Resposta a um comentário de Aldo Costa: Sobre o que é ser um “analista junguiano”

(13 de março de 2012)

Há algumas semanas  Aldo Costa, um leitor que participa ativamente de nosso blog, postou um comentário muito interessante. Ele comentou:

Prezado Fabrício, 

Por que Analista Junguiano não é profissão regulamentada? Nesse sentido, existe diferença entre o Brasil e outros países?
Uma outra dúvida é: quando o psicólogo se autointitula Analista Junguiano, sem ter frequentado um Instituto/Sociedade vinculada à IAAP, aprendendo a teoria de Jung e a sua Psicologia Analítica somente por seus próprios estudos, ele (psicólogo) pode fazer isso?(se autointitular Analista Junguiano, mesmo sem ter frequentado instituições vinculadas à IAAP?).
Esses questionamentos vieram para mim há algumas semanas quando você postou em seu blog um trecho do livro Ser Terapeuta onde citou uma fala do analista junguiano Léon Bonaventure, onde este, ao ser indagado, reponde o que é ser analista junguiano e diz dentre outras informações que: (Ser analista junguiano) “É ter a coragem de viver a individuação”, dizendo categoricamente que para ele, hoje, a formação, os diplomas, “ser membro da Sociedade” nada tem a ver com a identidade de ser analista junguiano.
E, finalizando, o Conselho Federal de Psicologia (ou os CRP´s) autorizam que o psicólogo, no caso acima exposto, permite o psicólogo (sem curso em instituições vinculadas à IAAP) se autointitular Analista Junguiano e divulgar para seus pacientes?
Qual a sua opinião?

Muito obrigado.

Confesso que gostei muito dos questionamentos levantados pelo Aldo, ainda mais, por acreditar que ele deu voz a inúmeras outras pessoas que tem essas mesmas dúvidas. Até porque são questões complexas, que tentarei responde-las da melhor forma possível. Caminhemos um passo de cada vez,

Por que Analista Junguiano não é profissão regulamentada?

No Brasil, nenhuma abordagem psicoterapêutica é considerada profissão regulamentada. Isto é, não há nenhuma lei que cria e regulamenta seja a profissão de “analista junguiano”, “analista bioenergético” ou de psicanalista.

No inicio da década passada, houve uma tentativa de regulamentação da profissão de psicanalista. Na época, as principais entidades de referência da psicanálise, apoiadas pelo Conselho Federal de Psicologia, Conselho Federal de Medicina e pela Associação Brasileira de Psiquiatria, dentre outras, se organizaram contra essa regulamentação, participando de audiências e produzindo documentos expondo os motivos, desde os apontamentos nos textos de Freud até a situação contemporânea da psicanálise, para não se regulamentar a profissão de psicanalista.

Essa oposição pela regulamentação da psicanálise estava pautada sobretudo no critério de formação. Pois, uma regulamentação padronizaria o exercício profissional e delimitaria um currículo e tempo de formação. Num texto sobre essa questão da regulamentação da psicanalise, BALEEIRO apresenta um esboço daquela proposta de regulamentação

O Projeto n.º 3.944 é composto de seis capítulos. Inicialmente, faz algumas considerações, justificando assim a sua necessidade. No geral, trata da regulamentação da seguinte forma:

Cap. I. – define quem é e de quem trata o psicanalista e onde atua – Psicanalista é a profissão e o título é de psicanalista clínico – trata de pacientes portadores de distúrbios psíquicos de natureza inconsciente;

Cap. II – quem forma – as sociedades serão registradas, reconhecidas e vinculadas ao MEC que irá definir: currículo mínimo, matérias complementares, estágio, obrigatoriedade da análise didática;

Cap. III – reconhece as sociedades existentes antes da vigência da lei – no entanto fixa critérios para as próximas e regulamenta as existentes, ligando-as ao MEC;

Cap. IV – quem fiscaliza e registra as entidades – o Conselho Federal e os Estaduais de Medicina.( BALEEIRO, 2002)

A regulamentação da psicanálise significaria, por um lado, a definitiva mercantilização da psicanálise (ainda presente em função de cursos de formação de 2 anos) por outro, essa regulamentação abriria a possibilidade que qualquer instituição que atendesse os critérios do MEC, poderia direcionar a psicanálise de acordo com os próprios interesses, como instituições religiosas. Não há nenhuma duvida de que se a psicanálise fosse regulamentada, esta se tornaria em larga escala posse de instituições religiosas – usando-a para justificar seu próprio sistema. Como já vemos, na chamada psicanálise cristã.

