de 2012)

Recentemente, no Facebook,  a colega Tania Frison me pediu para indicar um texto sobre a questão de na projeção psicologia analítica. Como não conhecia nenhum texto, pensei em produzir um pequeno comentário sobre esse conceito.

Em primeiro lugar é fundamental lembrarmos que o conceito de projeção é uma herança psicanalítica adotada por Jung. Apareceu nas “primeiras publicações psicanalíticas” de Freud, mais precisamente no texto “Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa” de 1896. Nesse texto, Freud um estudo comparativo entre histeria, neurose obsessiva e paranóia, para então compreender e apresentar o mecanismo de defesa dessas neuroses.

Parte dos sintomas, ademais, provém da defesa primária – a saber, todas as representações delirantes caracterizadas pela desconfiança e pela suspeita e relacionadas à representação de perseguição por outrem. Na neurose obsessiva, a auto-acusação inicial é recalcada pela formação do sintoma primário da defesa: aautodesconfiança. Com isso, a auto-acusação é reconhecida como justificável; e, para contrabalançá-la, a conscienciosidade que o sujeito adquiriu durante seus intervalos sadios protege-o então de dar crédito às auto-acusações que retornam sob a forma de representações obsessivas. Na paranóia, a auto-acusação é recalcada por um processo que se pode descrever comoprojeção. É recalcada pela formação do sintoma defensivo de desconfiança nas outras pessoas. Dessa maneira, o sujeito deixa de reconhecer a auto-acusação; e, como que para compensar isso, fica privado de proteção contra as auto-acusações que retornam em suas representações delirantes. (FREUD, 1996, p.182)

No texto acima, podemos perceber que Freud descreve a projeção como um mecanismo defesa, onde um conteúdo pulsional é reprimido, modificado e deslocado para um objeto externo.  Essa é a visão clássica da psicanálise.

A compreensão de Jung acerca da projeção é, até certo ponto,  próxima da psicanálise, especialmente em seu aspecto estrutural, segundo Jung,  “A projeção – onde quer que os conteúdos subjetivos sejam transportados  para o objeto, surgindo como se a ele pertencesse – nunca é um ato voluntário”(JUNG, 2000, p. 146). Contudo, a semelhança termina por aqui.

No que diz respeito ao aspecto funcional, a compreensão de Jung é outra, pois, para ele o mecanismo de projeção fazia parte da dinâmica normal (ou  natural) da psique, podendo estar relacionada a uma dinâmica saudável da psique ou atuar como uma mecanismo de defesa como na patologia(como era na visão de Freud). Toda e qualquer afirmação acerca de um caso específico onde a projeção se manifesta deverá considerar seu próprio contexto.

Daryl Sharp, em seu “Léxico junguiano”(1993), nos informa alguns aspectos importantes acerca da projeção segundo Sharp,

É possível projetar certas características em outra pessoa que não as possui em absoluto, mas, a pessoa sobre a qual se dá a projeção pode, inconscientemente, encorajar a tal projeção.

(SHARP, 1993, p.127)

(NOTA:  Em seu texto, Sharp prossegue fazendo uma citação direta de Jung, como a tradução da Cultrix é muito diferente da tradução da Vozes, vou fazer a mesma citação utilizando a tradução da vozes, para facilitar  a localização e a pesquisa por parte dos interessados.)

Em tais casos é freqüente ver que o objeto oferece uma oportunidade de escolher a projeção, ou mesmo a provoca. Isto acontece quando o objeto (pessoa) não está consciente da qualidade projetada. Com isto ela atua diretamente sobre o inconsciente do interlocutor. Com efeito, qualquer projeção provoca uma contra-projeção todas as vezes que o objeto não está consciente da qualidade projetada sobre ele pelo sujeito.(JUNG, 2000b, p.211)

Sharp/Jung nos apresenta aspectos importantes que nos permitem compreender a dinâmica da projeção, esmiuçando essa citação:

1 – Muitas vezes a projeção é provocada, incentivada, ou motivada por certas características do objeto.

2 – A projeção pode significar uma relação inconsciente de dois individuos.

3 – A projeção provoca uma contra-projeção.

Esses três aspectos estão intimamente relacionados, acredito que um exemplo, pode nos ajudar. Um rapaz imaturo, dependente,  indeciso, com um complexo materno acentuado, pode projetar numa mulher forte e independente (com quem tenha ou não relação afetiva), aspectos de seu complexo materno, mesmo que essa mulher não apresente caracteristicas maternais, pode vir, devido a projeção, apresentar características de cuidado maternal. Esses atribuitos de “independência e força” podem servir de “gancho” favorecendo a projeção, isto é, oferecendo um “gancho” para que a projeção fosse “pendurada”.

