Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte III: Considerações sobre a Persona do Analista

(5 de julho de 2011)

Em outros post já falamos sobre o conceito de persona. Neste post, eu gostaria de ampliar um pouco a discussão acerca desse conceito.

Gostaria, então, de relembrar brevemente o conceito de persona resgatando a explicação dada pelo próprio Jung em entrevista ao Dr. Richard Evans.

Dr. Evans: Outro conceito ou idéia muito interessante em sua obra é a persona. Parece ser sumamente importante para a existência cotidiana do indivíduo. O senhor importar-se-ia de explicar um pouco mais detalhadamente como foi que elaborou esse termo,persona?

Dr. Jung: É um conceito prático de que precisamos para elucidar as relações das pessoas. Observei nos meus pacientes, sobretudo as pessoas que estão na vida pública, que têm uma certa maneira de se apresentar. Por exemplo, um médico. Ele tem uma maneira própria; apresenta-se de um modo característico e comporta-se como esperamos que um médico se comporte. Ele pode até identificar-se com isso e acreditar que é o que parece ser. Tem de aparecer de uma certa maneira, caso contrário, as pessoas não acreditarão que é médico. O mesmo acontece com um professor; também só espera que o seu comportamento seja tal que aceitemos a plausibilidade dele ser professor. Assim, a persona é, em parte, o resultado das exigências da sociedade.

Por outro lado, é o fruto de um compromisso com o que uma pessoa gosta de ser ou gosta de parecer que é. Observe-se, por exemplo, um pároco. Ele também tem a sua maneira particular e, ó claro, vai ao encontro das expectativas gerais da sociedade; mas também se comporta de outra maneira que combina a sua persona com aquilo que a sociedade lhe impõe, de tal forma que a sua ficção de si mesmo, a sua idéia sobre si mesmo, é mais ou menos retratada ou representada.

Assim, a persona é um determinado sistema complexo de comportamento parcialmente ditado pela sociedade e parcialmente ditado pelas expectativas ou desejos que a pessoa alimenta sobre si mesma Ora, isso não é a personalidade real. Apesar do fato das pessoas garantirem que tudo isso é perfeitamente honesto e real, não é. Um tal desempenho da persona está muito certo, desde que se saiba que não é idêntico ao que parece ser; mas se se estiver inconsciente desse fato, então está-se condenado a entrar, por vezes, em conflitos muito desagradáveis. Por exemplo, as pessoas não deixarão de notar, que em casa, a pessoa é muito diferente do que parece ser em público. As pessoas que não sabem disso podem acabar cometendo tremendos Equívocos. Elas negam ser assim, mas são assim; é o que são. Então já não se sabe qual delas é o homem real. É o homem tal como como se conduz em casa ou em relações íntimas, ou é o homem que aparece em público?

É o dilema de Jekyll e Hyde. Ocasionalmente, é tão grande a diferença que quase poderíamos falar de uma dulpa personalidade; e, quanto mais pronunciada for essa diferença, mais as pessoas são neuróticas. Ficam neuróticas porque têm duas maneiras distintas de se comportar: contradizem-se o tempo todo e como, além disso, não têm consciência de de si mesmas, ignoram essas contradições. Pensam ser um todo uno e coeso, mas toda a gente vê que são duas. Alguns só conhecem um lado delas; outros só conhecem o outro lado. E depois ocorrem situações que se chocam, porque a maneira como o indivíduo é gera certas situações com as pessoas de suas relaçoes e essas duas situaçoes não condizem; de fato, elas são simplesmente desonestas, e quanto mais for esse o , caso mais as pessoas são neuróticas.(EVANS, S/D.78-9)

O termo persona foi retirado da máscara utilizada pelos atores do teatro  greco-romano utilizavam. A imagem representacional isto é, amáscara é especialmente significativa  para compreendermos essa dinâminca psíquica. Devemos compreender alguns pontos:

a) a persona é uma estrutura cuja a dinâmica é limiar : o campo de atuação da persona é o limiar entre o individuo e o social. Ela indica um limite, uma zona de interseção que, por um lado, atende as exigências tanto do sociais quanto as exigências ou necessidades do individuo na relação com o social. Em geral, podemos relacionar a persona ao pacto social, ao relação do individuo com a sociedade.

b) a persona é uma estrutura bilateral: A persona, como uma máscara, possui sempre a dupla função de esconder e revelar. Não devemos compreender a persona ou a máscara como um falseamento do individuo, mas, como uma estrutura legítima da personalidade que revela aspectos reais do individuo – apesar de parciais. Como Jung explicitou na citação acima “Assim, a persona é um determinado sistema complexo de comportamento parcialmente ditado pela sociedade e parcialmente ditado pelas expectativas ou desejos que a pessoa alimenta sobre si mesma “ Assim, se por um lado, a persona representa as imposições sociais, os papéis sociais que todos devemos desempenhar, por outro lado, a persona é o veiculo pelo qual o individuo pode ser realizar no campo social.

c) A persona é uma estrutura defensiva: Não podemos perder de vista que a persona é uma estrutura que defende o individuo do assédio do mundo exterior. Uma vez que corresponde a um aspecto parcial da vida do individuo, os ataques realizados ao indivíduos, são recebidos pela persona, isto é, são recebidos como um ataque a um aspecto do individuo, não a totalidade, ou ao individuo integral. Por isto, podemos traçar um paralelo, identificando a persona com o falso Self de Winnicott.

d) A persona é uma estrutura de adaptação: A persona corresponde ao aspecto adaptativo do Self.  A persona possibilita que o Self se constele de forma adequada no mundo. A persona revela o Self ao mundo. Por isso, é importante compreender que a persona é a ponte entre o mundo interior e exterior, assim, a persona é o elemento do Self que possibilita que o individuo seja ele-mesmo-no-mundo.