Mas, porque eu insisti tanto em falar da psicanálise? Justamente porque a análise junguiana não possui a representatividade  da psicanálise, desta forma, os acontecimentos dessa abordagem serviria como um paradigma para pensar os desdobramentos das demais abordagens que lidam com o inconsciente.

Em nossos dias é comum vermos junguianos adotando o titulo de “psicanalistas junguianos”. Isso nos dá um bom indicativo de que se a psicanálise fosse regulamentada, seriam oferecidos cursos de psicanálise freudiana, psicanálise junguiana dentre outros. É sabido que alguns misturam a psicologia analítica com suas crenças religiosas, havendo essa regulamentação, daria o respaldo oficial para essa mistura. De certa forma, ainda há a possibilidade de um certo controle da comunidade profissional para evitar a mercantilização e o domínio ideológico da abordagem, pois,  cabe as instituições e os profissionais delimitarem as diretrizes, selecionar os candidatos que se adeqúem as exigências pessoais e éticas ao exercício da analise.

Deste modo, a regulamentação é algo que é combatido pela comunidade profissional, pois,  abriria uma possibilidade de deturpar a análise junguiana, ou qualquer outro tipo de análise.

Nesse sentido, existe diferença entre o Brasil e outros países?

Infelizmente, não tenho informações sobre a regulamentação em outros países, assim, fico devendo esta resposta.

Uma outra dúvida é: quando o psicólogo se autointitula Analista Junguiano, sem ter frequentado um Instituto/Sociedade vinculada à IAAP, aprendendo a teoria de Jung e a sua Psicologia Analítica somente por seus próprios estudos, ele (psicólogo) pode fazer isso?(se autointitular Analista Junguiano, mesmo sem ter frequentado instituições vinculadas à IAAP?).

Essa é uma questão bem polêmica.  Veja bem, no Brasil, os cursos de formação de analistas junguianos são cursos livres , isto é, não possuem um caráter oficial, não reconhecidos pelo MEC. Por mais que tenham uma carga horária alta (cerca de 750 h), não possuem um valor efetivo enquanto titulação. O fato de ser em uma instituição respeitada como a SBPA ou a AJB, que são vinculadas a IAAP, nos informa acerca da qualidade do curso, mas, não altera muito a questão da titularidade que, como disse, é de curso livre.

Quero deixar claro que em hipótese alguma quero desmerecer a formação vinculada a SBPA, AJB ou qualquer instituição vinculada a IAAP, cuja qualidade e profundidade são inquestionáveis.

Entretanto, na minha opinião, o que acontece é que de fato,  como não há regulamentação, a designação “analista junguiano” se torna uma identidade teórica. Assim, o psicólogo que se identifica com a psicologia analítica ou com a análise junguiana se assuma “analista junguiano”. Do mesmo modo que um psicólogo que estuda psicanálise se apresente como “psicanalista”, não indicando necessáriamente uma formação, mas, uma identidade teórica ou de abordagem.

Esses questionamentos vieram para mim há algumas semanas quando você postou em seu blog um trecho do livro Ser Terapeuta onde citou uma fala do analista junguiano Léon Bonaventure, onde este, ao ser indagado, reponde o que é ser analista junguiano e diz dentre outras informações que: (Ser analista junguiano) “É ter a coragem de viver a individuação”, dizendo categoricamente que para ele, hoje, a formação, os diplomas, “ser membro da Sociedade” nada tem a ver com a identidade de ser analista junguiano.