Assim, compreendendo que a projeção corresponde a uma dinâmica natural da psique, podemos dizer que

A projeção tem, também, efeitos postivos. No dia-a-dia, ela facilita as relações interpessoais. Além disso, quando supomos que alguma característica ou qualidade está presente em uma pessoa, e constatamos, então, pela experiência, que a suposição não tem fundamento, podemos aprender algo sobre nós mesmos. (SHARP, 1993, p.127-8)

(NOTA: Em seu texto, Sharp prossegue fazendo uma citação direta de Jung, como a tradução da Cultrix é muito diferente da tradução da Vozes, vou fazer a mesma citação utilizando a tradução da vozes, para facilitar a localização e a pesquisa por parte dos interessados.)

Por isto, enquanto o interesse vital, a libido, puder utilizar estas projeções como pontes agradáveis e úteis, ligando o sujeito com o mundo, tais projeções constituem facilitações positivas para a vida. Mas logo que a libido procura seguir outro caminho e, por isto, começa a regredir através das pontes projetivas de outrora, as projeções atuais atuam então com os maiores obstáculos neste caminho, opondo-se, com eficácia, a toda verdadeira libertação dos antigos objetos. (JUNG, 2000b, p. 203)

Assim, Sharp/Jung apontam como as projeções propicia a dinâmica interpessoal. Essas projeçôes diminuem as defesas e auxiliam o individuo se permita a experiência.

A necessidade de retirar as projeções é, geralmente, indicada por expectativas frustradas nos relacionamentos, acompanhadas de um forte afeto. Jung era da opinião, contudo, que enquanto houver uma discordância óbvia entre aquilo que imaginamos ser verdade e a realidade que se nos apresenta, não há necessidade de se falar em projeções e menos ainda de retira-las. (SHARP, 1993, p.128)

(NOTA: Em seu texto, Sharp prossegue fazendo uma citação direta de Jung, como a tradução da Cultrix é muito diferente da tradução da Vozes, vou fazer a mesma citação utilizando a tradução da vozes, para facilitar a localização e a pesquisa por parte dos interessados.)

(…) mas só se pode denominá-la projeção quando aparece a necessidade de dissolver a identidade entre sujeito e objeto. Esta necessidade aparece quando a identidade se torna empecilho, isto é, quando a ausência de conteúdo projetado prejudica muito a adaptação, e o retorno desse conteúdo para dentro do sujeito se torna desejável. A partir desse momento a prévia identidade parcial adquire o carater de projeção. Esta expressão designa, pois, um estado de identidade que se tornou perceptível(JUNG, 1991, p. 436)

O texto de Sharp/Jung nos oferece uma compreensão muito importante, somente podemos falar em projeção quando ela se torna desfuncional, nesse caso, será perceptível a incompatibilidade entre as percepções do sujeito e a realidade do objeto. Antes disso, ela será apenas parte da dinâmica natural.

Jung ainda fazia uma distinção entre projeção ativa e passiva. Em linhas gerais, a projeção ativa seria o que chamamos de empatia, “sentir com o outro” ou “sentir como o outro” o que poderia chegar a identificação. Por outro lado, a projeção passiva seria o que compreendemos normalmente como a projeção, um fenômeno inconsciente que nos toma.

Frente ao que comentamos, fica mais claro para compreender algumas das projeções específicas, como a sombra, anima ou animus e os complexos. De forma geral, para haver a projeção é necessário um “gancho” sobre o qual possa se estabelecer essa projeção. No caso da sombra, que está relacionado com os aspectos próprios negados pelo Ego, a tendência é a projeção em pessoas do mesmo sexo. Pois, a identidade se torna mais clara. Essa projeção da sombra, em alguns casos é “aversiva”  e o individuo vai se sentir “perseguido” ou tendo na receptáculo da projeção um inimigo. Em outros casos, a projeção da sombra se torna atraente, pois, a projeção da sombra pode indicar justamente aspectos subdesenvolvidos, que o sujeito precisa se desenvolver.

Por outro lado, a projeção da anima do homem ou do animus na mulher, vão sempre se relacionar a pessoas do sexo oposto. Isso porque os aspectos que vão constituir a anima ou animus não estão relacionados com a identidade do ego, mas, podem ser compreendidos como o totalmente outro.   

Acredito ser importante compreendermos que os vários aspectos da projeção, quer numa dinâmica de defesa ou na dinâmica saudável, têm por finalidade última favorecer o encontro do individuo consigo mesmo. Ao projetar um conteúdo no meio externo o inconsciente não “esconde” esse conteúdo, mas, expõe o individuo a esse conteúdo de uma forma que não ofereça tanto perigo ao Ego, possibilitando que o no momento certo o individuo possa se confrontar e integrar esse conteúdo, dando mais um passo no processo de individuaçao.

Referências Bibliográficas

FREUD, S. . Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. III.

JUNG,C.G. Vida Simbólica Vol. I , Petrópolis,: Vozes 2000

_________ Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991.

_________. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000b.

SHARP, Daryl – Léxico jungiano: dicionário de termos e conceitos – São Paulo: Cultrix. 1993. 167 p. (Estudos de Psicologia Junguiana por Analistas Junguianos)

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

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