Certa vez, ouvi uma interpretação equivocada acerca da persona baseada numa má compreensão do texto de Jung, no “O eu e o Inconsciente”, nele Jung afirma que a “ meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais” (2000, p.61).  Onde, disseram que a “persona” era falsa ou que deveríamos nos “desfazer” da persona. Na verdade, devemos compreender como “invólucros falsos” como as identificações do ego com  a persona, na qual, o individuo  diminui o contato consigo mesmo em função de uma adaptação excessiva ao mundo exterior. Onde a pessoa passa desempenhar o seu papel social (seja sua função familiar ou profissional), vivendo esse recorte de sua existência como se fosse sua totalidade.

Mas, como pensar a persona do analista?

Quando compreendemos os diferentes aspectos da persona, podemos compreender que a persona estará relacionada por um lado, com as representações sociais, com as exigências éticas da profissão, a postura exigida pela abordagem, todos esses elementos constituem o aspecto exterior da persona. Por outro lado, escolha da abordagem, a constituição do setting, a postura adotada pelo psicoterapeuta, constituem o aspecto interior ou pessoal da persona do analista.

Esses elementos são fundamentais para o analista ou psicoterapeuta poder se comunicar com o seu cliente. A persona é sempre um instrumento de comunicação, e será adequada na mesma medida da integridade do analista.

Devemos tomar cuidado, ao dizer que “a persona do analista”  se caracteriza pela “neutralidade”. A neutralidade é uma ilusão, pois, quando estamos diante de uma pessoa já influenciamos ou somos influenciados por esta pessoa. O que caracteriza a persona do analista é uma disponibilidade, uma abertura ao outro. Onde, nesta relação, a minha totalidade se disponibiliza a este outro que se encontra na minha frente.

Um psicólogo ou analista ciente de sua função terapêutica, cuja relação consigo mesmo é saudável, compreendendo a complexidade da relação terapêutica, não teria dificuldades no desenvolvimento de uma persona adequada, que revela o que é necessário ao processo terapêutico. Isto é, a persona do analista não deve ser compreendida como um “escudo”, mas, como uma ponte, que estabelecida de forma adequada não esconde nada, muito pelo contrario, apenas revela o que é necessário a relação terapêutica.

Certa vez, num encontro com os alunos do instituto Jung de Zurique, Jung respondeu a um aluno,

Muito mais forte do que suas frágeis palavras é a coisa que você é. O paciente está impregnado pelo que você é – pelo seu ser real – e presta pouca atenção ao que você diz. (…) Cada passo em frente que o paciente dá pode ser uma nova etapa para o analista. Não se pode estar com alguém sem ser influenciado por essa personalidade, mas o mais provável é que se não se perceba isso; (HULL, McGUIRE, 1984, p. 332)

Infelizmente, muitos confundem frieza ou distância com a neutralidade ou com uma chamada “postura ética”.

Devemos nos voltar para a ultima citação de Jung, pois, nela há uma informação fundamental, ele nos alerta que o Self se revela independente da persona ou do papel que persona se  desempenha. Obviamente, a forma mais adequada seria o Self se revelar através da persona. Então, devemos pensar o que revelamos quando utilizamos da persona para nos esconder?

Algumas expressões fazem parte do nosso “dialeto psicológico” como “fazer cara de geladeira branca”, “Cara de Mona Lisa”, “cara de paisagem” dentre outras que indicam uma certa atitude do psicoterapeuta em não se implicar pessoalmente num dado momento do tratamento.  Em alguns momentos essas expressões de silencio podem ser realmente necessárias, contudo, não podemos fazer dessa atitude uma constante.

Sustentar a persona de analista significa compreender que a persona é o meio mais adequado por onde a totalidade psíquica do analista se faz presente, da forma mais adequada e terapêutica. Assim, a persona não deve ser compreendida como um escudo, mas, como uma ponte que tornará a relação terapêutica viável. É compreender que a persona não deve esconder, mas, revelar o aspecto necessário do terapeuta para que a relação analítica possa se desenvolver. Sustentar a persona, significa, por outro lado, sustentar o dialogo com a própria o próprio inconsciente. Por isso Jung dizia que,

Todo psicoterapeuta não só tem seu método: ele próprio é esse método. Ars totum requirit hominem”[a arte exige o homem inteiro] diz um velho mestre. O grande fator de cura, na psicoterapia é a personalidade do médico – esta não é dada “a priori”; conquista-se com muito esforço, mas não é um esquema doutrinário. As teorias são inevitáveis, mas, não passam de meios auxiliares.(JUNG, 1999b, 84)

Deste modo, deve-se compreender que a persona deve refletir o Self do analista, e não reproduzir uma postura teórica, fria e engessada.

Referências bibliográficas

EVANS,R.Entrevistas com Jung e as Reações de Ernest Jones. Rio de janeiro:eldorado,1973

McGUIRE, W.; HULL, R.F.C, C.G.JUNG: ENTREVISTAS E ENCONTROS, Cultrix: São Paulo, 1984.

JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1999 

JUNG, A pratica da psicoterapia, Petropolis: Vozes, 7ed. 1999b.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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