A afirmação do Dr. Léon Bonaventure deve ser compreendida à luz de sua história. Vale apena recordar que Dr. Léon Bonaventure foi o primeiro analista junguiano reconhecido pela IAAP a vir para o Brasil, em 1967.  Ele foi um “ativista junguiano” muito importante, sendo um dos responsáveis pelo projeto da tradução das obras completas. Segundo Arnaldo Motta (2005) nos finais da década de 70, muitos médicos e psiquiatras buscaram do Dr. Bonaventure para realizar análise didática, criando em torno dele um grupo de pessoas interessadas em criar um instituto de formação em psicologia analítica aberto a diversos profissionais, essa proposta de Dr. Bonaventure encontrou resistência do Dr. Carlos Byington, que defendia a restrição da função de analista a psicólogos e médicos.

Após um periodo desgastante, Dr. Léon Bonaventure se afastou do grupo por ele criado. Este grupo, vinculando-se a liderança do Dr. Carlos Byinton deu origem a Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, em 1978. Apesar de seu importante papel, ele não foi convidado para compor ou participar da SBPA que nascia. Outros pioneiros junguianos de importância inquestionável na psicologia analítica brasileira, como Dr. Petho Sandor e a Dra. Nise da Silveira também não fizeram parte da sociedade, por ocasião de sua fundação.

Com essas informações, podemos compreender que fazer parte de uma Sociedade ou Associação, muitas vezes implica num movimento político. E, fazer parte ou não de uma instituição não significa que o individuo não será um bom analista junguiano. Outro exemplo, é Roberto Gambini, analista junguiano formado em Zurique, não é membro da SBPA ou da AJB.

E, finalizando, o Conselho Federal de Psicologia (ou os CRP´s) autorizam que o psicólogo, no caso acima exposto, permite o psicólogo (sem curso em instituições vinculadas à IAAP) se autointitular Analista Junguiano e divulgar para seus pacientes?

Bem Aldo, acredito que essa pergunta já foi contemplada, né? De certa forma, analista junguiano pode ser compreendida como uma identidade teórica. Compreendendo também, que o curso de formação de analista  não é exclusivo de instituições vinculados a IAAP.

Você também me pediu minha opinião, ok. Pessoalmente, eu respeito profundamente os analistas vinculados a IAAP, tive vários professores da SBPA. De igual modo, respeito profundamente tanto a SBPA quanto a AJB. Mas, acredito supervalorizamos a psicologia analítica “institucional”. No Brasil, temos vários grupos independentes que estudam e trabalham seriamente divulgando o pensamento junguiano. Devemos dar mais valor a esses movimentos.

Concordo com Dr. Léon Bonaventure, a identidade junguiana não está em certificados ou em carteirinhas de sociedades, mas sim, em viver a individuação. Penso que muitas vezes, a formação não é pensada como um treinamento profissional, mas, como uma autoafirmação profissional. Atendendo a necessidade de fazer parte de algo maior, um grupo.

Roberto Gambini, em seus últimos parágrafos do livro “A Voz e o Tempo”, nos diz,

(…)A psicologia junguiana não poderá jamais ser reduzida a uma técnica de exercício profissional ou de manejo de transferência no setting terapêutico, nem muito menos confinada a um código acadêmico, exatamente por ser um modo de observar, pensar e fazer no qual se fundem objetividade e arte, ciência e poesia, formação e iniciação. A objetividade que praticamos é e deve ser contaminada pela alma, pois sem sua mediação no mundo, tanto interior como exterior, nos é incompreensível. Nunca usaremos aventais brancos nem trabalharemos com instrumentos de precisão, sejam testes ou diagnósticos – assim como nunca seremos neofreudianos.

Digo outra vez: sentimentos de inferioridade profissional podem ser uma defesa que impede o contato com o Self.Nós junguianos temos um complexo de herança – ainda não aprendemos a herdar com serenidade. Alarmamo-nos com a idéia de que a herança possa ocultar um problema paterno, ou que ameace nossa liberdade criativa.

Ninguém é dono de Jung. Mas, podemos coletar as pepitas de ouro que encontramos pelo caminho e nos tornarmos a árvore única que cada um, desde o começo, está fadado a ser. (GAMBINI, 2008, p. 214)

Espero ter respondido as questões. Aldo Costa, muito obrigado por sua contribuição!!!

Referências bibliográficas

BALEEIRO, Maria Clarice. Sobre a regulamentação da psicanálise.Cogito,  Salvador,  2002 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-94792002000100013&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  13  mar.  2012.

GAMBINI, R. A voz e o tempo: reflexões para jovens terapeutas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.

MOTTA, Arnaldo Alves Psicologia Analítica no Brasil; contribuições para a sua história, São Paulo: PUC, Tese de mestrado, 2005.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Algumas Reflexões sobre a vida vivida, teoria e prática

6 de março de 2012

Esse post começou a surgir durante o desfile das escolas de samba de Vitória, pois, até bem poucos anos atrás eu não compreendia o carnaval, nem mesmo fazia sentido para mim. Confesso que continuo sem compreende-lo, mas, por outro lado, hoje ele é pleno em sentido e significados.

Como disse, esse post começou a surgir durante o desfile das Escolas de Samba de Vitória (dia 11/02), que ocorre uma semana antes do carnaval nacional; o longo desta semana me vinham pensamentos acerca deste tema, até que na sexta-feira de carnaval tive um sonho, meio vago, que, por fim, definiu este post. Eu estava numa sala, que se parecia com um amplo camarote, haviam algumas pessoas, uma mesa no centro. E eu sambava por todo aquele espaço, de um lado a outro, contornado a mesa, enquanto as pessoas me olhavam.”

Eu cresci e vivi durante um longo tempo num meio religioso onde o carnaval “não era bem visto” (para não dizer que era algo do diabo). Assim, sempre fui estranho ao carnaval. De 2010 para cá, acabei por me permitir a experiência do carnaval, e a cada ano venho descobrindo mais o carnaval. E o que posso afirmar é que o carnaval é uma experiência que não se deve verbalizar, mas, viver.

Isso porque existe um campo de nossa existência que não se apreende nos livros nem mesmo nas quatro paredes de um consultório. Esse campo só se manifesta através da vida vivida. Jung afirmou que

Portanto, quem quiser conhe­cer a psique humana infelizmente pouco receberá da psicologia experimental. O melhor a fazer seria [pendurar no cabide as ciências exatas, despir-se da beca professoral, despedir-se do gabinete de estudos e caminhar pelo mundo com um coração de homem: no horror das prisões, nos asilos de alienados e hospitais, nas tabernas dos subúrbios, nos bordéis e casas de jogo, nos salões elegantes, na Bolsa de Valores, nos “meetings” socialistas, nas igrejas, nas seitas predicantes e extáticas, no amor e no ódio, em todas as formas de paixão vividas no pró­prio corpo, enfim, em todas essas experiências, ele encontraria uma carga mais rica de saber do que nos grossos compêndios.

Então, como verdadeiro conhecedor da alma humana, tomar-se-ia um médico apto para ajudar seus doentes. Poder-se-ia perdoar-lhe o pouco respeito pelas assim chamadas “pedras angulares” da psicologia experimental. Pois entre o que a ciência chama de “psicologia” e o que a práxis da vida diária espera da “psicologia” “há um abismo profundo”. (Jung, Psicologia do Inconsciente, p. 112-3)

Jung publicou essa afirmação em 1912, isto é, há 100 anos atrás, e,  suas palavras continuam muito atuais. Certamente, devemos ter uma certa cautela em não “desprezar a psicologia experimental”, pois, não é disso que ele fala, mas, em viver uma vida real e plena e não uma vida de “ouvir falar”.

Quando nos permitimos essas experiências abrimos a possibilidade de um vivência única, plena e que rompe e fertiliza nossa vida comum. Nos elevando para além, da experiência comum. No carnaval de Vitória, o refrão da Boa Vista, escola campeã, soou quase como um mantra,

Na batida do congo, o tambor
Se você me chamar, eu também vou
Canta, canta Madalena
Bota a saia pra girar, ninguém resiste
Ser Capixaba também é chique!

A história de vida de Elisa Lucinda, homenageada pela Escola, se tornou um pouco da história de cada um. Por alguns instantes, todos, num só coro, se tornavam um.

Como definiria essa experiência? Assombrosa e Fascinante.

Outra história relativamente parecida, que me vem a mente, aconteceu há alguns anos, acredito que em  2006, muito antes de sequer pensar em carnaval, eu tive uma experiência muito parecida com essa. Era um domingo de maio, mês de Maria, eu estava assistindo a missa na Igreja Católica, como já disse venho de uma tradição protestante evangélica, deste modo, nunca compreendi ou mesmo fez sentido para mim a devoção a Maria. Nesse dia, havia muita comoção na igreja, muitas pessoas choravam, eu apenas olhava um pouco entediado, tentando entender aquela “catarse” coletiva, pois, não havia ocorrido nada que para mim ( tipo pensamento introvertido) justificasse aquilo. Foi quando de repente senti um estranho arrepio por todo o corpo. Então, eu percebi que não estava alheio a tudo, como imaginava, mas, estava dentro daquele mistério e não era apenas uma “catarse coletiva”. Confesso que continuo sem compreender a devoção mariana, mas, consigo vislumbrar o seu sentido.

Como definiria essa experiência? Assombrosa e Fascinante.

Os adjetivos “Assombroso” e “Fascinante” não foram ao acaso. Pois, esses adjetivos foram utilizados por Rudolf Otto para descrever onuminoso, aspecto fundamental do sagrado, Jung compreendeu como sendo uma característica fundamental da manifestação arquetípica.

Vou tentar sintetizar alguns aspectos que pude aprender que envolvem essas experiências:

1 – Aspecto teórico:

Essas experiências me permitiram compreender melhor a dinâmica psicológica que se manifesta nessas situações. Foi justamente na experiência que tive nessa igreja, que pude compreender com maior clareza a dimensão de símbolo e do conceito de self grupal.

O conceito de símbolo é fundamental para a compreensão da dinâmica psíquica para a abordagem junguiana. Nessas experiências, em especial na experiência da igreja, pude me tornar mais atento que constelação símbolo, que a rigor é uma produção do inconsciente, atinge a consciência também pela via corporal, isto é, o símbolo se expressa pela vivência do corpo, quando a referência consciente do individuo não possui um repertório imagético para receber essa manifestação, ela se expressará através do corpo. O que estou dizendo, é semelhante ao processo de somatização. Entretanto, ao invés de formação do sintoma, prevalece a sensação numinosa, como um certo desconforto, agitação, espanto.

Por outro lado, para as pessoas que participavam integralmente desse fenômeno, podia se perceber que após, a comoção no período ritual, havia a expressão de tranquilidade ou mesmo de uma renovação e fortalecimento egóico.

Essa situação me ajudou a compreender melhor a amplitude da manifestação arquetípica, que mesmo a história individual não houvesse um continente apropriado para o símbolo, este se constelaria na através do corpo, se impondo a consciência, quer por um símbolo que engolfe a consciência ou por sensações corporais.

Para compreender esse fenômeno coletivo de constelação simbólica é necessário nos voltar a um conceito que é, na minha opinião, pouco utilizado, o conceito de self grupal. Segundo Byington O Self Grupal “expressa a totalidade das forças conscientes e inconsciente, subjetivas e objetivas atuando num grupo e sendo coordenadas pelos mesmos arquétipos do self individual” (BYINGTON, 1996, p.29-30).

Apesar de não encontrarmos na obra de Jung os conceitos de Self grupal (que foi introduzido primeiramente por Neumann) e o conceito de Self Cultural (que foi introduzido por Byington), podemos observar nos artigos dos “Aspectos do Drama Contemporâneo” e no prefácio do Psicologia do Inconsciente

A psicologia do indivíduo corres­ponde à psicologia das nações. As nações fazem exatamente o que cada um faz individualmente; e do modo como o indivíduo age, a nação também agirá. (Jung, 2001, p. VIII)

As considerações acerca da psicodinâmica coletiva oferecida por Jung, Neumann e Byington são importantes para compreendermos os fenômenos coletivos sem os taxarmos precipitadamente de patológicos ou, muitas vezes, como histeria coletiva. Na semana posterior ao carnaval, eu ouvi uma relato muito interessante, uma pessoa que foi assistir ao desfile das escolas de samba do rio de janeiro. Seu interesse maior era ver o desfilo  do Salgueiro, que é sua escola de coração, por outro lado, o desfile que menos importava era da Mangueira, segundo ela nunca gostou dessa escola, contudo, mesmo após cantar e dançar durante todo o desfile do Salgueiro, quando começou o desfile da Mangueira, ela contou que mesmo cansada e não gostando da Mangueira, ela não conseguiu deixar de cantar,  pular e dançar com o desfile da mesma, ela dizia é “realmente, a Mangueira é uma escola que tem algo diferente”. 

Mas, como compreender isso? Podemos supor que numa constelação da psique coletiva, a identidade do ego desloca-se para o grupo, isto é, para o self grupal. Assim, quer na igreja ou quer no sambódromo a experiência numinosa se manifesta, pois, subjacente a percepção consciência, a dinâmica arquetípica envolve o ego.

2 – Aspecto Clínico:

Como clínico junguiano eu tenho clareza que todas as experiências que me atravessem e me compõem de uma forma ou de outra vão se manifestar em minha prática clínica. Pois, quando estou na frente de um cliente, estou ou busco estar em minha totalidade. O que cada cliente fala vai ressoar de modo diferente em mim, onde me toca, a lembrança que me traz, a sensação, me auxilia a compreender o que ele me diz, a entender o que me comunica para além das palavras. Para perceber qual o caminho que deve ser trabalhado, possíveis sentimentos, sensações, que pode estar inacessíveis ao cliente.

Por isso, Jung afirmou na citação acima, que para compreender a alma humana e seu sofrimento é necessário.

caminhar pelo mundo com um coração de homem: no horror das prisões, nos asilos de alienados e hospitais, nas tabernas dos subúrbios, nos bordéis e casas de jogo, nos salões elegantes, na Bolsa de Valores, nos “meetings” socialistas, nas igrejas, nas seitas predicantes e extáticas, no amor e no ódio, em todas as formas de paixão vividas no pró­prio corpo, enfim, em todas essas experiências, ele encontraria uma carga mais rica de saber do que nos grossos compêndios.

A vida e a psicoterapia não se faz na teoria ou de teoria.

A Vida Vivida

Acredito o ponto fundamental desse post é a dimensão da vida vivida. Jung foi um exemplo bem claro dessa dimensão, suas viagens, encontros, sempre que leio biografias de Jung, eu o vejo como alguém que viveu bem a vida, viveu bem os erros e acertos, as contradições.

Essa é a condição necessária para a individuação, viver as oportunidades que a vida oferece. Frequentemente usamos a máxima, “o cliente só vai até aonde o analista foi”. Essa máxima se refere ao desenvolvimento individual do terapeuta, não apenas das horas de análise pessoal, mas, como ele aplica a análise pessoal em sua própria vida.

Concluo esse post, com os versos de Vinicius de Moraes,

Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Nao há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão

Referências,

BYINGTON, Carlos A. B. Pedagogia Simbólica – A Construção Amorosa do Conhecimento de Ser. São Paulo: Rosa dos Tempos, 1991

JUNG, C.G. Psicologia do Inconsciente, Vozes: Petrópolis, 2001

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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